Dados e tendências do mercado editorial

Recebi, agora à tarde, o arquivo de uma das apresentações que vimos aqui na Feira do Livro de Londres com alguns dados e tendências do mercado editorial.

Embora seja algo mais focado para empresas, sempre parto do princípio de que autores são a parte mais fundamental de toda a cadeia literária e que, portanto, precisam sempre ter acesso a informações referentes ao mercado que estão construindo.

Essa apresentação, do Conselho Britânico, tem alguns pontos muito relevantes que destaco aqui:

– Na Inglaterra, o Kindle e a Amazon são absolutamente dominantes – mas as vendas de Kindles já começaram a desacelerar e há uma tendência deles serem superados por tablets em um futuro próximo.

– O ritmo de crescimento de ebooks é forte – mas eles ainda são minoria (14% na Inglaterra e 23% nos EUA). Para nós, iso indica que levará ainda mais algum tempo para que ebooks passem a dominar, de verdade, a cadeia.

– Ficção é, de longe, o gênero mais efetivo para vendas em ebooks. Não ficção e livros para crianças ficam muito, muito atrás.

– Os preços de ebooks, que estão na média de 40% do preço de impressos, devem continuar caindo.

Quem quiser baixar a apresentação pode clicar aqui ou na imagem abaixo. Está toda em inglês, mas vale a pena nem que seja para passear pelos gráficos e dados :-)

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E-readers versus tablets: quem ganha a guerra?

Sendo bem direto: tablets. Pelo menos essa é a conclusão que está sendo traçada aqui nas reuniões dos YCEs em Londres, em que o Clube de Autores está representando o Brasil.

Apesar da incrível dominação do Kindle no mercado mundial, há indícios claros no sentido dessa “tendência”, por assim dizer.

O mais importante é que leitores digitais de livros são, em sua totalidade, limitados. Sim: são feitos para ler livros e, portanto, não tem foco tão claro em resoluções de tela, qualidade de áudio, integração com redes sociais e navegação na Web como um todo.

Se o futuro do livro girasse apenas em torno do formato (ebook versus impresso), é possível que produtos como o Kindle tivessem uma expectativa de vida e de crescimento avassaladora. Mas não é isso que está acontecendo: de maneira geral, aliás, as vendas de leitores digitais como o Kindle estão diminuindo substancialmente o ritmo – principalmente quando se compara com tablets.

Produtos como o ipad podem fazer mais? Certamente. Esse post, por exemplo, está sendo escrito em um durante uma reunião.

E é esse “fazer mais” que conta. Afinal, antes de entender o futuro do livro é fundamental compreender o perfil do leitor do futuro (que, em grande parte, já é também o leitor do presente, principalmente nas gerações mais novas).

O leitor do presente não é apenas um leitor. Ele também escreve, seja um livro, um artigo, um post de recomendação em redes sociais ou qualquer outra coisa.

O leitor do presente não é linear: histórias longas com um começo, meio e fim perdem a graça para ele. Enquanto lê, ele gosta de pesquisar sobre o assunto, de acessar vídeos relacionados, outros livros, de conversar.

O leitor do presente não usa a Internet com hora marcada: ele sempre está na Internet. E fazendo diversas coisas ao mesmo tempo.

O problema de ereaders como o Kindle é que eles são uma espécie de versão digital do livro impresso. E não me entendam mal: eles fazem um trabalho incrível nesse sentido, tem uma qualidade incomparável e ainda são um imenso sucesso de vendas em todo o mundo. Só que uma das características mais fantásticas do mundo é que ele tende a mudar. Sempre.

Seria perfeito se o público estivesse buscando apenas uma versão diferente do que eles já estão acostumados. Só que o caso é outro.

O leitor do presente quer um modelo diferente de leitura – algo que permita opções diferentes de aprofundamento em conteúdo, de imersão e mesmo colaboração. Algo que inclui o livro tradicional, por assim dizer, como uma parte do modelo – mas não como o modelo inteiro.

Em outras palavras: o futuro do livro é se transformar em algo muito mais plural do que o que entendemos, hoje, como livro.

E ereaders – ao menos atual,ente – simplesmente não estão preparados para isso. E, caso se preparem, terão fatalmente que iniciar (praticamente do zero) uma jornada inteira que já está sendo trilhada, com grande sucesso, por empresas como Apple, Samsung e outras.

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Adicionando a curadoria como forma de receita dos autores

Nos tempos românticos, ter sucesso como autor era simples: bastava escrever um livro, ser escolhido por um editor e ver a sua obra nas vitrines de todas as livrarias do mundo.

É claro que, no mundo real, esses tempos nunca existiram: ter sucesso como autor sempre foi algo de dificuldade colossal desde os primórdios. Mas uma coisa era fato: o modelo de negócios era simples e muito direto.

Uma vez que o autor conseguisse uma editora e o livro fosse distribuído, tudo se desenrolava como um cálculo aritmético partindo do preço pago pelo leitor.

Hoje, no entanto, a fórmula é mais complexa. A oferta de conteúdo explodiu, os preços despencaram depois do surgimento dos ebooks e a Internet proporcionou acesso a zilhões de conteúdos relacionados, de artigos a recomendações – muitos dos quais gratuitos, diga-se de passagem.

Onde isso entra na vida de autores como nós? No entendimento de que não somos, necessariamente, apenas criadores de conteúdo. Somos coletores e curadores.

Se um leitor chega à página de venda de nosso livro ele precisa de mais informações. Precisa de sinopse, de um contato, de acesso a opiniões de terceiros, claro. Mas, hoje, ele precisa de – ou pelo menos quer – mais.

Se você escreveu um livro, provavelmente tem sua própria coleção de inspirações que delineiam o universo do livro: outros títulos que leu, artigos, músicas, lugares, pesquisas, referências etc.

Ou seja: você criou um conteúdo próprio, escreveu um livro – mas, para isso, também agiu como curador de uma base maior de conteúdo para si mesmo, escolhendo o que devia ou não utilizar como sua inspiração.

No mercado tradicional, esse conjunto de fontes, essa curadoria particular, sempre foi mantida em sigilo (possivelmente por falta de opções de divulgação). Hoje, no entanto, esse universo pode ser escancarado (e melhor explorado).

Já imaginou se, além da obra prima Os Miseráveis, pudéssemos ter acesso a todas as fontes de pesquisa utilizadas por Victor Hugo na época? Ou viajar pelos livros, artigos e filmes aue inspiraram Saramago a escrever o Ensaio sobre a Cegueira?

De certa forma, o universo de conteúdo que orbita, escondido, em torno de cada livro, pode ser tão ou até mais inspirador do que o livro em si – e pode permitir uma experiência de leitura fora de série.

Mas, novamente, entra a pergunta: o que o autor ganha com isso?

A partir do momento em que seu papel de curador passa a ser oficializado, ele pode ganhar uma merecida remuneração. Afinal, se ele fez tanta pesquisa valiosa para chegar a um livro, nada mais natural do que receber também pelo acesso a essa pesquisa – abrindo uma oportunidade mais rica de aprofundamento em conteúdo para os seus leitores e, claro, uma bem vinda fonte adicional de renda para si mesmo.

No mercado literário, esse modelo ainda não existe – ao menos não exatamente dessa forma. Mas foi uma das possibilidades aventadas aqui na Feira do Livro de Londres e considerada como tendência em tempos onde buscas de novos modelos de negócio estão sendo nuscados quase como o Eldorado.

Devemos considerar isso em um futuro próximo aqui no Clube, possivelmente acoplando um modelo de curadoria remunerada para autores no Pensática (que está já saindo do forno). E, como tudo o que fazemos, queríamos antes compartilhar com todos os autores.

Qual a sua opinião sobre isso? Como soa a possibilidade de abrir para os leitores todas as suas fontes de pesquisa e agregar uma nova fonte de receita com isso?

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Por que o Youtube abriu primeira conferência da Feira do Livro de Londres?

A primeira palestra do dia no Digital Minds Conference – evento que abre a Feira do Livro de Londres – foi do Google. O assunto não foi Android, Google Play ou nenhuma plataforma de leitura: foi o Youtube.

Nesse ponto veio uma pergunta natural: se quem está abrindo uma das maiores feiras de literatura do planeta é uma empresa de vídeo, para onde o mercado está caminhando?

A resposta veio de maneira tão natural quanto a dúvida – provavelmente por, coincidência ou não, já estarmos trabalhando nela há alguns dias.

Discutir livros já não é mais apenas discutir formatos de leitura, mas sim hábitos de leitores e autores. Ou, indo além, na tênue linha que, hoje, divide autores de leitores.

Veja: autores, claro, geram o material primário de discussão – o livro. Mas todos os leitores participam de maneira ativa do próprio conteúdo ao postar recomendações, posts em blogs, tweets, indicações de materiais complementares etc. Ou seja: hoje, leitores complementam de maneira determinante a experiência de leitura.

Hoje, o leitor escolhe uma obra já conhecendo opiniões, visões, resenhas e mesmo o autor responsável por ela. De certa forma, é como se ele abrisse a primeira página já com una opinião pre-formada a partir de zilhões de conteúdos relacionados aos quais ele já teve e continua tendo acesso. Acesso, diga-se de passagem, que inclui a sua própria participação.

O Youtube não é apenas um canal de postagem de vídeo: é um canal de co-curadoria em que autores e usuários participam de maneira absolutamente entrelaçada, colaborativa, conjunta.

Acompanhar o percurso dessa rede é o mesmo que dar uma olhada sutil no que deve ser o futuro do livro como um todo.

A questão não é mais para onde o mercado editorial está caminhando: isso tem ficado cada vez mais claro. A questão é até que ponto os autores de hoje estão preparados para esse novo perfil de leitor.

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Há espaço para gigantes no #FuturoDoLivro?

Qual o futuro do livro? Nessa semana que estou aqui em Londres, um dos principais tópicos discutidos no encontro dos YCE (grupo de 6 empreendedores do mercado editorial vindos da Rússia, Africa do Sul, China, Emirados Árabes, Colômbia, Espanha e, claro, Brasil) gira em torno desse assunto.

E, já no primeiro papo que aconteceu no Groucho Club (SoHo), a conclusão já foi bem simples: todos os países estão enfrentando os mesmos tipos de problema, incluindo:

– Embates sobre livro impresso vs. livro digital (o que, sinceramente, acho uma discussão meio inútil)
– Briga por espaço para novos autores até mesmo como forma de rejuvenescer a literatura tradicional
– Briga com os “donos” do mercado editorial

Esse último ponto é importante principalmente para países como o Reino Unido e Espanha, que contam com uma dominação inacreditável do mercado pela Amazon – algo que não ocorre, ao menos com esse peso, no Brasil.

Esse é, aliás, um ponto curioso da própria dinâmica de mercados: a Amazon cresceu no mundo principalmente pela sua competência – ela conhece o leitor como ninguém mais.

Por outro lado, o gigantismo gerado pela sua competência acaba servindo como uma força política imensa usada para impedir (ou ao menos diminuir) o crescimento de outras empresas do meio. Ou seja: o sucesso no longo prazo de uma iniciativa inovadora como a Amazon parece estar preso à necessidade de dificultar, por meio de sua força política, novas iniciativas inovadoras que, por definição, existem para questionar e alterar o status quo (que ela passou a representar).

Diferentemente do passado, no entanto, novas iniciativas nunca tiveram tanta oportunidade de crescimento quanto agora devido à Internet – o próprio Clube é testemunha disso.

E as forças que, mesmo de maneira desestruturada, tem se unido contra o gigantismo de uma ou algumas poucas empresas, parecem ainda maiores do que elas.

Para onde isso aponta? Para o questionamento da própria viabilidade de iniciativas pseudo-monopolistas como a Amazon. Hoje, certamente, ela domina o mercado como ninguém mais: mas parece que o mercado está começando a reagir a essa (e a qualquer outra) forma de dominação tão clara.

Veremos as cenas dos próximos capítulos.

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(Na foto, os participantes da reunião dos YCE que acontece agora no Groucho Club).

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