Um triste dia para a nossa história

Há dois tipos de história que costumam conviver para formar identidades, culturas e pensamentos: a factual, documental, prática; e a lúdica, que funciona como uma espécie de cola ideológica entre as coisas e seus significados.

Essas duas histórias são fundamentais para qualquer povo, até porque uma depende da outra.

Toda a imagem que fazemos da época do império, por exemplo, vem das narrativas sobre a vida dos nossos três reis – D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II. Pensamentos forjados naqueles tempos distantes formaram as correntes ideológicas que fizeram tanto os personagens de Machado de Assis quanto os discursos inflamados de Antônio Conselheiro, lá em Canudos. Há como se afirmar até que toda a brasilidade meio que surgiu daquele tempo de palácios e pompas mesclados com profanidades e arroubos tão heróicos quanto egocêntricos.

São narrativas expressas em livros, históricos ou fictícios, que pintam um retrato perfeito de como era a vida naqueles tempos tão distantes do que hoje somos – mas, ao mesmo tempo, tão fundamentais para que tenhamos chegado até aqui.

Essas narrativas, claro, não surgiram apenas de testemunhas oculares da época: a memória humana venceu o tempo a partir do momento em que conquistamos a escrita e a capacidade de documentar fatos.

As pedras brutas da nossa história, portanto, são esses fatos, esse conjunto de documentos, quadros, esculturas, móveis e demais coisas que provam as formas de um tempo que não existe mais.

É com essas pedras brutas que historiadores e escritores debruçam-se no passado, descrevendo-o como presente para que possamos construir futuros mais esclarecidos, conhecedores dos tantos erros e acertos que sociedades cometem ao longo dos seus ciclos de vida.

Assim, da mesma forma que não há futuro sem passado, não há também histórias sem fatos práticos que embasem seus enredos.

No domingo passado, dia 2 de setembro, o Brasil perdeu quase 20 milhões de fatos que compunham o acervo de um dos nossos principais museus, o Nacional, na Quinta da Boa Vista.

Foi um dos dias mais tristes para a nossa História desde que ela foi oficialmente constituída pelos mesmos reis que, de algum lugar, viram seu palácio desaparecer sob as chamas do descaso.

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Um triste dia para a nossa história

Há dois tipos de história que costumam conviver para formar identidades, culturas e pensamentos: a factual, documental, prática; e a lúdica, que funciona como uma espécie de cola ideológica entre as coisas e seus significados.

Essas duas histórias são fundamentais para qualquer povo, até porque uma depende da outra.

Toda a imagem que fazemos da época do império, por exemplo, vem das narrativas sobre a vida dos nossos três reis – D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II. Pensamentos forjados naqueles tempos distantes formaram as correntes ideológicas que fizeram tanto os personagens de Machado de Assis quanto os discursos inflamados de Antônio Conselheiro, lá em Canudos. Há como se afirmar até que toda a brasilidade meio que surgiu daquele tempo de palácios e pompas mesclados com profanidades e arroubos tão heróicos quanto egocêntricos.

São narrativas expressas em livros, históricos ou fictícios, que pintam um retrato perfeito de como era a vida naqueles tempos tão distantes do que hoje somos – mas, ao mesmo tempo, tão fundamentais para que tenhamos chegado até aqui.

Essas narrativas, claro, não surgiram apenas de testemunhas oculares da época: a memória humana venceu o tempo a partir do momento em que conquistamos a escrita e a capacidade de documentar fatos.

As pedras brutas da nossa história, portanto, são esses fatos, esse conjunto de documentos, quadros, esculturas, móveis e demais coisas que provam as formas de um tempo que não existe mais.

É com essas pedras brutas que historiadores e escritores debruçam-se no passado, descrevendo-o como presente para que possamos construir futuros mais esclarecidos, conhecedores dos tantos erros e acertos que sociedades cometem ao longo dos seus ciclos de vida.

Assim, da mesma forma que não há futuro sem passado, não há também histórias sem fatos práticos que embasem seus enredos.

No domingo passado, dia 2 de setembro, o Brasil perdeu quase 20 milhões de fatos que compunham o acervo de um dos nossos principais museus, o Nacional, na Quinta da Boa Vista.

Foi um dos dias mais tristes para a nossa História desde que ela foi oficialmente constituída pelos mesmos reis que, de algum lugar, viram seu palácio desaparecer sob as chamas do descaso.

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Como seria se ver no futuro?

Há alguns anos, um vídeo postado pela Field Day trouxe uma proposta diferente: envelhecer um casal de pouco menos de 30 anos usando maquiagem e viabilizando uma espécie de “viagem no tempo” sem a ajuda de nenhuma tecnologia digital.

Descrito assim, esse projeto pode não parecer nada demais. Mas ele impressiona.

Curiosamente, o que começa como uma espécie de brincadeira acaba realmente transportando o casal até o futuro, fazendo ambos imaginarem quais os tipos de experiências e histórias de vida que, àquela altura, terão colecionado. É uma espécie de prova, por assim dizer, de que o próprio conceito de Tempo está muito mais em nossas mentes e corações do que em um relógio.

Vale ver o vídeo, abaixo (infelizmente, apenas em inglês):

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=X9HlHmY-PsA&w=1280&h=720]

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Sobre ser e existir, parte 2

Continuação do post da quarta passada, que termina mais ou menos assim: 

Se existir é ter os contornos reais necessários para mudar o mundo a partir de impactos causados, então personagens são tão reais quanto qualquer outra pessoa de carne e osso.

Essa frase fica ainda mais verdadeira quando se muda o condutor do nosso pensamento para a física.

Normalmente, nos habituamos a prender a nossa percepção de existência à biologia.

Tomemos como exemplo o José da Silva: um lavrador sul matogrossense que nasceu em 3 de agosto de 1912 e morreu em 7 de julho de 2001.

Nos seus 89 anos de vida, José da Silva comeu, cuspiu, falou, casou, teve filhos, amou, sofreu e, por fim, morreu. Foi enterrado no pequeno cemitério de Corguinho, uma vila minúscula longe de tudo. Hoje, José da Silva segue o destino de todos nós: decompõe-se rapidamente em outras formas de matéria até virar, no longuíssimo prazo, poeira cósmica.

No mesmo ano em que José da Silva nascera, Franz Kafka escrevera sua obra prima: a Metamorfose. Não entrarei nos pormenores do clássico aqui, mas basta dizer que se trata da história de um Gregor Samsa que, um belo dia, acordou para se ver metamorfoseado em uma horrenda barata.

Gregor Samsa, claro, nunca existiu no sentido biológico: o oxigênio da nossa atmosfera nunca perambulou pelos seus pulmões. Mas, independentemente disso, ele foi gerado, ele teve um pai, ele foi fruto da energia criativa de um escritor. E mais: na medida em que sua história segue sendo lida por milhões de leitores mundo afora, essa energia perdura, viaja por ondas cerebrais diversas, muda percepções, inspira, transforma. Eventualmente, no entanto, a história de Gregor Samsa fatalmente cairá no esquecimento – e sua energia se decomporá até se transformar no mesmo tipo de poeira cósmica que também definirá o futuro de José da Silva.

A conclusão mais óbvia que se pode chegar aqui? Que, embora pessoas sejam feitas de matéria e personagens, de energia, todos tem o mesmo destino. Há inclusive um sujeito que colocou tudo na mesma fórmula: Einstein. A fórmula? E=MC2, que basicamente prova que matéria e energia são apenas formas diferentes da mesma “coisa”.

Sob esse aspecto, não parece de uma ingenuidade bossal considerar como existente apenas seres que respiraram por 80, 90 ou até 100 anos – uma fração de nada, considerando os 13,54 bilhões de anos do universo?

Não seria mais correto definir a existência como qualquer coisa – seja material ou energética – forte o suficiente para causar algum impacto transformador, por menor que seja, no Universo?

Volto, pois, à frase de abertura deste post:

Se existir é ter os contornos reais necessários para mudar o mundo a partir de impactos causados, então personagens são tão reais quanto qualquer outra pessoa de carne e osso.

 

andromeda

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Sobre ser e existir, parte 1

O Sr. Biswas era um indo-caribenho azarado, zangado, sempre às turras com o próprio destino que o catapultara para dentro de uma família cuja característica mais marcante era a capacidade de oprimir qualquer traço de independência individual. Passara a sua vida em busca do seu próprio lugar e experimentara de tudo: fora pintor de sinais, dono de uma pequena mercearia, feitor em uma plantação de cana de açúcar, jornalista. Mas fora, sobretudo, protagonista de uma trama extremamente bem elaborada sobre a busca da autodescoberta em meio à abafada ilha de Trinidad dos anos 40.

Ruth Swain, por sua vez, já era mais otimista – embora suas condições fossem para lá de tenebrosas. Abraçando uma doença gravíssima desde a pre-adolescência, ela cresceu vendo a chuva da Irlanda moldar histórias e destinos a partir da cama do seu quarto. Remoeu as tragédias familiares, voou até o passado longínquo, caminhou nos passos do pai, lamentou a morte do irmão, entendeu que cada um deles existe apenas porque suas histórias foram contadas.

Anos antes, da então quase macabra cidade de Praga, um Gregor Samsa atônito acordou para se ver metamorfoseado em uma barata. Muitos dos humanos modernos certamente entrariam em um pânico existencial incontrolável – mas Gregor passou seu tempo de inseto remoendo aquelas pequenas e sufocantes necessidades cotidianas como contas a pagar, família a sustentar, emprego a manter.

Mas o que há de semelhante entre um indo-caribenho da década de 40, uma irlandesa da década 80 e um tcheco do começo do século XX?

Em tese, as suas inexistências. O primeiro, Sr. Biswas, é protagonista da obra prima de V. S. Naipaul (Uma Casa para o Sr. Biswas); Ruth Swain, da maravilhoso A História da Chuva, de Niall Williams; e Gregor Samsa, claro, do grande mestre Franz Kafka.

Mas, embora inexistentes, suas histórias chegaram a mais olhos e ouvidos, ajudaram a formar mais pensamentos e mentes, do que muitos dos seres humanos “reais” que viveram ruminando seus tempos na terra nesse mesmo período. Quantos foram os Josés, as Marias, as Martas e os Antônios que nasceram, cresceram e morreram deixando impressões tão fortes no mundo quanto Biswas, Swain e Samsa? Pouquíssimos, eu arriscaria dizer.

E por isso a inexistência dos personagens é apenas uma tese vazia, ôca, aceitável apenas perante os olhos toscos dos que desconhecem qualquer capacidade mínima de percepção sobre a vida, a realidade e, portanto, a existência.

Se existir é ter os contornos reais necessários para mudar o mundo a partir de impactos causados, então tanto esses quanto quaisquer outros personagens são tão reais quanto qualquer outra pessoa de carne e osso.

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