A liberdade está matando a arte?

Tenho para mim que a arte é filha direta da repressão com a censura.

O Renascimento, por exemplo, só existiu depois que a peste bubônica devastou meia Europa e convenceu o mundo de que viver em uma submissão literal aos mandamentos cristãos não estaria, enfim, agradando tanto a Deus. Ainda assim, mesmo nessa época mais negra da humanidade, Dante cunhava sua Divina Comédia repleta de críticas ricamente entranhadas em metáforas político-religiosas e Giotto revolucionava as artes visuais pintando o que acreditava disfarçado de ingênuos temas religiosos.

A arte pré-renascentista era pura resistência sutil feita por heróis geniais.

Tudo mudou no Renascimento? Mais ou menos. Não dá para dizer, afinal, que não havia censura em tempos que fogueiras queimavam pessoas como se fossem churrasquinhos de final de semana.

Como burlar a censura que punia de morte o livre-pensar?

Metaforizando-o.

Tome como exemplo o teto da Capela Cistina, encomendado a Michelangelo pelo Papa Júlio II. Uma ode ao cristianismo? Certamente, como não poderia deixar de ser em uma obra encomendada pelo Vaticano. Mas, ao mesmo tempo, um conjunto imenso de sutis (porém ferozes) críticas à decadência da igreja e do pontífice, este último detestado pelo artista.

 

Siga com o tempo e atravesse as artes. Vá para a literatura.

 

Há como negar a riqueza de símbolos e metáforas em Dom Quixote, até hoje um dos livros mais vendidos do mundo?

E nas descrições feitas do nosso Brasil pelos primeiros europeus sob o constante olhar vigilante dos seus monarcas?

E no modernismo? Há como negar as tantas incontáveis simbologias em Macunaíma?

Atravessamos colonialismo, impérios e ditaduras aqui pelas nossas bandas. Nossa arma para contestar tanta repressão?

A arte. A mesma arte que, ao disfarçar protestos de beleza, imortalizava suas histórias enquanto criticava o mundo a seu redor.

Se a arte é a maneira mais livre de se expressar, então os simbolismos e as metáforas foram suas maiores aliadas em tempos de censura e perseguição. Mais que isso: sem recorrer aos simbolismos, o teto da Capela Cistina não passaria de um teto qualquer e Dom Quixote seria apenas um relato realista comparável a uma novela das nove.

Avancemos, agora, aos nossos tempos.

Sim, temos (e sempre teremos) muito do que reclamar e exigir dos nossos líderes, sejam eles eleitos ou não – mas não temos como reclamar de falta de liberdade. Hoje, podemos tudo: não somos queimados na fogueira por criticar o Papa, não somos presos e torturados por exigir a prisão de líderes políticos, não “desaparecemos” ao nos tornarmos politicamente inconvenientes.

Isso significa que podemos ser diretos em nossos pleitos, podemos falar o que pensamos sem recorrer a disfarces mais elegantes para esconder nossas reais intenções. A liberdade, a mesma liberdade pela qual tanto lutamos nos últimos milênios, venceu! Uma felicidade indiscutível para a humanidade, claro… mas talvez uma tristeza para a produção artística como um todo.

Para quê, afinal, dedicar anos cuidadosamente maquiando mensagens em livros e afrescos se basta postar um protesto qualquer diretamente no Facebook sem medo de repressão?

Para quê metaforizar, correndo o risco de perder o entendimento de boa parcela do público, se basta apontar e gritar a pulmão aberto?

Para quê fazer arte se o caminho mais curto para a mudança, hoje, é mostrar a própria realidade desnuda?

 

Por outro lado, qual a graça de se retratar a realidade que todos já vemos da forma que todos já enxergamos?

Há valor artístico na obviedade?

Temo que estejamos testemunhando, em nossos ricos tempos, a morte da arte.

Espero estar errado.

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Confesso que nunca li Ferreira Gullar

Confesso que nunca li nada de Ferreira Gullar.

Já cruzei com ele em uma esquina aqui por São Paulo, já tropecei em alguns de seus livros em prateleiras desleixadas de livrarias, já ouvi seu nome perambular por rodas de conversa. Sim, fiquei curioso, quase instigado… mas acabei nunca comprando nada dele.

E confesso também que minha lista de desejos literária sempre foi tão grande (e crescente) que nunca coloquei seu nome com tanto destaque assim. Pelo menos até agora.

No último final de semana, depois de sua morte, me senti o maior dos ignorantes.

Fiquei ali, zapeando entre canais e vendo retrospectivas riquíssimas sobre um contemporâneo que só me interessou depois que virou passado. Vi as cenas em preto e branco da ditadura, vi seus comentários altamente lúcidos sobre os caminhos da esquerda brasileira, vi alguns poemas sendo recitados. Me assustei um pouco, confesso, com a crueza de alguns – mas foi um tipo de susto bom, daqueles que empurra o leitor de um verso a outro com um grau a mais de fome.

Percebi que entender um contemporâneo é sempre mais fácil e entusiasmante do que entender um fantasma: os que compartilham o mesmo mundo que nós, afinal, usam como pano de fundo para a arte o mesmo ethos que nos cerca.

A morte de Gullar esfregou minha ignorância na minha própria cara. “Como pude nunca me interessar por um escritor tão denso e tão próximo?”, me perguntei.

Não achei resposta.

Enfim, acabei me entregando ao pouco elogioso hábito de preferir homenagear cadáveres a seres vivos e, finalmente, comprei Poema Sujo.

Ele ainda não chegou e, portanto, ainda não passei das sinopses e elogios em sites.

Mas lerei.

Juntamente com a promessa feita a mim mesmo de ao menos tentar com mais afinco testemunhar a poesia dos vivos, dos que compartilham os mesmos tumultuados tempos que eu e, portanto, que já tem uma conexão quase paisagística comigo.

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Sejamos otimistas quanto ao mercado editorial brasileiro

Nós, aqui no Clube, nos acostumamos a ser uma espécie de “voz discordante” de muito do que o mercado editorial fala sobre si mesmo.

Ainda bem, aliás: nosso mercado costuma ser feito por mentes velhas com uma resistência quase ideológica a qualquer forma de inovação. O resultado: um abismo entre a forma que o mercado se comporta e a demanda do leitor.

Segundo o mercado, o brasileiro não lê praticamente nada e o Brasil tende a mergulhar nas trevas da ignorância. Pior: como basta repetir algo incontáveis vezes para se criar uma percepção de verdade, a estridência verbal dos velhos editores, vítimas de suas próprias metodologias de trabalho baseadas em muita fumaça e pouca transparência, acabou consolidando na mentalidade popular a incontestável imagem de que o brasileiro não lê praticamente nada.

Ignore essas verdades, por um minuto, e olhe ao redor. Hoje é praticamente impossível não testemunhar alguém lendo um livro em um ônibus, metrô ou parque.

Os jovens, até então injustamente interpretados como uma massa ignorante e praticamente acéfala, nunca leram tanto. Em que outra geração, afinal, se viu adolescentes ávidos por séries de livros como Harry Potter, cada um deles composto de centenas e centenas de páginas? Sim: intelectualóides de plantão podem argumentar que Harry Potter não é exatamente Schoppenhauer – mas não é óbvio que essa consolidação de hábito de leitura em faixas etárias menores só tende a trazer benefícios no médio e longo prazo, criando gerações muito mais cultas do que as que pertencemos?

Nesse ponto, insistimos: nunca se leu tanto no Brasil quanto hoje. O número exato? Segundo o Instituto Pro-Livro, 56% dos brasileiros foram considerados leitores em 2016 (versus 55% em 2007 e 50% em 2001). Crescimento pequeno? De forma alguma, principalmente considerando o tamanho da população brasileira.

Vou além: esse crescimento estatístico é apenas a ponta de um iceberg formado por uma massa gigante de novos leitores sendo forjada a partir da Internet e de sagas que tem dominado o imaginário adolescente cujos frutos veremos apenas nos próximos anos.

Repito o que já postei aqui no passado: sim, o brasileiro lê menos que um sueco médio. Por outro lado, há muito, mas muito mais gente aqui do que lá, o que faz do mercado editorial brasileiro um ambiente muito mais dinâmico e intenso.

Em resumo: se você é um escritor que está se aventurando neste nosso mercado, aceite um conselho de quem está nele desde 2009: deixe o pessimismo de lado e concentre-se em aprender como captar o imaginário do seu leitor.

Acredite: ele existe e está lá, ansiosamente esperando ser instigado da maneira certa e no momento propício para mergulhar em uma nova história.

Man Reading Book and Sitting on Bookshelf in Library --- Image by © Royalty-Free/Corbis
Man Reading Book and Sitting on Bookshelf in Library — Image by © Royalty-Free/Corbis

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Conhecendo os micromomentos dos leitores

Na quarta passada fiz um post inteiramente pautado em zeitgeists e no excesso de inspirações que o nosso complicado mundo nos entrega diariamente. O Google tem uma interpretação “complementar” a isso: segundo eles, todas as decisões de consumo são, hoje, cozinhadas por “fatos precedentes” e tomadas em “impulsos imediatos”.

Isso apenas sublinha (ou complementa) a importância de se saber “captar o momento” do leitor: se uma decisão de compra é disparada de maneira tão instantânea, resta aos autores saber como “incentivar” essa instantaneidade, como fazer o gatilho ser disparado.

O segredo pode estar em diversos lugares: em uma sinopse antenada à atualizada e que consiga se destacar nos buscadores, em eventos diferentes que despertem a curiosidade, em uma presença intensa nas redes sociais certas ou até mesmo em uma capa cuidadosamente perturbadora.

A base desse (e de qualquer) segredo, no entanto, é a mesma: conhecer o seu público leitor. Há como escrever alguma história de sucesso sem isso?

Vale acompanhar o vídeo abaixo, do Google, sobre o conceito de micromomentos:

 

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Zeitgeist e a inspiração que nasce dos tumultos de nossos tempos

Zeitgeist é uma palavra alemã que significa “espírito do tempo”. Sua aplicação prática: entender qual o conjunto de valores que está efetivamente movendo uma sociedade em um dado momento para que se consiga tomar proveito disso.

O “tomar proveito”, nesse caso, significa surfar a onda de uma comoção popular já formada e, portanto, deixando algo que se queira vender (seja um produto ou uma história) com uma vantagem fundamental. E, apesar do conceito parecer recém saído das páginas de um livro de marketing, ele já era essencial há séculos.

Tome Shakespeare, por exemplo.

Todas, absolutamente todas as suas grandes peças tiveram os seus enredos baseados em fatos que estavam mexendo com o imaginário popular. Othello foi escrito quando Elisabeth I expulsava os mouros de Londres; o Rei Lear se baseou em um caso jurídico real que se transformara na grande fofoca do reino; MacBeth foi feita para celebrar, por meio de metáforas, a linhagem do monarca James I , para quem a peça foi escrita.

A receita de Shakespeare sempre foi simples (o que, ressalvo, não subtrai em nada a sua genialidade): entender o que estava movendo o povo e criar uma peça que metaforizasse o momento para angariar um tipo mais entusiasmado de atenção.

O bardo, no entanto, viveu em um tempo de poucas imensas mudanças sociais – o oposto do nosso.

Nossos tempos são mais agitados: há pequenas revoluções, por assim dizer, acontecendo a cada par de dias. Olhe para a política brasileira: não há uma só semana em que tudo não esteja na iminência de uma ruptura completa.

Olhe a política americana: não dá para dizer que a eleição de Trump, com todas as suas promessas xenófobas e radicais, vá pacificar o planeta.

Olhe para os refugiados do Oriente Médio, para a falta de preparo da Europa em recebê-los e para o absoluto caos gerado por causa disso. Olhe para o Brexit.

Olhe ao seu redor.

O mundo tende a ser um lugar muito, mas muito mais tenso do que o que já foi em qualquer ponto do passado pós revolução industrial.

E por que isso tem alguma relevância em um blog que gira em torno de escritores?

Porque, se me permitem a frieza, nunca um mundo entregou tanto zeitgeist e tanta inspiração para histórias.

Esse lugar quente, feito de cataclismas semanais e de radicalismos diários, é uma espécie de paraíso para mover mentes e corações e gerar clássicos talvez muito mais intensos que os da Inglaterra Shakespeariana.

Para quem está do lado de cá da tela, apenas acompanhando a literatura moderna enquanto ela se forma, é um tempo que se pode traduzir no mais puro entusiasmo.

Para quem está do lado daí, torna-se cada vez mais imperativo saber como aproveitar bem esse nosso mundo tão inclinado a se revolucionar.

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