Os brasileiros

Não há, no mundo, nenhuma estirpe de escritores mais incrível que a brasileira. 

Por favor não entendam essa minha opinião como xenófoba ou preconceituosa: já me derramei em elogios, em posts passados, por autores dos quatro cantos do mundo. Mas nenhum deles consegue casar a delicadeza revolucionária da linguagem com a brutalidade desconcertante dos temas como os nossos. 

Tá… talvez essa seja uma opinião que se pode esperar de um brasileiro que, obviamente, compartilha os mesmos panoramas culturais que esses autores… 

Ainda assim, é uma opinião que insisto em repetir. 

Não há, no mundo de fora, nenhum autor que tenha conseguido captar a essência da vida de maneira tão incrível quanto Guimarães Rosa. Não há nenhum poeta tão embasbacante quanto Manoel de Barros. Não há cronista de cotidianos como Alcântara Machado. Não há nenhum retratista de lugares e épocas como Jorge Amado. 

Mas sabe qual o problema do parágrafo de cima? Todos os meus exemplos são feitos de cadáveres. 

Será que ainda somos um país de escritores geniais ou que, um dia, fomos – e deixamos de ser?

Quero crer que ainda sejamos – muitos dos livros do Clube que leio me apontam para essa conclusão. 

Só que livros são feitos de leitores e, enquanto o público brasileiro insistir em comer apenas a literatura empacotada vinda da Europa ou dos EUA, dificilmente conseguiremos consolidar carreiras de novos mestres nossos. 

Passou da hora de nos lermos mais e de nos concentrarmos mais na nova literatura produzida por aqui. 

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Teremos, um dia, uma obra prima global?

Procuro sempre guiar o meu hábito de leitura pelos extremos: quando leio autores daqui mesmo, do Clube, ou outros brasileiros como Guimarães Rosa ou Graciliano Ramos, equilibro-me com um Murakami, um Pamuk ou um Tosltoy. São espécies absolutamente diferentes de literatura – espécies que beiram a incompatibilidade criativa. 

Aqui, no ocidente, tendemos a ser mais sucintos e mais mergulhados nas histórias do que nas formas. Não que as formas sejam desprezadas – mas elas existem mais para embalar alguma mensagem mais densa e disruptiva. 

Do lado de lá, tudo muda: a forma é protagonista. Para ficar em um exemplo: Vermelho, de Pamuk, é um livro construído nos mais delicados detalhes, chegando ao ponto de ter como narradores um cavalo, a cor preta, uma árvore. Os pontos de vista das coisas se entrelaçando em um enredo é algo brilhante por si só. 

Essa minha viagem constante pelas fronteiras da literatura tem me feito me perguntar algo: será que, um dia, teremos uma espécie de obra prima que una essas duas características como nenhuma outra? Será que, um dia, teremos algum livro composto com o detalhismo do hemisfério de lá somado à brutalidade genial do hemisfério de cá? 

Se isso ocorrer, arrisco-me a palpitar, será por agora: em nenhum outro tempo tantas ondas de imigração se sucederam, resultado de guerras e misérias, enevoando as fronteiras entre ocidente e oriente. Quanto menos fronteira, claro, mais união cultural se pode esperar.

Se isso ocorrer, arrisco-me a palpitar, será também por aqui, no universo da autopublicação – dificilmente um editor tradicional, antiquado, avesso a inovações, conseguirá sequer entender o poder de uma literatura universal.

Dos meus dois lados de cá – o do Clube de Autores e o de um leitor qualquer – fico na torcida para que esse dia em que uma obra prima universal, uma obra que una o melhor dos dois mundos do nosso mundo, seja logo composta. 

 

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O que política tem a ver com literatura?

Ultimamente tenho feito alguns posts com um teor mais político que literário.

Como todos, tenho também as minhas crenças políticas que sempre tentei manter distante daqui do blog e do Clube como um todo. E juro: na medida do possível, busco sempre ser o mais neutro que consigo.

A questão é que é impossível dissociar política de literatura pelo simples fato de que a segunda é filha direta da primeira.

Como? Ora… se a literatura é o conjunto de histórias nascidas em um determinado período, e se um determinado período tem seus contornos desenhados pelos efeitos das decisões políticas tomadas pelas suas lideranças, como negar a relação entre ambas?

Como negar a incrível análise de poder de Tolstoi em Guerra e Paz ou os efeitos da falência do “establishment” em Crime e Castigo, de Dostoiévsky? E nem precisamos ir tão longe, claro: como negar que uma obra prima como Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, foi escrita também pela perseguição política que manteve preso por tanto tempo?

E Castro Alves com seu discurso abolicionista? E Alcântara Machado com sua biografia de uma São Paulo tomada por imigrantes italianos na primeira metade do século XX?

E a literatura de periferia que, hoje, já é praticamente um gênero completo que nasceu a partir da desigualdade social gerada – claro – pelas decisões políticas brasileiras?

Tenho para mim que, como a política é uma arte empírica, ela se impõe a sociedades como ondas com efeitos imprevisíveis. Essas ondas geram tanta beleza quanto desastre – tudo depende das suas forças e dos seus efeitos, claro. Mas a cada vazante, duas consequências são sempre deixadas: os desastres e as histórias que os acompanham.

E, se não há como entender a literatura senão como filha direta da política, que todos nos aprofundemos o máximo possível nesse pano de fundo onipresente de todas as histórias que escrevemos em nosso cotidiano de autor.

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Do orgulho do pioneirismo à frustração do conformismo

Saramago, Valter Hugo Mãe, Mia Couto.

Esses três escritores – um português, um angolano e outro moçambicano – tem uma coisa em comum: eles são parte de uma revolução na língua portuguesa. Sim, eu sei que Saramago já nos deixou – mas isso faz tão pouco tempo que tomei a liberdade de ignorar sua morte para me concentrar em sua obra.

Vamos à questão da revolução.

Basta ler As Intermitências da Morte ou Ensaio sobre a Cegueira para ficarmos babando nos períodos longos e virgulados de Saramago, em uma maestria que confere a cada texto um ritmo inacreditável.

O que dizer sobre a tetralogia das minúsculas – os quatro pesadíssimos livros de Valter Hugo Mãe que abole até as letras maiúsculas e os pontos de interrogação para fazer as histórias fluírem melhor?

Mia Couto? As palavras que ele inventa, por exemplo, em Terra Sonâmbula, são poesias à parte. Cada frase sua é um livro, eu diria.

Mas sabe o que isso tem a ver conosco? Nós, brasileiros, somos a raiz de toda essa revolução. Não costumamos nos dar tanto crédito, mas todos esses gênios estão fazendo hoje o que Mário de Andrade e Guimarães Rosa, para ficar apenas em dois exemplos, fizeram no começo do século passado.

Sim: apesar de não sermos os inventores do nosso idioma, fomos nós que primeiro os tiramos do ostracismo, sacudimos os seus antiquados tradicionalismos e o fizemos se curvar às histórias. Aliás, é isso que define a revolução de um idioma: fazer com que as suas regras ortogramaticais obedeçam às histórias para as quais ele foi criado, e não o contrário.

Tá… mas qual o ponto de tudo isso?

Não se trata apenas de bater no peito e arrotar o orgulho dos pioneiros. Trata-se de entender que, hoje, enquanto outros países lusófonos do mundo estão seguindo um movimento que nós iniciamos, nós estamos aqui, metamorfoseados em seguidores.

Já passou da hora de impormos ao mundo uma forma nova de contarmos histórias.

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