Há como escrever biografias reais?

Sim, eu sei que a pergunta é difícil – e já peço desculpas aos biógrafos que aqui me lêem.

Mas, recentemente, estou mergulhado de cabeça na tarefa de escrever a biografia de um atleta sul africano e heróis de guerra, um tal de Phil Masterton-Smith.

Mergulhado é pouco: já conversei com a irmã de 94 anos dele diversas vezes, já fiz amizade com sobrinhas e familiares, já bati papo com colegas de regimento, já capturei documentos oficiais da Segunda Guerra, já até me planejei para repetir um dos seus feitos, pedalar 1700km pela África em 10 dias e correr uma ultramaratona de 89km no dia 11.

E a história, modéstia à parte, está mesmo tomando uma forma belíssima. Mas sabe onde essa dúvida do título me bateu?

Nas partes entre datas e fatos documentados. Biografias, concluí, são sempre compostas de três partes: os inegáveis fatos, os dedutíveis pensamentos e as filosofias de vida quase sempre obscuras, íntimas demais para se fazerem realmente sabidas.

O que Phil, por exemplo, estava pensando antes de embarcar em um ou outro caminho de sua vida? O que ele buscava, realmente? E do que era composta aquela “matéria negra” tão vasta, tão maior, que circundava cada decisão sua.

No meu caso – como no caso de qualquer biógrafo – não há como saber.

Há, no entanto, como projetar, como encaixar filosofias entre ações, fatos e dados do biografado. A grande questão é que, no fundo, essas filosofias partem invariavelmente de uma única pessoa: do autor.

Assim, um biografado não é apenas uma pessoa real, que viveu sua vida e fez suas coisas: ele é também, ainda que em parte, um personagem de ficção, parido e criado pela mente do seu autor.

Volto, portanto, à pergunta do título: há como escrever biografias reais? Minha conclusão: não.

Biografias, no final, são sempre peças de ficção baseadas em fatos verdadeiros.

Mas a história da humanidade inteira não é também escrita exatamente desta forma?

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A História da Chuva

Niall Williams abre o seu belíssimo livro “History of the Rain” (ou ‘A História da Chuva’, aparentemente ainda não traduzido para o português) dizendo que nós somos as nossas próprias histórias. 

Em tese, o pensamento em si não é tão original: certamente todos nós já ouvimos isso de diversos escritores ou poetas que biografam a vida. Mas há que se sair da superfície para entender o que ele realmente quis dizer. 

No livro, a protagonista cava fundo em suas memórias para recontar a história de seu pai e de seu avô como maneira de se entender melhor enquanto passa os dias acamada por uma doença grave. Há toda uma sucessão de tragédias familiares: o irmão gêmeo morre afogado, a casa pega fogo, o pai tomba, súbito, de câncer, e assim por diante.  Há o suficiente para que o leitor babe ininterruptamente de tanto chorar. 

Mas há mais. 

Entre cada pedaço de história familiar, a narradora insere trechos de histórias de Dickens, de Dante, de Shakespeare. Entre cada vida vivida, ela soma vidas lidas a partir da biblioteca de mais de 3 mil livros do pai – livros aos quais ela dedica cada minuto do tempo que lhe resta. É como se o autoconhecimento não viesse apenas da fria árvore genealógica, mas principalmente do acúmulo de conhecimentos que cada parte dela – seu pai, seu avô, seu bisavô – absorveu ao longo de suas próprias vidas. 

Algum antepassado leu Virgínia Woolf, por exemplo? Então a história se introjetou no sangue familiar, ajudando a moldar o pensamento genealógico dali para a frente. 

Parece uma viagem? E é. Principalmente porque, em um determinado momento, a história familiar real, factual, vai perdendo importância e deixando-se substituir pela história romanceada, imaginada, escrita e, portanto, imortalizada.
Ao final do livro, o leitor não tem sequer a certeza do que realmente aconteceu – mas esse real fica tão irrelevante frente à maneira com que a narradora expõe seus desejos como fatos passados que o pensamento que abriu este post ganha uma nitidez incrível. 

Sim: somos as nossas próprias histórias. Mas não apenas porque foram elas que embasaram as nossas visões de mundo e sim porque foram – e são – elas que, repassadas adiante, significam o que sonhamos ser e o que, lá em nosso íntimo, mais acreditamos ser. E isso é algo muito, mas muito mais real do que a própria realidade. 

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Nós somos as nossas histórias

Se há uma coisa em que acredito na vida, é que o nosso grande propósito é justamente o de compartilhar as nossas próprias histórias. Refiro-me a todos os aspectos da nossa existência: do biológico, em que transmitimos os nossos genes (e, portanto, a narrativa evolucionista de nós mesmos) de geração em geração, até o humano, em que contamos e escrevemos as nossas experiências para que os olhos alheios possam crescer a partir delas.

Isto posto, o que melhor define a nossa própria existência não é a verdade crua, a realidade cotidiana que cerca cada uma das nossas decisões, sortes e azares. Ao contrário: cotidianos costumam ser tão monótonos que, fossem um livro, facilmente levariam seus leitores ao mais profundo dos sonos.

O que define as nossas existências são as nossas histórias – incluindo a mescla de ficção e não-ficção que costuma acompanhar a vida de todos nós. São os nossos dramas apimentados, os nossos amores sofisticados, os nossos sonhos utopizados, as nossas dificuldades dramatizadas e, enfim, os pequenos exageros que transformam a realidade em algo mais interessante para os olhos e ouvidos de quem quer que se interesse por nós, sejam nossos filhos e netos ou meros desconhecidos.

Ou você tem absoluta certeza de que as vidas dos heróis do passado, de César a D. Pedro I, de Genghis Khan a Carlos Magno, foram realmente tão carregadas de nobrezas e atos de coragem (ou, em alguns casos, de crueldade) como costumamos aprender?

Jamais saberemos ao certo, claro. Mas quem se importa com isso? Na prática, o relevante não é o que aprendemos com as romantizações de suas realidades? E, isto posto, em nossos casos, o que importa não é justamente a história que deixamos sobre nós mesmos para o mundo?

Escrever não é apenas narrar histórias: é inventá-las de acordo com as nossas visões de mundo. E é também, provavelmente, a mais nobre das artes da humanidade, aquela que melhor define o verdadeiro propósito da vida.

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Escrever no papel é diferente de escrever no vídeo

Há alguns anos, nos deparamos com uma espécie de experiência publicada no Vimeo por um grupo português. Na prática, trata-se de uma poesia transformada em curta-metragem filmado ao vivo pelas ruas da belíssima Lisboa.

Na descrição, o grupo fala que “escrever no papel é diferente de escrever no vídeo” – mas, seja como for, o próprio conceito de contar histórias nasceu de uma tradição oral que parece estar se perdendo no tempo. Vale a pena, portanto, conferir esse belo filme: Só de Mim, do grupo Diffuse:

Só de mim from Diffuse on Vimeo.

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