Sobre os dois Tempos que vivemos

Aristóteles acreditava que passamos a vida colecionando uma série de momentos memoráveis – de “agoras” que acabavam marcando a nossa história pessoal. O tempo, para ele, era apenas uma linha que interligava esses “agoras” dando algum tipo de cronologia lógica ou ordenamento às nossas experiências de vida. 

Sob esse aspecto, o tempo acaba sendo algo muito mais pessoal e individual do que o que costumamos interpretar. Eu iria além: é como se houvesse dois Tempos diferentes. 

O primeiro deles, universal, é essencial apenas para manter algum tipo de ordem na nossa sociedade. Agora, enquanto escrevo este post, são 7:59 em São Paulo e 9:59 em Lisboa. O sol tem seus momentos para nascer e dormir em cada canto do mundo, as bolsas tem instantes precisos para abrir e fechar, os horários comerciais serão pontualmente cumpridos em quaquer parte da Terra. Eis o Tempo universal, tediosamente harmônico, marcando o passo da evolução do cotidiano. 

Mas há também o segundo Tempo, muito mais importante do que o primeiro: é o Tempo individual. Se você está prestes a encontrar algum amor não correspondido, por exemplo, sentirá os minutos vagando a velocidade de lesma; se estiver correndo contra algum prazo, cada hora passará como se fosse um segundo; e se estiver imerso em alguma experiência nova, descobrindo alguma nova fronteira da filosofia, desbravando novos terrenos e fazendo os olhos beber paisagens exoticamente virgens, então todo o Tempo se congelará para que absorva o máximo que o coração permitir. 

Assim, na medida em que o primeiro Tempo – o universal – for caminhando, ele deixará todo um rastro de experiências intensas encravado na memória: angústias, conquistas, descobertas. Quando, já idosos, olharmos para trás e pensarmos em nossas vidas, não será o tempo universal que sentiremos: será esse conjunto de memórias que nos terão feito ser quem formos.

Assim, quanto mais intensamente a vida for vivida, mais desses “agoras aristotélicos” colecionaremos ao longo das nossas próprias histórias. Quanto mais momentos (ou “agoras”) formos acumulando ao longo da nossa vida biológica, ao longo do Tempo universal, mais longo será o nosso Tempo individual e, portanto, mais longa também será a nossa vida pessoal. 

Viver mais, portanto, nunca esteve ligado a somar mais de 100 anos de existência: viver não tem nada a ver com existir. 

Viver tem a ver com o Tempo individual, com os “agoras” de Aristóteles; existir é tão somente a linha que une esses momentos e que tem uma relevância meramente estrutural, cronológica.

Viver mais, enfim, tem a ver com colecionar o máximo possível de experiências ao longo de uma vida, populando a linha aristotélica de tantos momentos que, ao final de 60 anos, teremos sentido mais a vida que qualquer monge tibetano capaz de existir em estado zen por 120 anos.

Viver é colecionar histórias. 

3 comentários em “Sobre os dois Tempos que vivemos

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