Saudades da falta de saudosismo do México

A Feira Internacional do Livro de Guadalajara – FIL – foi marcante para nós por, principalmente, um motivo: o otimismo acelerado do mercado de lá. Do mercado, não: dos mercados, incluindo os sorridentes tons de vozes vindos dos representantes da Colômbia, Chile, Argentina e tantos outros.

Crise?

Quando eu comentava lá que, aqui no Brasil, o mercado editorial estava se desfazendo em lágrimas, a pergunta era sempre a mesma: “mas por que, se os leitores estão lendo cada vez mais livros?”

Não soube responder.

Ou melhor, soube – mas preferi me calar. Já postei aqui antes e repito agora: o único motivo pelo qual mercado editorial brasileiro está em crise é a insistência dos seus principais agentes em não mudar e em não perceber o quanto o mundo já estava diferente.

Quantas vezes nós, aqui no Clube, perdemos horas e horas em reuniões com editoras de todos os portes propondo a elas um modelo de trabalho sem estoque algum, baseado quase que exclusivamente na impressão sob demanda, o que eliminaria por completo os seus principais custos? Incontáveis. E quantas vezes essas propostas sequer tiveram retorno? Nenhuma.

Quantas vezes tentamos negociar com canais de venda espaço para autores independentes? Inúmeras. Tivemos sucesso apenas depois que o mercado chegou perigosamente perto do abismo.

Bom… entre recuperações judiciais e falências, aparentemente o mercado brasileiro está acordando. Fica pelo menos esta boa notícia para fechar 2018, embora ela venha recheada de lamentações de velhos editores sobre “os bons tempos” que já se foram. Pergunto-me: que bons tempos? Aqueles em que autores independentes não encontravam nenhuma alternativa para se publicar? Aqueles em que mesmo os já consagrados autores sequer sabiam quantos livros venderam, já que os números eram trancafiados a sete chaves? Aqueles em que poucos grandes grupos corporativos mandavam em tudo? Como é possível chamá-los de bons tempos??

Ah, esses velhos editores que cismam em viver de saudosismo!

Enquanto isso, no resto do mundo, deixa-se o passado para trás e foca-se no futuro. O que predominava de assunto na FIL, em Guadalajara? Melhores apps para se ler ebooks. Formas mais eficientes de se produzir impressos. Canais alternativos de distribuição. Estratégias para se globalizar a palavra escrita. Caça a novidades vindas dos quatro cantos do planeta que poderiam inspirar novos projetos para novos leitores.

Entre tantas novidades e olhares voltados para a frente, parecia não haver espaço na FIL para saudosismos como os tantos que encontramos aqui em nossas praias.

Deveríamos ter isso como lição: se quiser mudar, o mercado brasileiro precisa desesperadamente olhar para a frente e deixar o passado onde ele pertence: no passado.

Que os nossos mares – os maiores da América Latina, diga-se de passagem – sejam rápidos em levar os velhos editores saudosistas embora, deixando em nossas areias apenas os descobridores dispostos a criar o mercado realmente novo que tanto precisamos.

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Feira do livro de Guadalajara: a primeira impressão

Estamos tão habituados a ouvir misérias sobre o mercado editorial que, aos poucos, vamos nos resignando e nos entregando à crença de que tudo vai mal no mundo do livro.

Não é verdade.

E não estou falando aqui apenas da nossa história, a história do Clube, que teve um 2018 espetacular. Mesmo o mercado tradicional não está assim tão mal quanto parece – ao menos não fora das nossas fronteiras.

Essa foi a nossa primeira impressão ao perambular pelos lotados corredores da FIL – Feira Internacional de Livros de Guadalajara, no México, segundo maior evento do gênero no mundo (perdendo apenas para Frankfurt).

As Saraivas e Culturas daqui – as imensas livrarias Gandhi e Porrúa que, assim como suas contrapartes brasileiras, dominam o mercado local – não estão lamuriando suas dificuldades. Ao contrário: empolgados, parecem caçar novas fronteiras de crescimento para um país que só agora parece estar entregando papel e tinta à sua inigualável tradição de narrativas orais.

Não há também o isolacionismo cultural ao qual nos acostumamos no Brasil, em grande parte pelas barreiras de idioma. Estandes da Argentina, Chile, Peru e tantos outros parecem se entrelaçar, criando uma teia de literatura latina composta tanto pelos best-sellers locais como García Marquez e Vargas Llosa quanto por autores novos, independentes, que estão ainda no chegando ao auge de suas produções literárias.

Sim, há o estande brasileiro também – mas este parece triste, só, perdido entre uma prateleira do Maurício de Sousa e alguns kits de livros com brinquedos de dinossauros. Não nego uma certa decepção que nós, terra de gênios que vão de Machado de Assis a Guimarães Rosa, de Rachel de Queiroz a Manoel de Barros, exibamos como único exemplo de nossa literatura os quadrinhos da Turma da Mônica.

A primeira impressão da FILGuadalajara, portanto? A de que o pessimismo editorial brasileiro é algo específico do mercado tradicional brasileiro, o que domina as burocracias e as engenharias envelhecidas que em nada retratam o cotidiano dos novos autores e dos novos leitores.

Nós, independentes, parecemos imersos em uma realidade tão diversa que se aproxima da distopia: temos muitas histórias para contar, temos meios para fazê-las chegarem aos nossos públicos e temos público disposto a lê-las.

E fora das nossas fronteiras esse otimismo literário parece ser onipresente: o mundo inteiro está disposto a mergulhar em novas fronteiras literárias, a descobrir novos mundos e novas possibilidades.

Não é apenas no Brasil que a vez dos independentes chegou: é no mundo inteiro.

Aposentemos, pois, o velho, o tradicional, o antigo e o antiquado. O mundo já os está deixando para trás.

Agora é a nossa hora.

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Quer saber o que acontece no cenário editorial latino? Pergunte-nos: estamos no olho do furacão!

Como comentei no post da sexta, estamos hoje na FIL – Feira do Livro de Guadalajara, no México, segunda maior do mundo. 

Nosso objetivo é saber o que está acontecendo no cenário editorial fora das nossas fronteiras: que casos, inovações, dificuldades, soluções e histórias estão sendo construídas por aqui. 

Tem alguma curiosidade sobre isso? Quer fazer alguma pergunta qualquer?

Então siga-nos no Twitter e acompanhe a nossa transmissão! E, claro, fique à vontade para nos perguntar o que quiser por aqui ou por lá e faremos o possível para responder!

 

 

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O muro de Trump como símbolo perfeito dos nossos tempos

Fiquei me perguntando, dia desses, o que aconteceria (ou acontecerá?) com o mundo se o Trump realmente construir o seu muro. Sim, é óbvio que isso afetará mais a relação entre México e EUA do que entre quem quer que seja… mas será também o símbolo de uma mudança dramática na história da humanidade.

Por que? Porque mudanças são simbolizadas por marcos, por manifestações físicas de pensamentos polêmicos. O muro de Berlim, ingrato antecessor da ideia de Trump, teve esse papel: ao isolar diferentes culturas, ele simbolizou diferentes enfoques culturais e políticos e gerou toda uma pletora de conflitos e histórias. Símbolos e muros são como o pontapé inicial de uma dialética hegeliana: há a tese, cria-se uma antítese fisicamente separada dela e, depois de muita filosofia sobre divisões e uniões, chega-se em uma síntese nova.

Como humanidade, ficamos na ingrata posição de perder no curto prazo (uma vez que cismas entre povos dificilmente trazem benefícios) e de ganhar no longo prazo (uma vez que experiências, inclusive as malfadadas como creio que será a do muro, tendem a ampliar o nosso conhecimento sobre nós mesmos).

Mas o mais curioso é que símbolos, quando tangibilizados, servem apenas para oficializar pensamentos que já são generalizados. Olhe para o mundo distante: Brexit, polêmicas em torno dos imigrantes muçulmanos, fanatismo religioso, Estado Islâmico. Todos esses movimentos são fruto de uma crescente intenção de povos se juntarem em comunidades que pensem de maneira semelhante para se isolarem do resto do mundo (a quem condenam aos brados).

Olhe para o mundo próximo: as eleições para presidência no Brasil, vencidas por Dilma Rousseff, foram marcadas por discursos do ex-presidente Lula pregando o “nós contra eles” e posicionando o seu eleitorado como inimigo do “outro Brasil”, o “Brasil das elites”. Dilma pode ter sofrido o impeachment pouco tempo depois (por outros motivos), mas não se pode ignorar que foi esse discurso incendiário que conquistou os votos decisivos para que ela se consagrasse vitoriosa nas urnas.

Fora das eleições, há movimentos crescentes de separatismo, por exemplo, da região sul do Brasil – um dos quais já tem até mascote e abaixo-assinado com dezenas de milhares de apoiadores.

Aliás, nem precisamos ir tão longe: olhe o seu próprio Facebook. Seja por brigas entre esquerda e direita ou entre defensores de grafite ou da limpeza urbana, o fato é que as discussões estão cada vez mais inflamadas independentemente das suas causas.

O resumo de tudo isso: a era da informação, ao invés de nos unir enquanto povo, está nos separando em comunidades de fanáticos. O muro do Trump é, repito, apenas o símbolo mais dramático de um pensamento que, com maior ou menor força, já está presente na quase totalidade das pessoas.

Nos posts que faço aqui no Clube eu costumo olhar tudo sob a ótica da produção literária – mesmo porque isso é, afinal, um blog de literatura. Farei o mesmo, então.

Kafka foi filho de uma era de ruptura de pensamento social. Machado de Assis também. Como eles, em diferentes eras de ruptura, tivemos ainda Nietzsche, Proust, Shakespeare. Tivemos muitos, muitos gênios que produziram obras primas que questionaram tudo e, ao fazer isso, nos catapultaram para níveis intelectuais cada vez mais elevados.

A que conslusões isso nos leva?

O muro do Trump e esse segregacionismo generalizado podem ser as verdadeiras portas do inferno para sociedades de todo o mundo, abrindo caminho para que a humanidade mostre o que tem de pior. Mas, por outro lado, temos tudo para crer que já estamos testemunhando, em nosso cotidiano, lançamentos de maravilhas literárias que serão verdadeiros presentes para as futuras gerações.

Histórias, afina0516trumpwall01l, não hão de faltar nesse nosso caótico mundo de sociedades fanáticas.

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