Como escrever um livro infantil

Qual o segredo de capturar a atenção de crianças para uma história?

Em primeiro lugar, é fundamental já deixar claro que gerações diferentes não são espécies diferentes. Ou seja: por mais que as crianças, hoje em dia, estejam sujeitas a um volume abundante e excessivo de informação 24 horas por dia, isso não faz delas alienígenas ou robôs. Crianças continuam sendo crianças: precisam (e gostam de) desenvolver a própria imaginação, sonham, criam mil teorias para tudo em suas cabecinhas e, acima de qualquer coisa, são hiper-criativas.

“Ah, mas com tantos tablets e games, certamente o espaço para livros despencou!”, exclamam os profetas da negatividade. Bom… eles estão errados. Muito errados.

Quebrando mitos: sim, crianças não apenas continuam lendo livros, como o fazem em muito maior intensidade que nas gerações passadas

Aliás, uma pesquisa de 2017 da Education Week revelou que crianças (do pre aos 12 anos) não apenas estão lendo mais, mas 65% preferem impressos a ebooks. Se deixarmos os fatalismos de lado e pararmos para pensar (e observar), isso faz total sentido:

  1. Para quem nasceu na era digital, o meio importa pouco – desde que a história seja contada. Isso significa que o fascínio pela tecnologia está muito mais nos adultos do que nas crianças, que já nasceram em um mundo eletrônico.
  2. Do ponto de vista de storytelling, de narrativa, um livro permite se atiçar muito mais a imaginação do que um ebook interativo, um game ou mesmo uma animação. O motivo? Enquanto, em um game, a criança se concentra em descobrir onde ela precisa clicar e, em uma animação, ela recebe os personagens já imaginados por vozes, trilhas sonoras e tons, no livro é ela quem precisa contribuir com a sua imaginação para interpretar a história.
  3. O volume de estímulo à leitura para crianças é, hoje, muito – mas MUITO – maior do que nas décadas de 70, 80 ou 90. Ou alguém se recorda de tantas livrarias com espaços lúdicos inteiramente dedicados a crianças, permitindo que elas tomem intimidade com os livros ao folheá-los e manuseá-los livremente?
  4. A própria sociedade, por fim, tem incentivado cada vez mais a leitura para crianças – incluindo hábitos dos pais de lerem para seus filhos antes destes irem para a cama. A mesma pesquisa da Education Week revelou que 62% dos pais de crianças de 3 a 5 anos lêem livros para elas (contra 55% em 2014).
  5. Para nós, latinoamericanos que costumávamos “importar” a cultura produzida fora das nossas fronteiras, esses números tendem a ser ainda mais intensos. Afinal, uma coisa é uma criança baiana, para ficar apenas em um exemplo, se identificar com uma sereia ruiva chamada Ariel que vive no Atlântico Norte; outra é ela se identificar com uma sereia chamada Janaína que vive nas águas da Baía de Todos os Santos. E, na medida em que produzir livros ficou mais barato para toda a cadeia, histórias muito mais próximas da realidade das crianças foram sendo disponibilizadas, ajudando a transformar de maneira importantíssima toda uma legião de novos leitores.

Enfim… esses são apenas cinco pontos que nos ajudam a entender que, ao contrário do que costuma pregar a sempre pessimista futurologização, crianças gostam sim de livros e estão lendo cada vez mais. Mas isso significa que basta escrever e pronto?

Não. Da mesma maneira que o incentivo à leitura cresceu, a oferta de títulos também se avolumou, o que significa que a competição entre os livros infantis saltou de maneira exorbitante. E é aqui que entra a capacidade do autor em trabalhar melhor o seu livro. Como?

Como escrever livros infantis?

Como em toda produção artística, não há uma receita de bolo que funcione em todos os casos. Mas há, sim, algumas melhores práticas que devem sempre ser observadas para garantir uma maior aderência da história para a imaginação da criança.

1. Leia livros infantis

Esse talvez seja o primeiro ponto: a melhor maneira de escrever um livro para crianças é partindo de um entendimento claro do que elas gostam de ler. Vá a uma livraria, converse com os vendedores, folheie os títulos que mais saem. Compre alguns, leve para casa, analise cada obra minuciosamente. Como é a relação texto x imagem? Quantos conflitos há no enredo? Como é a fluidez da história? Cada ponto aqui conta – e muito.

2. Saiba com quem você está falando

Não existe uma grande massa uniforme chamada “criança”. Se você estiver falando com crianças de 2 a 4 anos, por exemplo, deve entender que estão na pre-alfabetização e ainda desenvolvendo a capacidade de concentração. Histórias densas demais, com tramas muito complexas e poucas ilustrações dificilmente as conquistarão. Crianças de 5 a 6 anos, por sua vez, já estão entrando na alfabetização e o reconhecimento de letras é importantíssimo (motivo pelo qual, por exemplo, o texto deve preferencialmente ser todo escrito em caixa alta, já que é assim que elas aprendem a ler na escola). E, na medida em que as crianças vão envelhecendo, a necessidade de ilustrações cai e a necessidade de tramas mais complexas, identificáveis com os seus cotidianos, cresce.

3. Entenda que a forma importa tanto quanto o conteúdo

Para crianças, um livro não é a história contida nas páginas: é o conjunto inteiro da obra (incluindo capa, ilustrações etc.). Tudo precisa chamar atenção, ser cativante, seduzir, envolver. Aliás, é sempre útil encarar um livro como uma espécie de brinquedo: ele tem o seu propósito, mas para ganhar e prender a atenção do público precisa ser bem acabado, ter qualidade plástica. Em outras palavras: de nada adianta escrever um texto fenomenal para crianças de 3 anos se ela não tiver ilustrações bem feitas que ajudem-na a entender o universo que está sendo narrado. Histórias infantis não são escritas: são criadas por um conjunto de elementos que incluem tanto texto quanto ilustração.

4) Estruturas são fundamentais

Qualquer que seja o enredo, uma estrutura sólida é importante para que a criança se sinta confortável com a narrativa. Ou seja: há a necessidade de um personagem principal com quem ela se identifique facilmente; de personagens secundários que a ajudem a caminhar pela história; de conflitos ou problemas que precisam ser solucionados; de sustos ou surpresas que ajudem a manter as suas atenções presas, ansiosas pelo que estiver por vir.

5) Cuidado com lições de moral

Era comum imaginarmos que todo livro infantil deveria vir com alguma lição de moral embutida. Bom… até certo ponto, isso pode funcionar com crianças menores… mas, na medida em que elas crescem, a própria existência de moralismos pode acabar tendo o efeito contrário e afastando os pequenos leitores. Livros não são aulas de certo e errado: são maneiras do próprio indivíduo se entender e formar a sua visão sobre o mundo ao seu redor. Se esse indivíduo não se sentir livre para formar sua opinião por meio da sua imaginação, para interpretar a história sem que ela seja entregue de maneira “enlatada”, ele acabará se cansando e perdendo o interesse. Mais do que para adultos, para crianças a leitura deve ser uma fonte primária de prazer, não de lição.

6) Crie conexão

Este ponto talvez seja o mais importante de todos. Quanto mais a criança conseguir se enxergar na história ou nos personagens, mais ela se interessará. E “se enxergar” aqui inclui tudo: o local em que a história se passar, a fisionomia dos personagens, as realidades em torno delas, as tramas que precisam ser vencidas etc. Da mesma forma que na vida real, conexão gera empatia.

7) Publique seu livro

Já comentamos, acima, que crianças preferem livros impressos a ebooks. Vamos até além disso: enquanto é relativamente fácil ler um livro impresso para um filho ou uma filha na cama, fazer isso com um tablet é virtualmente impossível uma vez que ele ou ela quererá tocar, arrastar, brincar com a tela (ao invés de prestar atenção ao enredo). Assim sendo, publicar o livro em formato impresso é simplesmente fundamental. Como fazer isso? Simples: vá ao Clube de Autores e publique gratuitamente, dando preferência ao formato quadrado de livros que é ideal para o público infantil. Temos este post aqui no blog, aliás, que explica em mais detalhes como fazer para publicar um livro – incluindo desde dicas importantes (como encontrar um leitor crítico) até pequenas e fundamentais burocracias (como registrar o ISBN). O ISBN, aliás, é fundamental para que seu livro seja vendido não apenas no site do Clube de Autores, como também em todas as livrarias com as quais temos parceria como Cultura, Amazon, Estante Virtual etc. Se precisar de mais detalhes sobre como registrar o ISBN, recomendamos este post aqui. Se quiser um manual sobre como publicar o seu livro no Clube de Autores gratuitamente, veja este guia aqui.

8) Crie eventos

Lançar um livro – principalmente para um público infantil – vai muito além de produzir um material. Aqui, o evento de lançamento é importantíssimo por funcionar como um pontapé inicial da obra. Organize um lançamento diferente, incluindo rodas de leitura com horário marcado e em períodos que funcionem para que pais e mães levem seus pequenos. Não pare em um evento, aliás: negocie com livrarias, escolas ou de outros locais feitos para crianças um calendário em que você possa ler para o público e, ao mesmo tempo, deixar seu livro à venda. Em geral, todos esses lugares costumam ser acessíveis pois você estará oferecendo a eles um atrativo a mais para seus públicos. Temos um outro manual aqui, focado em divulgação de livros, que também pode ser útil.

9) Tenha algum estoque contigo – sempre

Hoje, é cada vez mais comum que leitores procurem os próprios autores para comprar seus livros. Não é fundamental que você tenha um estoque próprio contigo – mas é recomendável. Dê uma olhada no Programa de Gestão Colaborada do Clube de Autores: você poderá adquirir seus exemplares a custos bem mais baixos e ainda garantir uma pronta distribuição em todo o país.

10) Não pare no primeiro título

Por serem curtos, livros infantis costumam ser lidos em uma tacada só. Como fazer para se consolidar como um autor de livros infantis? Siga o exemplo dos grandes mestres: mantenha uma produção sempre fértil. Quanto mais escrever, mais o público se identificará com seu estilo e mais fácil será você conquistar seu lugar ao sol.

É isso?

Além dessas dicas, há outros pontos que devem ser observados – alguns dos quais podem ser conferidos aqui e que servem tanto para livros infantis quanto adultos. Mas, de todos, o mais importante é: comece. Escreva seu primeiro livro, publique, teste-o com as crianças que estiverem mais próximas.

O público infantil costuma ser difícil, exigente e extremamente sincero: aprenda com isso e use cada retorno que tiver como insumo para construir e consolidar a sua carreira.

 

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Tempo Mágico, Tempo de Namoros disponível em audiobook!

Não saberia dizer, exatamente, em que momento uma criança deixa de ser criança e ingressa no burocrático cotidiano adulto. Talvez fosse fácil apontar uma idade lá pelos idos do século XIX, quando o internatos, lavouras mais áridas ou serviços militares catapultavam a ingenuidade para o meio de uma guerra de hormônios, egos e forças.

Hoje não é mais assim. Hoje, a correria pelo crescimento e por uma maturidade forçada é tamanha que a vontade se sobrepõe à idade, criando uma camada cinza na adolescência onde as descobertas são banhadas com crises tensões maiores do que se imaginava.

Não temos como gerar uma conversa entre um adolescente de hoje e um do século XIX, infelizmente. Mas temos, por certo, como forjar um encontro entre uma jovem dos nossos dias e uma de algumas décadas atrás.

Como? Esse é o pano de fundo de Tempo Mágico, Tempo de Namoros (outra vez!), escrito pela premiada Anna Cláudia Ramos e disponível aqui no Clube de Autores. Com um bônus: na semana passada, o livro foi disponibilizado pela UBook em formato de áudio, empregando uma maneira “nova” de se “ler” livros.

Dado que a obra aborda justamente um choque de gerações, nada mais perfeito.

E nenhuma recomendação poderia ser melhor, portanto, para o dia de hoje – Dia das Crianças. Recomendação principalmente para os pais, acrescento – aqueles que em breve começarão a sentir os efeitos da adolescência dentro de suas casas.

Assim, se quiser conhecer melhor esse brilhante livro e se aventurar, escolha a versão ideal abaixo e bom Dia das Crianças!

Para versão impressa ou ebook, clique aqui.

Para versão em audiolivro, clique aqui.

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Como ensinar uma criança a amar livros

Desde que virei pai, há quase exatos 5 anos, venho me perguntando qual é a maneira perfeita de se ensinar o amor pela literatura para a minha filha.

Quando eu era pequeno, aprendi que há milagres em cada livro em rodas de histórias contadas por uma velha bibliotecária em minha escola. À época, aquela uma hora duas vezes por semana era a única, praticamente, que me empurrava para fora da realidade e para universos feitos de fantasias.

Hoje, claro, o mundo é bem diferente – e tentar forçar métodos de ontem para crianças de hoje dificilmente dará algum resultado.

Abro aqui um parêntese: há os saudosistas incuráveis, aqueles que crêem que se crianças não jogarem gude ou se cederem às seduções da Internet e do vídeo-game estarão invariavelmente fadadas a um futuro sombrio e solitário. Não me incluo entre esses. Ao contrário: sempre acreditei que a maneira mais saudável de criar filhos é justamente contextualizar os valores que queremos que eles tenham na realidade que os cerca. Eliminar os impulsos da era da informação é, para mim, o mesmo que formar um ser do século XIX para, no futuro, inadvertidamente catapultá-lo para o século XXI – uma receita que dificilmente dará resultados positivos.

Mas isso é outro assunto. Por hora, voltemos ao mundo das histórias para crianças.

Crianças hoje não vivem mais naquele obscurantismo praticamente medieval que cercava a humanidade até poucas décadas atrás. Sim: a mesma roda de histórias que me encantava quando eu tinha 5 ou 6 anos encanta também a minha filha em sua escola hoje – mas de forma diferente.

Na minha infância, a história do João, do Pedro ou da Maria eram a história do João, do Pedro ou da Maria. Ou seja: havia uma linha nítida que separava fantasia de realidade, uma linha tão inquestionável que ela tinha data e hora para se materializar.

Hoje, os gatilhos para fantasias são tantos que as linhas se atenuaram. Hoje, há como mergulhar em milhares de desenhos 24 horas por dia, há como se escolher dentre uma infinidade de opções as brincadeiras desejadas e há como se misturar fantasia com realidade a qualquer instante.

Se eu tiver que isolar uma diferença entre os universos infantis da década de 80 e de hoje, afinal, eu diria que é essa:  há tanta fantasia cercando crianças hoje, e de maneira tão intensamente sob demanda, que pode-se dizer que a dificuldade não está em fazê-las amar a literatura e sim em fazê-las se aprofundar mais em cada história.

Explico-me melhor: no longínquo passado de décadas atrás, as opções eram tão parcas que, para melhor aproveitar o tempo, as crianças acabavam buscando toda uma densa intimidade com os poucos personagens infantis à disposição.

Hoje não há apenas Pedrinho e Narizinho, João e o Pé de Feijão e esses seres de antigamente: há Peppas, Lunas, Mashas e todo um universo Pollys com vida própria que surgem e desaparecem nos labirintos do Youtube. Há tantas histórias e personagens que a possibilidade de uma criança se aprofundar em uma delas, colhendo os ensinamentos que sempre moram em suas páginas, é cada vez mais difícil. Em outras palavras: a superfície é tão sedutora, imensa e bela que mergulhos aprofundados acabam se fazendo raros. Raríssimos.

Voltemos, pois, à pergunta que abriu este post: como ensinar o amor à literatura para crianças?

Arrisco uma resposta apegando-me ao puro e inegável empirismo: emprestando à literatura um pouco do universo real da criança e usando este universo como maneira de seduzi-la para as profundezas de cada livro.

Sim, pode-se contar a história de uma avó maluca que amava fazer doideiras com a neta (sendo esta uma das histórias preferidas da minha filha). Mas e se a avó tivesse o mesmo nome da avó real – ou se a neta tivesse o mesmo nome da criança? E se, em uma história envolvendo um grande grupo de crianças, muitas tivessem os nomes de colegas reais?

Faça esse teste em casa.

Eu fiz. O resultado foi impressionante: de repente, aquele momento com o livro aberto passou a se diferenciar de todos: foi o único em que realidade e fantasia se mesclaram não apenas na imaginação, mas também nas páginas de um livro.

Foi, também, o momento em que os olhos da minha filha mais ficaram esbugalhados, que a atenção mais ficou extremada e que a curiosidade mais foi aguçada.

Em minha mente, o amor pela literatura se mede por esses três elementos: o estado dos olhos, da atenção e da curiosidade. Se todos permanecerem em estado de pura adrenalina é porque a receita está funcionando.

Em minha mente, isso também é um indicativo importantíssimo: significa que a maneira de se formar os leitores do futuro parte de uma mudança radical na maneira que concebemos as histórias. Hoje, os personagens precisam ser as próprias crianças em uma mescla de realidade com ficção singular ao ponto de fazê-las sentir, e não apenas ouvir, cada frase proferida em uma narrativa.

Dad and two kids reading

 

 

 

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