Livros contra o Tempo

Na quarta passada escrevi um post sobre os dois Tempos em que vivemos: o individual e o universal. 

Em uma síntese crua: enquanto caminhamos juntos no tempo universal, cronológico, nos diferenciamos de cada outro ser vivo no nosso Tempo individual, sendo este essencialmente composto de uma somatória de experiências memoráveis de vida. 

OK… e o que tem livros a ver com isso? 

Pense no tempo como uma linha que une, estruturalmente, todas as memórias de sua vida. Aliás, pense na sua própria vida: o que vem à sua mente? Tenha você 20, 30, 40 ou 90 anos, certamente não se lembrará de cada segundo que passou neste planeta e sim apenas dos mais importantes, dos mais memoráveis. Ainda assim, será possível, mesmo que com alguma margem de erro, seguir uma linha da primeira infância até os dias de hoje enquanto enumera as suas experiências memoráveis de vida – aquelas que te acrescentaram conhecimento pessoal, lágrimas ou sorrisos. Certo? 

Pois bem: todos somos reféns das nossas histórias pessoais, todos invariavelmente somos e pensamos de acordo com esse acúmulo de experiências de vida. 

É aí que entram os livros. 

Pegue um livro qualquer. 

Se estiver lendo Guerra e Paz, por exemplo, você terá em suas mãos algumas centenas de páginas que encapsulam, para toda a eternidade, todos os anos de vida de Pierre Bezukhov, do Príncipe Andrei, de Natasha e de tantos outros. Se estiver lendo Grande Sertão: Veredas, a vida inteira de Riobaldo pertencerá mais a você, dono das páginas, do que ao personagem que, tenha ou não existido, certamente já não caminha vivo entre nós. 

O mesmo vale para qualquer livro: todos são feitos de histórias de personagens, de memórias e experiências que, uma vez que ganharam as páginas, deixaram o Tempo para entrar na imortalidade. 

Eis a principal magia dos livros: eles são uma outra dimensão por permitir que possamos sentir um mundo que não presenciamos, durante um tempo que não vivemos e em lugares que nunca conhecemos. 

Livros transformam o tempo em um conceito quase arqueológico de tão antigo, ultrapassado. 

Literatura é um troço simplesmente incrível. 

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Sobre os dois Tempos que vivemos

Aristóteles acreditava que passamos a vida colecionando uma série de momentos memoráveis – de “agoras” que acabavam marcando a nossa história pessoal. O tempo, para ele, era apenas uma linha que interligava esses “agoras” dando algum tipo de cronologia lógica ou ordenamento às nossas experiências de vida. 

Sob esse aspecto, o tempo acaba sendo algo muito mais pessoal e individual do que o que costumamos interpretar. Eu iria além: é como se houvesse dois Tempos diferentes. 

O primeiro deles, universal, é essencial apenas para manter algum tipo de ordem na nossa sociedade. Agora, enquanto escrevo este post, são 7:59 em São Paulo e 9:59 em Lisboa. O sol tem seus momentos para nascer e dormir em cada canto do mundo, as bolsas tem instantes precisos para abrir e fechar, os horários comerciais serão pontualmente cumpridos em quaquer parte da Terra. Eis o Tempo universal, tediosamente harmônico, marcando o passo da evolução do cotidiano. 

Mas há também o segundo Tempo, muito mais importante do que o primeiro: é o Tempo individual. Se você está prestes a encontrar algum amor não correspondido, por exemplo, sentirá os minutos vagando a velocidade de lesma; se estiver correndo contra algum prazo, cada hora passará como se fosse um segundo; e se estiver imerso em alguma experiência nova, descobrindo alguma nova fronteira da filosofia, desbravando novos terrenos e fazendo os olhos beber paisagens exoticamente virgens, então todo o Tempo se congelará para que absorva o máximo que o coração permitir. 

Assim, na medida em que o primeiro Tempo – o universal – for caminhando, ele deixará todo um rastro de experiências intensas encravado na memória: angústias, conquistas, descobertas. Quando, já idosos, olharmos para trás e pensarmos em nossas vidas, não será o tempo universal que sentiremos: será esse conjunto de memórias que nos terão feito ser quem formos.

Assim, quanto mais intensamente a vida for vivida, mais desses “agoras aristotélicos” colecionaremos ao longo das nossas próprias histórias. Quanto mais momentos (ou “agoras”) formos acumulando ao longo da nossa vida biológica, ao longo do Tempo universal, mais longo será o nosso Tempo individual e, portanto, mais longa também será a nossa vida pessoal. 

Viver mais, portanto, nunca esteve ligado a somar mais de 100 anos de existência: viver não tem nada a ver com existir. 

Viver tem a ver com o Tempo individual, com os “agoras” de Aristóteles; existir é tão somente a linha que une esses momentos e que tem uma relevância meramente estrutural, cronológica.

Viver mais, enfim, tem a ver com colecionar o máximo possível de experiências ao longo de uma vida, populando a linha aristotélica de tantos momentos que, ao final de 60 anos, teremos sentido mais a vida que qualquer monge tibetano capaz de existir em estado zen por 120 anos.

Viver é colecionar histórias. 

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