Que todos tenhamos o mais literário dos Natais

Ficamos observando, nos últimos meses, toda uma longa lista de editoras e livrarias praticamente implorando para que todos dessem livros de Natal. Ficamos calados.

Vejam: não é que – obviamente – tenhamos nada contra dar livros de Natal. Nós não apenas vivemos de livros como somos, acima de qualquer coisa, leitores absolutamente apaixonados. Eu mesmo li, ao longo desse ano, mais de 30 livros – e tenho por hábito desde que me entendo por gente dar apenas livros de presente.

O que me incomodou nessa campanha encabeçada por editoras em crise foi o seu motivador.

Porque não se deve dar livros de presente para “salvar” editores e livreiros. Editores e livreiros devem se salvar por seus próprios méritos, entendendo seus mercados e as mudanças que se abateram sobre eles e, claro, se modernizando, atualizando-se para um mundo bem diferente do que eles estavam habituados. Só eles podem se salvar.

O motivador para dar livros de presente deve ser outro: o livro em si.

Porque cada livro contém um universo inteiro dentro de si, contém a sua própria fonte da eterna juventude, contém suspiros, desesperos, lições, lágrimas e sorrisos. Contém, para resumir tudo em uma palavra, vida. Há presente melhor que isso?

Dificilmente.

Hoje é véspera de Natal e, acredito, todos já estejam com seus presentes devidamente comprados e esperando apenas o momento certo da entrega.

E espero, sim, que muitos dêem e recebam livros, com todas as suas sabedorias embutidas.

Espero também que esses presentes tenham sido motivados pelo que eles representam, e não pelas lamentações de um mercado tão carente de inovação.

Mas, seja como for, o que espero mesmo é que esses livros inspirem todos nós a abrir cada vez mais as nossas mentes e a escrever muitas, muitas histórias no ano que vem.

Porque, no fundo, é isso que nos faz humanos: a nossa capacidade de ouvir e contar histórias.

Leia as histórias dos outros.

E conte a sua.

Feliz Natal.

 

 

 

 

 

 

 

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E aí? Ganhou livros no Natal?

Tomara que sim.

E tomara que tenha somado toda uma biblioteca de títulos para te inspirar nesse desafiador ano de 2018 que está já às nossas portas.

Afinal, se não pudermos contar com as experiências dos heróis que recheiam a literatura como guias para as nossas tomadas de decisão, como esperar acertar? Apenas pelo instinto e pela sorte?

Daqui, do Clube, esperamos que o Natal de todos tenha sido repleto de novas histórias – e que cada uma delas os inspire e ajude a publicar uma infinidade de novos livros para a posteridade!

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As duas opções do Clube para o Dia das Crianças

Naturalmente, quaisquer opções ou recomendações nossas para o Dia das Crianças girarão, sempre, em torno da literatura. Não poderia ser diferente: só com letras e histórias mentes melhores poderão ser forjadas, poderão entender e aprender a interpretar o mundo com a maestria que desejamos para os nossos filhos.

Há, pois, duas recomendações nossas. A primeira é a mais óbvia: aproveitar a promoção no Clube de Autores e escolher entre os tantos milhares de títulos voltados para crianças que temos aqui.

O segundo, no entanto, é um pouco mais sofisticado e vem também de um projeto nosso, a Fábrica de Historinhas: transformar o seu filho em personagem e dar a ele um livro em que ele próprio seja protagonista. Quer melhor maneira de incentivar o gosto pela leitura, afinal, do que literalmente inserindo a criança no enredo?

Dá uma olhada: há dezenas de títulos super interessantes a partir dos quais você pode escolher e viajar com seu filho ou filha pelo mundo tão mágico da literatura!

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Sobre os dois Tempos que vivemos

Aristóteles acreditava que passamos a vida colecionando uma série de momentos memoráveis – de “agoras” que acabavam marcando a nossa história pessoal. O tempo, para ele, era apenas uma linha que interligava esses “agoras” dando algum tipo de cronologia lógica ou ordenamento às nossas experiências de vida. 

Sob esse aspecto, o tempo acaba sendo algo muito mais pessoal e individual do que o que costumamos interpretar. Eu iria além: é como se houvesse dois Tempos diferentes. 

O primeiro deles, universal, é essencial apenas para manter algum tipo de ordem na nossa sociedade. Agora, enquanto escrevo este post, são 7:59 em São Paulo e 9:59 em Lisboa. O sol tem seus momentos para nascer e dormir em cada canto do mundo, as bolsas tem instantes precisos para abrir e fechar, os horários comerciais serão pontualmente cumpridos em quaquer parte da Terra. Eis o Tempo universal, tediosamente harmônico, marcando o passo da evolução do cotidiano. 

Mas há também o segundo Tempo, muito mais importante do que o primeiro: é o Tempo individual. Se você está prestes a encontrar algum amor não correspondido, por exemplo, sentirá os minutos vagando a velocidade de lesma; se estiver correndo contra algum prazo, cada hora passará como se fosse um segundo; e se estiver imerso em alguma experiência nova, descobrindo alguma nova fronteira da filosofia, desbravando novos terrenos e fazendo os olhos beber paisagens exoticamente virgens, então todo o Tempo se congelará para que absorva o máximo que o coração permitir. 

Assim, na medida em que o primeiro Tempo – o universal – for caminhando, ele deixará todo um rastro de experiências intensas encravado na memória: angústias, conquistas, descobertas. Quando, já idosos, olharmos para trás e pensarmos em nossas vidas, não será o tempo universal que sentiremos: será esse conjunto de memórias que nos terão feito ser quem formos.

Assim, quanto mais intensamente a vida for vivida, mais desses “agoras aristotélicos” colecionaremos ao longo das nossas próprias histórias. Quanto mais momentos (ou “agoras”) formos acumulando ao longo da nossa vida biológica, ao longo do Tempo universal, mais longo será o nosso Tempo individual e, portanto, mais longa também será a nossa vida pessoal. 

Viver mais, portanto, nunca esteve ligado a somar mais de 100 anos de existência: viver não tem nada a ver com existir. 

Viver tem a ver com o Tempo individual, com os “agoras” de Aristóteles; existir é tão somente a linha que une esses momentos e que tem uma relevância meramente estrutural, cronológica.

Viver mais, enfim, tem a ver com colecionar o máximo possível de experiências ao longo de uma vida, populando a linha aristotélica de tantos momentos que, ao final de 60 anos, teremos sentido mais a vida que qualquer monge tibetano capaz de existir em estado zen por 120 anos.

Viver é colecionar histórias. 

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Passado, presente e futuro da literatura

Muitos dos grandes clássicos que lemos hoje foram escritos em um mundo gigantesco, provinciano, onde tudo era distante e difícil. 

Para Tolstoi, sair de São Petersburgo para Moscou – uma viagem de cerca de 700km – durava dias, muito mais do que as poucas horas de vôo que temos hoje. O mesmo Tolstoi se criou na cidade de Tula que, em princípios do século, era uma das maiores do Império Russo, contando com quase 52 mil habitantes (!). 

Ainda assim, em um mundo isolado de si mesmo por meios de comunicação absolutamente precários, onde o conceito de globalização era existente apenas enquanto sinônimo de dominação imperialista, ele conseguiu captar a mente humana como poucos. Tolstoi não estava só, claro. Muitos, muitos dos grandes intérpretes da alma humana, de Goethe a Guimarães Rosa, nasceram e se criaram em um passado tediosamente provinciano e recheado de barreiras políticas, culturais e tecnológicas erigidas justamente para evitar que novas ideias ganhassem novos públicos. Ainda assim elas ganharam, furando as barreiras com uma facilidade pueril.

De lá para cá, o mundo diminuiu consideravelmente: aviões transformaram dias em horas e a Internet metamorfoseou horas em frações de segundo. Hoje, podemos não saber tudo – mas sabemos o caminho para quase tudo que quisermos saber. Não há mais barreiras exceto, paradoxalmente, o próprio excesso de novas ideias e possibilidades.

Hoje é possível babar sobre obras do impressionismo francês pela manhã, provar comida turca no almoço, devorar literatura brasileira à tarde e se deleitar com uma peça inglesa à noite – tudo na mesma cidade e com um esforço mínimo. 

O efeito chega a ser óbvio: o acesso a tanto conhecimento certamente está levando a nossa sociedade a patamares jamais imaginados. 

Muitos dos (futuros) grandes clássicos que estão nascendo agora tem as grandes metrópoles e a fusão sócio-cultural como pano de fundo. Dá para ir além, até: a profusão de novas obras geniais gerou uma quase inédita e frenética simultaneidade de gêneros. Se, no passado, era possível separar romantismo de realismo em uma linha de tempo quase exata, o mundo de hoje convive com estilos que vão do neo-romantismo ao “new weird” ao realismo fantástico e à ficção científica, tudo sempre com o recheio de fanfics que apimentam suas “sagas-maternas” ao ponto de se tornarem algo totalmente à parte. 
O mundo hoje é mais simultâneo, mais imediato, mais dinâmico – e tudo isso, fruto de uma era de metrópoles tão físicas quanto virtuais, leva a crer que a literatura está apenas começando a dar ao mundo os seus grandes gênios, parindo toda uma multiplicidade de cérebros que rivalizarão com os Tolstois, Goethes e Rosas que tanto aprendemos (justamente, acrescente-se) a venerar.

É emocionante viver em nossos tempos. 

É ainda mais emocionante trabalhar com literatura nessa era de descobertas e redescobertas. 

Futuro bom é aquele que se chama presente.


Ricardo Almeida.

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