Vejamos Saramago

Esta não é exatamente uma notícia nova… mas, para quem gosta de literatura e mora (ou estiver planejando ir) a São Paulo, há uma exposição imperdível em um lugar igualmente imperdível.

Até o dia 3 de junho, o Farol Santander (na histórica sede antiga do Banespa) abrigará uma exposição sobre o José Saramago, um dos maiores mestres da literatura mundial.

Coloco, abaixo, o link para uma notícia sobre o evento. Novamente, não é uma notícia nova: mas é um evento que sem sombra de dúvidas vale ser conferido!

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Do orgulho do pioneirismo à frustração do conformismo

Saramago, Valter Hugo Mãe, Mia Couto.

Esses três escritores – um português, um angolano e outro moçambicano – tem uma coisa em comum: eles são parte de uma revolução na língua portuguesa. Sim, eu sei que Saramago já nos deixou – mas isso faz tão pouco tempo que tomei a liberdade de ignorar sua morte para me concentrar em sua obra.

Vamos à questão da revolução.

Basta ler As Intermitências da Morte ou Ensaio sobre a Cegueira para ficarmos babando nos períodos longos e virgulados de Saramago, em uma maestria que confere a cada texto um ritmo inacreditável.

O que dizer sobre a tetralogia das minúsculas – os quatro pesadíssimos livros de Valter Hugo Mãe que abole até as letras maiúsculas e os pontos de interrogação para fazer as histórias fluírem melhor?

Mia Couto? As palavras que ele inventa, por exemplo, em Terra Sonâmbula, são poesias à parte. Cada frase sua é um livro, eu diria.

Mas sabe o que isso tem a ver conosco? Nós, brasileiros, somos a raiz de toda essa revolução. Não costumamos nos dar tanto crédito, mas todos esses gênios estão fazendo hoje o que Mário de Andrade e Guimarães Rosa, para ficar apenas em dois exemplos, fizeram no começo do século passado.

Sim: apesar de não sermos os inventores do nosso idioma, fomos nós que primeiro os tiramos do ostracismo, sacudimos os seus antiquados tradicionalismos e o fizemos se curvar às histórias. Aliás, é isso que define a revolução de um idioma: fazer com que as suas regras ortogramaticais obedeçam às histórias para as quais ele foi criado, e não o contrário.

Tá… mas qual o ponto de tudo isso?

Não se trata apenas de bater no peito e arrotar o orgulho dos pioneiros. Trata-se de entender que, hoje, enquanto outros países lusófonos do mundo estão seguindo um movimento que nós iniciamos, nós estamos aqui, metamorfoseados em seguidores.

Já passou da hora de impormos ao mundo uma forma nova de contarmos histórias.

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Por mais revoluções na língua portuguesa

Ganhei de Natal o livro “O Remorso de Baltazar Serapião”, do escritor português Valter Hugo Mãe. 

Nunca tinha lido nada deles antes, mas o testemunho de Saramago me empurrou para as suas páginas com tamanha voracidade que o terminei em algo como três dias. Dentre o que o mestre falou sobre esta obra, destaco a frase que foi parar na contracapa: “Este livro é um tsunami no sentido total: linguístico, semântico e sintático. Deu-me a sensação de estar a assistir a uma espécie de parto da língua portuguesa.”

É óbvio que a opinião de Saramago procedia: ele era, afinal, daquelas pessoas que não opinavam: criavam fatos incontestes. O motivo? 

“O remorso de Baltazar Serapião” esconde, em um enredo assustadoramente machista e polêmico, metáforas brilhantes sobre o tempo dilacerando a nossa vida; ele brinca com a língua portuguesa com uma maestria absoluta – excluindo de toda a obra, para ficar em dois exemplos, o uso de maiúsculas e de pontos de interrogação; ele consegue situar uma história medieval em qualquer parte da história da humanidade com uma perfeição perturbadora. 

Mas foquemo-nos na questão das maiúsculas e dos pontos de interrogação: como é possível um livro inteiro ser escrito sem elas? Simples: Valter Hugo Mãe prova que histórias dependem muito mais das suas próprias cadências do que de pontuações universalmente aceitas. Aliás, fica-se tão acostumado a ler nessa língua paralela que o autor cria que, ao tomar qualquer outro livro em mãos, julga-se facilmente o uso das regras idiomáticas corretas como excessos. 

Tanto este “Remorso” quanto os outros três livros do que acabou sendo chamado de “Tetralogia da Minúsculas” (por motivos óbvios) devem ser lidos por todos, principalmente por autores. São exemplos vivos de que, embora milenar, nosso idioma ainda pode ser poeticamente trabalhado de maneira a liberar – e não aprisionar – narrativas. 

São provas de que outros mestres como Guimarães Rosa, Mário de Andrade e, claro, o próprio Saramago, não precisam estar tão isolados nessa reinvenção da língua portuguesa e que, ao contrário, ela deve ser constantemente recriada por todos os escritores para facilitar o seu próprio propósito fundamental: permitir que histórias sejam contadas. 

Se o mundo não para de girar e evoluir, afinal, porque o idioma que o expressa deveria ficar congelado no tempo?

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Nossas línguas portuguesas

José Saramago é, sem a menor sombra de dúvidas, um dos meus maiores ídolos literários. Retifico: é um dos meus maiores ídolos. Ele está lá, pairando pelo meu Olimpo pessoal juntamente com Kafka, Tolstoi, Guimarães Rosa, Machado de Assis e um punhado de outros mestres que iluminaram minha vida com suas letras.

No caso de Saramago, sempre considerei que havia dois protagonistas onipresentes em obras primas como Caim, Ensaio sobre a Cegueira ou as Intermitências da Morte: os enredos fantásticos e a língua portuguesa.

Sua forma de escrever, suas frases intermináveis recheadas por vírgulas, a falta de fôlego imposta pela pontuação acelerada, tudo contribuía para dar um ritmo inimaginável aos textos. Era seu estilo, dizia a mim mesmo.

Até que, por conta da Fábrica de Historinhas, projeto que lançamos recentemente em parceria com uma editora portuguesa, me deparei com livros escritos em, digamos, “lusitanês”. Um dos meus papeis era adaptar os livros infantis escritos em português de Portugal para o português brasileiro – e confesso que imaginei que me depararia apenas com uma simples tarefa de tradução de termos como “fixe” ou “giro”. Ledo engano.

Sabe o que encontrei em cada uma das histórias? O mesmo estilo de Saramago, as mesmas frases aceleradas a ritmos alucinados, as mesmas regras gramaticais que julgava particulares, características de um estilo inconfundível.

Pois é: não era o estilo de Saramago que estava a me encantar por todos esses anos e sim a gramática portuguesa, com todas as suas regras de concordância e pontuação que em nada têm a ver com as nossas.

“Traduzir” livros infantis de um português para outro me fez entender que, apesar de não ser necessário fazer um curso para ler em “lusitanês”, histórias geradas por escritores de lá do além-mar tem esse tipo de tempero a mais que muda todo o ritmo dos textos. E, se isso fez com que Saramago perdesse um pouco do brilho (embora ele o tenha de sobra, devo acrescentar), fez também com que toda uma nova porta se abrisse para mim.

Que tal, de repente, conseguir ler autores em seu idioma original, diferente do “brasileirês”, sem precisar fazer um curso? Fantástico.

Estou, agora, à caça de portugueses para a minha biblioteca pessoal como quem descobre novas espécies de histórias para enriquecer vocabulário, imaginação, coração.

Descoberta empolgante, essa.

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Um livro é um ponto final? Ou um início?

É comum o mercado inteiro considerar um livro como uma espécie de ponto final de uma jornada de conhecimento. E isso até pode ser (parcialmente) verdade sob a ótica de um autor – mas e do leitor?

Imagine, por exemplo, um livro como Mulheres de Saramago, publicado recentemente aqui no Clube. É óbvio que o livro em si já traz toda a sua própria narrativa e os pensamentos do autor – mas, para o leitor, ele pode ser um ponto de partida para uma jornada ainda mais ampla.

A partir desse livro, ele pode se interessar por outras obras, algumas do próprio mestre Saramago. Pode acessar artigos sobre Memorial do Convento ou Ensaio sobre a Cegueira; pode querer ver o filme feito sobre o último; ver entrevistas no Youtube envolvendo Saramago e estudiosos sobre ele; e assim por diante.

Para um leitor interessado, todo livro funciona como uma semente para uma nova árvore de conhecimento, com raízes e galhos imensos que podem se desdobrar até o infinito.

Nós, aqui no Clube, acreditamos que o futuro do livro seja precisamente isso. Nada de debates infrutíferos sobre ebooks substituindo impressos ou impressos continuando a dominar: sendo franco, discutir a forma da literatura nos parece uma perda de tempo considerando as tantas transformações pelas quais a literatura como um todo está passando.

O mais importante é algum formato que some, de maneira explícita, essa árvore de conhecimento que nasce a partir de cada livro. Algo que seja impresso e eletrônico, físico e digital, em texto e em vídeo. Tudo ao mesmo tempo, mas tendo um único ponto de início: uma história contada por alguém.

Ainda teremos muito a falar sobre esse tema nos próximos dias mas, desde já, queríamos a opinião de todos os autores.

O que você acha especificamente sobre isso tudo?

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