A nova missão do Clube de Autores: abrir o mundo para o mundo

Estamos, na segunda-feira, indo para a FIL – Feira de Livros de Guadalajara, no México, segunda maior feira literária do mundo. O objetivo: entender um pouco um mercado importante fora do Brasil para averiguar novas possibilidades para o Clube de Autores.

Até aí, nada de anormal. Mas sabe o que mais me chamou a atenção?  

Antes de ir para qualquer lugar novo, tenho por hábito garimpar livros de autores locais com o objetivo de conhecer a alma do país em cujas ruas caminharei. Foi o que fiz no segundo que recebi as passagens para Guadalajara. 

O resultado disso? 

Aqui foi praticamente impossível encontrar livros de autores mexicanos. Me contentei com um exemplar de Galo de Ouro, de Juan Rulfo, e de Pedro Páramo, do mesmo autor, que deve estar para chegar em minhas mãos. 

Cacei outros autores. Achei uma meia dúzia de nomes e nenhuma disponibilidade aqui no Brasil. 

Procurei o cenário que mais me empolga, o de literatura independente: nada. 

Consegui um audiolivro chamado “México”, que afirma ser uma descrição intensa da verdadeira alma mexicana. O problema: seu escritor é um americano – James Michener – que, embora genial… bom… é um americano, não um mexicano. 

Minha primeira conclusão depois de duas semanas caçando livros? Apesar do México ser um país de riqueza cultural sem paralelos, berço de duas das maiores civilizações da antiguidade e de uma das invasões mais sangrentas da história, pouco se sabe sobre a cultura que está sendo desenhada em seu presente. Sabe-se o óbvio: conhece-se a história de maias e aztecas, conhece-se os sangues derramados por Cortéz, tem-se uma noção sobre os cowboys do norte e sobre o tráfico de drogas de Narcos, chega-se até as belas telas da Frida Kahlo ou os murais de Diego Rivera. Mas perceba que tudo isso vai até, no máximo, algumas muitas décadas atrás. 

De lá para cá, nada aconteceu? A produção cultural mexicana parou na década de 50? 

Obviamente que não: ela deve estar tão pulsante e ativa quanto sempre esteve – só não está tão acessível, tão exposta ao mundo, quando deveria. 

A segunda conclusão veio quando voltei a mente ao Brasil. 

Que tipo de acesso cultural um gringo interessado no Brasil – da mesma forma que eu estava interessado no México – tem hoje? 

Que autores independentes ele encontrará para poder beber a literatura nova, instigante, pulsante e digna dos tempos tão exaltados que vivemos hoje? 

Poucos, se é que algum. 

E não porque faltem autores: autores e livros há em uma belíssima abundância aqui no Brasil. Mas falta meios para que eles sejam vendidos fora das nossas fronteiras. Faltam tradutores que levem as nossas histórias para outras línguas. Faltam palcos para que eles possam encenar as suas artes. 

Pois bem… encontramos uma nova missão para encabeçar aqui. Se, até então, um dos nossos propósitos de vida era abrir o mercado nacional para os autores independentes, agora ele passa a ser o de abrir o mercado mundial. E não apenas nos focando no Brasil, ressalte-se. 

O mundo precisa se conhecer melhor – e a única forma disso acontecer é de nos voltarmos para o presente, para a arte sendo produzida hoje, em todos os cantos do nosso planeta. 

Como faremos isso? 

Bom… o objetivo está posto e é o primeiro passo. O segundo, talvez, fique mais claro com essa ida nossa até Guadalajara. E os próximos vão se fazendo a partir daí, um de cada vez. 

 

 

 

 

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As vidas nos livros

Sempre tive dificuldades em entender a tristeza profunda com a vida – aquela que faz as pessoas se sentirem dormentes, estéreis de felicidade, mergulhadas na mais completa falta de expectativas.

Não duvido da existência da depressão, claro: apenas tenho dificuldades em entender. O motivo?

Olho em torno de mim para a minha pequena estante de livros. Há, nela, oportunidades singulares de se mergulhar nos mais diversos tempos, de se compartilhar com personagens incríveis as mais diversas aventuras traçadas pelas mão dos mais geniais artistas.

Nessas oportunidades – em cada uma delas – há também o sempre bem-vindo efeito colateral de colhermos das histórias maravilhosas um pouco de autconhecimento, de entendimento sobre nós mesmos, de percepções sobre a vida.

E o que podemos fazer com isso? Viver as nossas vidas, claro. Escrever as nossas histórias como quisermos, livres dos tacanhos pensamentos alheios ou das sempre ridículas convenções sociais que caçam padrões até onde os padrões devem inexistir.

Como encaixar tristeza nisso? Se podemos viver tantas histórias de tantas pessoas em tantos diferentes tempos, se podemos aprender com um universo inteiro de sabedoria coletiva para escrever a nossa própria narrativa, porque não apenas sorrir e seguir?

Estou certo que há alguma resposta para isso – algo talvez mais químico ou biológico que psicológico que a minha própria ignorância não permite alcançar.

Mas, enquanto essa ignorância sobre a tristeza se alimentar de livros e escolhas próprias calcadas na sabedoria da literatura, confesso que me esforçarei ao máximo para mantê-la.

Nesse caso, ao invés de procurar alguma luz que me aponte o caminho da escuridão, apenas abrirei um livro qualquer e farei o que mais amo na vida: começarei a ler.

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Onde moram as boas histórias?

Darei aqui a minha opinião pessoal. Uma opinião sem nenhuma pretensão de se coroar incontestável ou mesmo de representar a forma com que o Clube de Autores como um todo pensa. Mas é uma opinião de alguém que ama, vive de e devora diariamente livro após livro.

Nessa minha opinião, boas histórias moram – ou ao menos preferem morar – nos lugares mais infernais, conflituosos e agonizantes do mundo.

Boas histórias não gostam de tédio, de monotonia, de vidas calmas tocadas em lugares estáveis. Acredito que busca estabilidade é sempre a nossa mente que, míope, acredita que paz de espírito faz bem à saúde. Mas quem nos dá aquela essencial gana de viver, quem esculpe emoções usando a adrenalina das grandes adversidades, é o nosso coração – e este precisa de dificuldades para bater mais forte. É também o nosso coração que determina o nosso estado de espírito, a nossa empolgação com a vida, a nossa ansiedade por uma boa história, os nossos dramas e gargalhadas com desfechos inusitados.

A paz e a estabilidade são, por definição, previsíveis. Boas histórias, por sua vez, tem enredos (também por definição) imprevisíveis. Percebe a diferença?

Boas histórias, portanto, gostam de se originar em momentos de crise aguda, de guerra, de desafios colossais impostos a pessoas comuns. Boas histórias gostam de guetos, de discriminações, de mutilações, de desafios. Boas histórias nascem de uma intenção natural do ser humano de superar injustiças impostas a ele pelo acaso, por terceiros ou por si próprio.

Não me entendam mal: obviamente, não estou pregando aqui a favor das grandes mazelas da humanidade. O contrário talvez fosse mais verdade: estou apenas dizendo que é dessas grandes mazelas, dessas grandes adversidades, que nascem as grandes histórias de superação – e que é dessas histórias que as inspirações do mundo inteiro são construídas.

Nietzsche costumava dizer que só se pode levar uma vida plena quando se mergulha de cabeça nas dificuldades e adversidades que ela costuma nos lançar. Concordo em gênero, número e grau: uma vida sem adversidades é uma vida sem boas histórias. E se não é para cultivarmos boas histórias, para que então vivemos?

Da mesma forma, se não é para registrar boas histórias, para que escrevemos?

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Como se fez o caos de São Paulo

Nenhuma cidade nasce gigante e desorganizada – claro. Urbes como São Paulo são fruto de uma destruição de um ecossistema caoticamente organizado mas inadequado para pretenções civilizatórias.

Aos poucos, a cidade foi encontrando novas ordens para acomodar as suas necessidades e, com um planejamento certamente menor que o plausível, foi se erguendo, tijolo sobre tijolo, até virar um monstro disforme de concreto.

Da ordem veio o caos, contra o caos se impôs uma nova ordem, danova ordem surgiram novos incontáveis caos. Ciclo infinito e muito bem exemplificado neste documentário abaixo que encontrei flutuando pelo Youtube.

Vale assistir para entender como algo se transforma nessa ordenada confusão que é a maior cidade do país. Vale assistir para entender como cenários e histórias se desenrolam assim, a partir da união de tantas efemeridades caóticas, gerando – incrivelmente – berços culturais como poucos que existem no mundo.

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A aventura presa no cérebro

Em 1988, o escritor Christopher Nolan venceu o prêmio Whitbread – um dos mais famosos do Reino Unido – por conta da sua autobiografia, Sob os Olhos do Relógio.

O que isso tem demais?

O autor.

Ao nascer, o irlandês Christopher Nolan passou por uma série de complicações no parto e acabou tendo um caso severo paralisia cerebral que o deixara essencialmente inerte. Ao longo de toda a sua infância, entre os anos 60 e 70, seus pais lutaram arduamente para garantir um mínimo de educação e mesmo convencer o governo de que aquele pedaço praticamente imóvel de carne esparramado sobre a cama estava, efetivamente, aprendendo.

Foi, provavelmente, uma das infâncias mais áridas que se pode sequer imaginar, traçada em meio a uma batalha diária por sobrevivência, resiliência e, sobretudo, por um milagre.

Quando Nolan fez 10 anos, o milagre finalmente veio: um novo medicamento passou a ser testado nele e permitiu que sua musculatura relaxasse o suficiente para que ele pudesse controlar pelo menos parte dos movimentos da cabeça e dos olhos.

Foi o suficiente para destrancar uma mente brilhante que vivia apriosionada pela escura pressão da incomunicabilidade.

A partir daí, seus pais criaram uma espécie de braço mecânico preso à sua cabeça que o permitia se comunicar com o mundo a seu redor, apontando letras que eventualmente formariam palavras, frases, parágrafos e… livros.

Assim, mesmo sem nenhuma possibilidade de devorar o mundo ao seu redor de forma físico-metafórica, Nolan conseguiu destrancar seu cérebro e narrar aventuras reais que se passavam dentro de si, enquanto se digladiava com as tantas adversidades impostas a si pelo destino.

Mesmo considerando que escrever era uma tarefa árdua – Nolan precisava “pinçar”, lentamente, letra a letra – ele acabou tendo uma produção inacreditável: foram 4 livros, um mais incrível que o outro, responsáveis por transportar o leitor para dentro de uma das mentes mais aprisionadas que o mundo já testemunhara.

Christopher Nolan morreu aos 43 anos, em 2009, engasgado em um pedaço de salmão.

Seus 43 anos de vida, no entanto, marcaram o mundo mais do que os 80, 90 ou 100 anos de muita gente.

Seus 43 anos de vida provaram que tempo não se mede com relógios e calendários, mas sim com histórias.

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