O que política tem a ver com literatura?

Ultimamente tenho feito alguns posts com um teor mais político que literário.

Como todos, tenho também as minhas crenças políticas que sempre tentei manter distante daqui do blog e do Clube como um todo. E juro: na medida do possível, busco sempre ser o mais neutro que consigo.

A questão é que é impossível dissociar política de literatura pelo simples fato de que a segunda é filha direta da primeira.

Como? Ora… se a literatura é o conjunto de histórias nascidas em um determinado período, e se um determinado período tem seus contornos desenhados pelos efeitos das decisões políticas tomadas pelas suas lideranças, como negar a relação entre ambas?

Como negar a incrível análise de poder de Tolstoi em Guerra e Paz ou os efeitos da falência do “establishment” em Crime e Castigo, de Dostoiévsky? E nem precisamos ir tão longe, claro: como negar que uma obra prima como Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, foi escrita também pela perseguição política que manteve preso por tanto tempo?

E Castro Alves com seu discurso abolicionista? E Alcântara Machado com sua biografia de uma São Paulo tomada por imigrantes italianos na primeira metade do século XX?

E a literatura de periferia que, hoje, já é praticamente um gênero completo que nasceu a partir da desigualdade social gerada – claro – pelas decisões políticas brasileiras?

Tenho para mim que, como a política é uma arte empírica, ela se impõe a sociedades como ondas com efeitos imprevisíveis. Essas ondas geram tanta beleza quanto desastre – tudo depende das suas forças e dos seus efeitos, claro. Mas a cada vazante, duas consequências são sempre deixadas: os desastres e as histórias que os acompanham.

E, se não há como entender a literatura senão como filha direta da política, que todos nos aprofundemos o máximo possível nesse pano de fundo onipresente de todas as histórias que escrevemos em nosso cotidiano de autor.

Leia Mais

O mercado editorial tradicional já morreu

Antes de abrirmos o Clube de Autores, o CEO de uma das maiores redes de livrarias brasileiras veio até nós e nos aconselhou fortemente a “não seguir adiante com uma ideia que certamente não conseguiria se sustentar nem por um punhado de meses uma vez que o mercado é de quem tem tradição e habilidade em lidar com as complexidades de um país como o nosso”. 8 anos se passaram e estamos aqui, de pé, crescendo e com uma base de mais de 50 mil autores, enquanto a tal rede de livrarias – embora ainda uma gigante perto de nós – enfrenta dificuldades financeiras potencialmente fatais.

Não digo isso para tripudiar deles ou para me vangloriar do Clube – não são os egos que estão em jogo aqui. O que está em jogo é o futuro dos livros.

Por que? Porque, até então, o futuro dos livros estava nas mãos desses grandes livreiros e editores que, de uma forma ou de outra, nos trouxeram até aqui. Foram esses livreiros e editores que entregaram ao grande público brasileiro não apenas os Dostoiévskis, os Prousts e os Tolstois como também os Graciliano Ramos, os Guimarães Rosas, as Cora Coralinas. Foram estes então destemidos aventureiros que nadaram pelas letras do nosso país e pescaram preciosidades que para sempre mudaram as nossas próprias feições culturais.

Mas eles envelheceram, tornaram-se decrépitos ranzinzas incapazes de entender as mudanças pelas quais o mundo já passou. Cansados, eles pararam de assumir os riscos necessários de garimpar novos talentos e entregaram-se ao inferior trabalho de vender apenas os estrangeiros já testados e comprovados em outras terras. Teimosos, eles transformaram essa terra maravilhosa em um mercado puramente consumidor (e não produtor) de literatura.

O resultado desse pensamento retrógrado, de um senso de inferioridade constrangedor? Esses próprios editores e livreiros brasileiros estão conseguindo quebrar o nosso mercado editorial no mesmo momento em que a avidez pelo livro passou a crescer exponencialmente. Nunca se leu tanto no Brasil como agora – mas nunca uma crise tão avassaladora se abateu sobre o mercado editorial brasileiro. Para ficar em dois números simples, divulgados recentemente pela SNEL: o faturamento do mercado de livros caiu 3,09% em 2016 em relação a 2015; em volume de vendas, a queda foi ainda maior: 10,84%. Só há más notícias no mundo dos velhos editores e livreiros. Só há pesadelos.

Sim, algo está errado – não é a primeira vez que escrevo sobre isso aqui no Clube. Aliás, já peço desculpas por estar cansando os autores com essa insistência em requentar o mesmo assunto – mas é que o assunto é importante.

O assunto é uma mensagem.

Você, autor, que sonha em ser descoberto por alguma grande editora e viver como um Hemingway dos trópicos, desista desse sonho. Hemingway nasceu em outros tempos, em outros lugares – e, é sempre bom relembrar, acabou com a própria vida.

O tempo de Hemingway não existe mais: editoras não descobrem mais ninguém, nem lá fora e muito menos aqui dentro. Editoras não fazem nem ideia de como trafegar por essa nossa nova realidade.

Sabe quem consegue garimpar mercado hoje?

O próprio autor.

Você.

Nosso tempo é o tempo de quem sabe (ou tem vontade de aprender a) cuidar da sua obra e lutar pelo seu público.

Nosso tempo é o tempo de quem está disposto a se alforriar desses sonhos sem base de um mundo que já não existe mais para batalhar pelo seu próprio espaço.

Aproveitemos melhor essa revolução.

Grumpy-old-man

Leia Mais

A matemática contando histórias

Um país como o Brasil, de dimensões continentais e características tão únicas, tem uma espécie de dever de buscar soluções para seus próprios problemas a partir da sua própria criatividade.

Explico-me melhor: estamos habituados a importar de tudo – de smartphones a métodos de ensino, passando ainda por técnicas médicas, estilos artísticos e toda uma pletora de atividades criativas. Por quê? A resposta é tão fácil quanto constrangedora: a nossa velha conhecida síndrome de vira-lata que nos faz acreditar piamente que o pré-requisito de qualquer genialidade é que ela tenha surgido fora de nossas fronteiras.

Atiramos pela janela, assim, muitos dos frutos que poderíamos ter colhido e muitas oportunidades de melhorarmos aos olhos do mundo e, obviamente, de nós mesmos.

A primeira coisa que fiz hoje, quando cheguei a este delicioso trabalho de lidar com arte, foi passar o olho pelo site do Clube. Encontrei ali, já de imediato, um exemplo perfeito de criatividade nascida bem no centro de nossa terra: o livro A Matemática Contando Histórias, de Marizete Dias Barros.

Tive o prazer de conhecer a autora há alguns anos, na Flip, quando ela lançou O Aniversário do seu Chico. O propósito desta professora pós-graduada em matemática pela UFF segue o mesmo: utilizar histórias cotidianas da infância como base para o ensino da matemática.

Ou, como a própria sinopse coloca, “levantar discussões, criar provocações e possibilitar interações a partir da vinculação dos números, formas, medidas e situações-problemas, com os fatos do cotidiano, promovendo assim boas situações de aprendizagem em que se prioriza a questão do contexto e do significado.”

É um livro que, mais do que ensinar a decorar fórmulas, insere a língua universal da matemática no seio da cultura e da linguagem brasileira, utilizando-a como uma forma óbvia de entender o mundo que nos cerca.

Não dá orgulho de ter algo assim escrito aqui no Brasil e publicado aqui no Clube?

Para conhecer mais, acesse o link https://www.clubedeautores.com.br/book/160021–A_MATEMATICA_CONTANDO_HISTORIAS ou clique na imagem abaixo. A autora também tem diversos outros títulos do gênero que recomendo bastante a leitura, todos no https://www.clubedeautores.com.br/authors/15801

Screen Shot 2017-02-13 at 09.28.43

Leia Mais

Compartilhando o depoimento de uma autora

Na semana passada recebemos esta mensagem de uma autora do Clube, Carol Sales. Normalmente não postamos no blog mensagens assim… mas sempre há uma exceção. Trabalhamos tão duro aqui, afinal, que receber um elogio desses é sempre motivo de orgulho e sorrisos generalizados!

À Carol, queria apenas deixar registrado que a satisfação e o orgulho são todos nossos de tê-la aqui, como parte do Clube, honrando a nova literatura brasileira que está sendo escrita a cada dia!

Nem sei como começar a descrever toda satisfação que venho tendo de fazer parte do Clube de Autores, mas isso não iria me coibir de tentar. Sou autora independente há pouco mais de dois anos. Fui leitora compulsiva desde que me descobri gente e escrevi à mão por mais de 13 anos antes de finalmente me aventurar nesse mundo editorial. Só recentemente descobri vocês por meio mais direto de outra autora nacional, Amatrici Romero, que recentemente lançou seu romance Argus entre Ciganos e Lobos. Decidi experimentar.

Em todos os campos, vocês estão com nota máxima, mas vou comentar aqui o que mais me chamou atenção e me deixou muito feliz de estar com vocês na criação dos meus livros físicos. A opção de pagamento por boleto bancário, que facilita e muito aos meus leitores que não possuem nenhum cartão de crédito; preço de custo do exemplar bem dentro do que eu vinha orçando com outras gráficas, sendo que, com vocês, sai bem mais em conta para o consumidor final e para mim, além de que, com essas gráficas, é
exigido uma tiragem mínima. Meu franco agradecimento e gratidão. Qualidade de material empregado no exemplar e velocidade de entrega, então? Sem palavras! Surpreendentemente bom, estimulante, eletrizante. No que depender de mim, os contatos no meio que vieram estreitando laços de amizades comigo terão meu sincero incentivo de entrar para o Clube com suas obras.

No fundo e a bem da verdade, só tenho um lamento, e é de não ter conhecido o Clube antes.

Mais uma vez, deixo meus sinceros agradecimentos e abraços para toda equipe, vocês estão de parabéns em todos os níveis!

Carol Sales

Leia Mais

Cara Liberdade, de Zdenek Korecek, narra o drama da emigração da Europa em guerra até o Brasil

Estamos entrando em uma era com um infeliz crescimento de conceitos como xenofobia, protecionismo e anti-globalização. Neste começo de 2017 tão cheio de rupturas, do Brexit ao Trump com seu muro no México, as mudanças de comportamento das gerações futuras prometem ser intensas.

Mas há um outro lado para isso, como já postei diversas vezes aqui no blog. Momentos de ruptura social, momentos que marcam mudanças grandes nas mentes das pessoas, costumam vir juntas com histórias intensas e extremamente dramáticas. Histórias, acrescento, que tendem a se metamorfosear em obras primas da literatura e, assim, ajudar a própria humanidade a crescer enquanto espécie. Não vou me alongar muito aqui sobre esse assunto – escrevo um outro post na sext sobre ele. Mas um livro recentemente publicado no Clube me chamou a atenção: Cara Liberdade, escrito por Zdenek Korecek.

O motivo: trata-se da história do próprio autor que passou pela guerra e emigrou da antiga Tchecoslováquia para o Brasil. Ou seja: é um testemunho vivo e intenso de uma outra era de mudanças na história da humanidade.

Veja o book trailer abaixo, que conta ainda com algumas preciosas fotos do autor:

Gostou? Deixo então uma dica que estou pessoalmente prestes a fazer: vá neste link (https://www.clubedeautores.com.br/book/201591–Cara_Liberdade), no site do Clube, compre o livro e mergulhe nessa incrível história!

Leia Mais