Sobre livros, tempos e espaços

Livros não são apenas passatempos frugais, rotas para se passear pelo ócio: são ferramentas para se dobrar o tecido do tempo-espaço.

Segundo Einstein, o próprio conceito linear de tempo – essa sucessão inabalável de passado-que-vira-presente-que-vira-futuro – é uma ilusão. Basta deixarmos um pouco de lado essa sempre tão turva obviedade perante os nossos olhos e tudo muda de figura. Basta compreender que a realidade não é o que vemos no mundo exterior, mas as experiências que se constroem em nossa mente, e tudo muda de figura.

E livros, claro, não são a única maneira de se mergulhar no nosso cosmo interior e de se permitir viajar por tempos e espaços além dos que testemunhamos com os nossos sempre tão rudimentares olhos. Não são a única – mas são, talvez, a mais sofisticada das ferramentas.

Na maior parte dos livros, afinal, não há imagens construídas pelas óticas de terceiros; não há cenários erigidos por efeitos especiais hollywoodianos; não há vozes sendo entonadas que não as ditadas pela nossa própria imaginação. Livros contém apenas as mais frias letras: nossa imaginação, ao mesmo tempo aquém e além dos nossos olhos e ouvidos, é que tem a incumbência de construir o tecido de suas histórias.

E o que há nesse tecido? Justamente a possibilidade de se fugir do presente tácito para mergulhar em um outro tempo, em um outro mundo, em um outro enredo. A possibilidade de se se ser tão invisível quanto toda criança sempre sonha de vez em quando, testemunhando as mais íntimas ações de personagens desconhecidos que, ao se desnudar perante nossas mentes por obra de seus autores, tornam-se mais próximos de nós do que muitos dos nossos familiares.

Hoje, por exemplo, eu amanheci no meu apartamento, em São Paulo, no dia 10 de janeiro de 2017, acordado por uma sinfonia suave de despertadores com choros de bebê. Depois me catapultei para o seio de uma família indo-caribenha na ilha de Trinidad no final dos anos 50, passeando pela descoberta da individualidade de um dos autores mais geniais que já li, V. S. Naipaul. Depois, fechei o livro e me teletransportei diretamente para a minha mesa no trabalho, no alto da Avenida Paulista, de onde agora escrevo este post cercado por correrias e afazeres e tarefas.

Foram pelo menos três espaços e tempos diferentes em um intervalo de poucas horas.

E porque isso importa? Porque a vida é curta demais para ser vivida apenas na linearidade do cotidiano visual.

Há que se ler para se viver como se deve.

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Estamos cercados por histórias. Basta agarrar a que mais convier.

No post da segunda passada, comentei da inimaginável e quase inacreditável jornada dos exploradores ingleses a bordo do Endurance que, na tentativa de cruzar a Antártida, precisaram sobreviver por mais de um ano acampados sobre icebergs e enfrentando algumas das pragas mais severas da humanidade.

Na quarta, falei da verdadeira explosão de pensamentos na mente do irlandês Christopher Nolan no instante em que uma droga experimental deu a ele movimentos mínimos nos olhos e cabeça para que conseguisse se comunicar.

Foram dois exemplos extremos: um de um grupo convencional de pessoas que praticamente caçaram suas adversidades nos confins do mundo, outro de um cidadão paralisado, que tinha tudo para morrer como um vegetal, mas que decidiu imortalizar-se a partir da exposição singular do universo que existia em seu cérebro.

Entre as vidas dos exploradores do Endurance e do Nolan, estamos nós. Todos nós, os mais de 5 bilhões de humanos do planeta.

A inegável e inignorável lição que eles nos deixaram: boas histórias nos cercam por todos os lados. Para honrar as nossas vidas, basta que agarremos as que preferirmos, nos catapultarmos para dentro delas e escrevê-las com as nossas próprias canetas.

Escrevamos.

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Sobre os dois Tempos que vivemos

Aristóteles acreditava que passamos a vida colecionando uma série de momentos memoráveis – de “agoras” que acabavam marcando a nossa história pessoal. O tempo, para ele, era apenas uma linha que interligava esses “agoras” dando algum tipo de cronologia lógica ou ordenamento às nossas experiências de vida. 

Sob esse aspecto, o tempo acaba sendo algo muito mais pessoal e individual do que o que costumamos interpretar. Eu iria além: é como se houvesse dois Tempos diferentes. 

O primeiro deles, universal, é essencial apenas para manter algum tipo de ordem na nossa sociedade. Agora, enquanto escrevo este post, são 7:59 em São Paulo e 9:59 em Lisboa. O sol tem seus momentos para nascer e dormir em cada canto do mundo, as bolsas tem instantes precisos para abrir e fechar, os horários comerciais serão pontualmente cumpridos em quaquer parte da Terra. Eis o Tempo universal, tediosamente harmônico, marcando o passo da evolução do cotidiano. 

Mas há também o segundo Tempo, muito mais importante do que o primeiro: é o Tempo individual. Se você está prestes a encontrar algum amor não correspondido, por exemplo, sentirá os minutos vagando a velocidade de lesma; se estiver correndo contra algum prazo, cada hora passará como se fosse um segundo; e se estiver imerso em alguma experiência nova, descobrindo alguma nova fronteira da filosofia, desbravando novos terrenos e fazendo os olhos beber paisagens exoticamente virgens, então todo o Tempo se congelará para que absorva o máximo que o coração permitir. 

Assim, na medida em que o primeiro Tempo – o universal – for caminhando, ele deixará todo um rastro de experiências intensas encravado na memória: angústias, conquistas, descobertas. Quando, já idosos, olharmos para trás e pensarmos em nossas vidas, não será o tempo universal que sentiremos: será esse conjunto de memórias que nos terão feito ser quem formos.

Assim, quanto mais intensamente a vida for vivida, mais desses “agoras aristotélicos” colecionaremos ao longo das nossas próprias histórias. Quanto mais momentos (ou “agoras”) formos acumulando ao longo da nossa vida biológica, ao longo do Tempo universal, mais longo será o nosso Tempo individual e, portanto, mais longa também será a nossa vida pessoal. 

Viver mais, portanto, nunca esteve ligado a somar mais de 100 anos de existência: viver não tem nada a ver com existir. 

Viver tem a ver com o Tempo individual, com os “agoras” de Aristóteles; existir é tão somente a linha que une esses momentos e que tem uma relevância meramente estrutural, cronológica.

Viver mais, enfim, tem a ver com colecionar o máximo possível de experiências ao longo de uma vida, populando a linha aristotélica de tantos momentos que, ao final de 60 anos, teremos sentido mais a vida que qualquer monge tibetano capaz de existir em estado zen por 120 anos.

Viver é colecionar histórias. 

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Nada de escrever no feriado

Amanhã – ainda bem – é feriado.

Para mim, feriado sempre foi o oposto do que se costuma interpretar. Ao invés de tirar o dia para descansar, sempre entendi um dia livre de trabalho como uma oportunidade única justamente para se cansar. E não digo “cansar” no sentido de se exaurir de tédio, mas sim de se buscar fazer alguma coisa diferente, que amplie a mente, aproveitando as horas do dia que acabam vindo de bônus.

Ou seja: é dia de pairar pelos parques da cidade, de se internar em museus dos mais densos, de perambular pelos centros decadentes mas inspiradores desse nosso Brasil, de se enfurnar em algum filme cult. É dia de mudar rotinas.

Sempre entendi que a vida ganha mais sentido quando sorvemos cada milímetro de inspiração que conseguimos – e que inspiração, por sua vez, tem como berço os momentos de coisas diferentes que fazemos. Faz sentido: quanto mais rotineira a vida, afinal, menos oportunidades de se encantar com algo novo e, consequentemente, de se surpreender, de fazer o peito palpitar mais forte.

Feriado, para mim, não é dia de escrever. Escrever se faz em dias normais, depois (ou durante) o trabalho, às noites, nas primeiras horas. Quando esse tempo livre cai sobre as nossas cabeças, o ideal é aproveitá-lo para completar o nosso tanque criativo com inspiração.

Amanhã, portanto, é dia de viver mais intensamente para que se consiga escrever mais insanamente.

Pelo menos é o que eu farei :-)

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