Inspire-se visitando a casa dos grandes escritores da humanidade

Como autores, todos temos como ídolos outros escritores, ainda vivos ou já eternizados no tempo. Nomes como Oscar Wilde, Kafka, Clarice Lispector, Machado de Assis, Guimarães Rosa e tantos outros acabam fazendo parte do próprio repertório criativo de muitos de nós, influenciando as nossas palavras e pensamentos.

E – como todos nós – esses grandes mestres da literatura foram também fruto de seu tempo e dos seus “zeitgeists“. Dá para imaginar um Euclides da Cunha que não tivesse vivenciado Canudos? Ou um Kafka que não tenha vivido sob o clima opressor da Praga de antigamente? É possível separar a literatura de Victor Hugo do clima romântico de Paris, ou vislumbrar um Machado de Assis distante da famosa Rua dou Ouvidor, no Rio?

Se quiser conhecer a fundo a alma de um escritor, é fundamental ir além de suas obras e visitar os seus lares, os seus quartos, estudar o tempo em que viveram. E como não faltam grandes nomes espalhados pelo mundo, não é também nada difícil aliar o útil ao agradável e aproveitar alguma viagem de férias ou feriado para mergulhar, de uma maneira um pouco mais íntima, na vida daqueles que nos inspiram.

Quer uma ajuda? Dê uma olhada nessa matéria aqui, com as casas de dez escritores famosos. Ou nessa, com 15 outros endereços; ou nessa outra, com mais 5

Ou seja: referências e locais para visitar não faltam. Basta vontade de se inspirar com esses grandes mestres.

E, claro, escrever o seu livro. E lançá-lo aqui no Clube de Autores, claro!

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Por mais revoluções na língua portuguesa

Ganhei de Natal o livro “O Remorso de Baltazar Serapião”, do escritor português Valter Hugo Mãe. 

Nunca tinha lido nada deles antes, mas o testemunho de Saramago me empurrou para as suas páginas com tamanha voracidade que o terminei em algo como três dias. Dentre o que o mestre falou sobre esta obra, destaco a frase que foi parar na contracapa: “Este livro é um tsunami no sentido total: linguístico, semântico e sintático. Deu-me a sensação de estar a assistir a uma espécie de parto da língua portuguesa.”

É óbvio que a opinião de Saramago procedia: ele era, afinal, daquelas pessoas que não opinavam: criavam fatos incontestes. O motivo? 

“O remorso de Baltazar Serapião” esconde, em um enredo assustadoramente machista e polêmico, metáforas brilhantes sobre o tempo dilacerando a nossa vida; ele brinca com a língua portuguesa com uma maestria absoluta – excluindo de toda a obra, para ficar em dois exemplos, o uso de maiúsculas e de pontos de interrogação; ele consegue situar uma história medieval em qualquer parte da história da humanidade com uma perfeição perturbadora. 

Mas foquemo-nos na questão das maiúsculas e dos pontos de interrogação: como é possível um livro inteiro ser escrito sem elas? Simples: Valter Hugo Mãe prova que histórias dependem muito mais das suas próprias cadências do que de pontuações universalmente aceitas. Aliás, fica-se tão acostumado a ler nessa língua paralela que o autor cria que, ao tomar qualquer outro livro em mãos, julga-se facilmente o uso das regras idiomáticas corretas como excessos. 

Tanto este “Remorso” quanto os outros três livros do que acabou sendo chamado de “Tetralogia da Minúsculas” (por motivos óbvios) devem ser lidos por todos, principalmente por autores. São exemplos vivos de que, embora milenar, nosso idioma ainda pode ser poeticamente trabalhado de maneira a liberar – e não aprisionar – narrativas. 

São provas de que outros mestres como Guimarães Rosa, Mário de Andrade e, claro, o próprio Saramago, não precisam estar tão isolados nessa reinvenção da língua portuguesa e que, ao contrário, ela deve ser constantemente recriada por todos os escritores para facilitar o seu próprio propósito fundamental: permitir que histórias sejam contadas. 

Se o mundo não para de girar e evoluir, afinal, porque o idioma que o expressa deveria ficar congelado no tempo?

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10 citações de Grande Sertão: Veredas

Não preciso dizer aqui o quão fascinado eu sou por Guimarães Rosa e sua literatura modernista, uma das mais autênticas já produzidas no Brasil. Não só já devorei quase tudo o que ele escreveu como já corri quase 150km pelos sertões que o inspiraram tanto lá no meio de Minas (veja o relato aqui).

A literatura roseana é carregada de contradições estilísticas, eu diria. Se, por um lado, contos se confundem com romances e capítulos inexistem em sagas que duram centenas de páginas sem uma única divisão, por outro há pequenas frases ou trechos que, por si só, valem livros inteiros.

Grande Sertão é assim: um épico digno de Tolstoi recheado de microgenialidades no estilo de Drummond. Hä como pedir mais a algum autor?

Dia desses o blog Litera Tortura publicou 10 citações incríveis da obra. Devo alertar que há spoliers envolvidos….  mas que  vale cada letrinha pregada na tela. Clique aqui para acessar.

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Lendo Guimarães Rosa com suor

Há muito tempo eu publiquei aqui uma espécie de relato de intenções: iria participar de uma ultramaratona de 140km pelo sertão mineiro, largando de Morro da Garça e chegando em Cordisburgo (veja aqui). O que isso tem a ver com literatura? Foi por esse percurso que Guimarães Rosa tocou uma boiada com alguns vaqueiros e que acabou se inspirando para escrever uma das mais belas obras de arte da história humana: Grande Sertão: Veredas.

Pois é: a corrida foi no sábado passado. Ou melhor: ela largou às 14:00 da sexta e terminou às 19:30 do sábado, 29 horas e 30 minutos depois.

Além de fisicamente despedaçado, percorrer esse caminho (o nome da corrida era “Caminhos de Rosa”) foi esclarecedor. Primeiro, por largar de Morro da Garça, protagonista do conta “O Recado do Morro”, em pleno calor de 40 graus do sertão.

Corri, corri, corri e, por horas a fio, o morro realmente ficou lá, como que me seguindo com uma onipresença embasbacante.

Depois, a noite caiu. Me lembrei do Chefe, personagem de Buriti Bom que tinha tanto medo da noite que a atravessava acordado. “O sertão é de noite”, ele falava, referindo-se aos ventos que sopravam os esconderijos dos animais, das aves noturnas que caçavam, da vida que explodia quando o sol não estava lá para queimar tudo. Atravessei a madrugada correndo, sentindo uma solidão avassaladora e percebendo cada detalhe que encontrou sua casa nas páginas dos livros.

Horas depois, a bola vermelha começou a colorir o pálido do solo e das árvores retorcidas com o dia. Incrível, inspirador, de uma pureza tão simples quanto sofisticada. O sertão se esconde na sua aparência de simplicidade, diria o mestre: ele se disfarça, convida visitantes com o clima ameno das primeiras horas e com o cheiro suave da sua poeira para, depois, castigá-los pela ousadia.

E como castiga. Depois de 17 horas correndo e caminhando, o calor estava ja escorchante. Dava para imaginar com uma vividez incrível os jagunços de Riobaldo guerreando contra os de Hermógenes; dava para ver os pobres catrumanos rondando pela seca; dava para sentir o gosto das desejadas veredas que nunca apareciam.

O único ponto de descanso que a prova tinha era em uma fazenda lá pelo km 121.

Entrei.

Dormi por 10 minutos contados, me recuperando o que podia e comendo um prato de comida digno do sertão: simples e farto, delicioso e absolutamente essencial. ainda havia jornada: me recompus.

Troquei de roupa por uma muda limpa, sacudi a poeira caí na estrada de novo: ainda faltavam 27km (porque, sim, a marcação da prova estava errada e, no final das contas, a distância total somou 148km). O sertão engana.

Antes de iniciar essa corrida, li não apenas Grande Sertão: Veredas como também os três volumes de Corpo de Baile, totalizando algo como mil e quinhentas páginas. Precisava disso para seguir viagem, para ter comigo Manuelzão, Miguilim, Dito, as tias, Dona Lalinha, Dona Rosalina, Lélio, Pedro Orósio e todos esses vultos tão simbólicos, tão metafóricos e tão… precisos.

Estava me arrastando no último trecho: não tinha forças para correr, estava fraco, com bolhas nos pés, dores na cabeça e com coxas e panturrilhas urrando de dor.

Mas segui. É o que se faz quando não se tem outra opção, afinal.

Muitas horas depois, já no segundo por do sol, cheguei na Gruta de Maquiné, último ponto antes de Cordisburgo. Havia uma descida de 4km pela frente – algo que faz cada átomo do corpo doer depois de tantas horas correndo.

Desci, refazendo a vida, as histórias, o roseano da cabeça. Reli cada livro com a memória, cruzando seus fatos com o que eu havia testemunhado nas últimas tantas horas. Quando cruzei a chegada na cidade natal de Guimarães Rosa, estava em pandarecos, esfacelado, destroçado – mas feliz.

Estava inteiro.

Essa forma diferente de ler um autor – com as pernas – acabou me revelando que há muito mais para livros do que páginas, tintas e bits. Que histórias são feitas mesmo de poeira e ar, de sol, de suor e de cada milésimo de conclusão que cada leitor tira, a cada página.

Que histórias, quaisquer que seja, sempre se desenharão como metáforas para as nossas vidas: elas atraem, traem, tiram, devolvem, compensam. Basta atravessar – uma travessia que, acrescento, não é nada fácil.

O próprio Rosa diz isso na principal frase da sua obra prima, quase sempre depois de deixar claro que o sertão e a vida são uma coisa só: “viver é muito perigoso”.

Desculpem aqui o relato tão pessoal – quem me conhece sabe que não sou de falar de mim em espaços como esse. Mas essa jornada foi tão intensa, esclarecedora e, sobretudo, tão literária, que achei que cabia aqui.

 

 

 

 

 

 

 

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Passado, presente e futuro da literatura

Muitos dos grandes clássicos que lemos hoje foram escritos em um mundo gigantesco, provinciano, onde tudo era distante e difícil. 

Para Tolstoi, sair de São Petersburgo para Moscou – uma viagem de cerca de 700km – durava dias, muito mais do que as poucas horas de vôo que temos hoje. O mesmo Tolstoi se criou na cidade de Tula que, em princípios do século, era uma das maiores do Império Russo, contando com quase 52 mil habitantes (!). 

Ainda assim, em um mundo isolado de si mesmo por meios de comunicação absolutamente precários, onde o conceito de globalização era existente apenas enquanto sinônimo de dominação imperialista, ele conseguiu captar a mente humana como poucos. Tolstoi não estava só, claro. Muitos, muitos dos grandes intérpretes da alma humana, de Goethe a Guimarães Rosa, nasceram e se criaram em um passado tediosamente provinciano e recheado de barreiras políticas, culturais e tecnológicas erigidas justamente para evitar que novas ideias ganhassem novos públicos. Ainda assim elas ganharam, furando as barreiras com uma facilidade pueril.

De lá para cá, o mundo diminuiu consideravelmente: aviões transformaram dias em horas e a Internet metamorfoseou horas em frações de segundo. Hoje, podemos não saber tudo – mas sabemos o caminho para quase tudo que quisermos saber. Não há mais barreiras exceto, paradoxalmente, o próprio excesso de novas ideias e possibilidades.

Hoje é possível babar sobre obras do impressionismo francês pela manhã, provar comida turca no almoço, devorar literatura brasileira à tarde e se deleitar com uma peça inglesa à noite – tudo na mesma cidade e com um esforço mínimo. 

O efeito chega a ser óbvio: o acesso a tanto conhecimento certamente está levando a nossa sociedade a patamares jamais imaginados. 

Muitos dos (futuros) grandes clássicos que estão nascendo agora tem as grandes metrópoles e a fusão sócio-cultural como pano de fundo. Dá para ir além, até: a profusão de novas obras geniais gerou uma quase inédita e frenética simultaneidade de gêneros. Se, no passado, era possível separar romantismo de realismo em uma linha de tempo quase exata, o mundo de hoje convive com estilos que vão do neo-romantismo ao “new weird” ao realismo fantástico e à ficção científica, tudo sempre com o recheio de fanfics que apimentam suas “sagas-maternas” ao ponto de se tornarem algo totalmente à parte. 
O mundo hoje é mais simultâneo, mais imediato, mais dinâmico – e tudo isso, fruto de uma era de metrópoles tão físicas quanto virtuais, leva a crer que a literatura está apenas começando a dar ao mundo os seus grandes gênios, parindo toda uma multiplicidade de cérebros que rivalizarão com os Tolstois, Goethes e Rosas que tanto aprendemos (justamente, acrescente-se) a venerar.

É emocionante viver em nossos tempos. 

É ainda mais emocionante trabalhar com literatura nessa era de descobertas e redescobertas. 

Futuro bom é aquele que se chama presente.


Ricardo Almeida.

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