Somos mais vanguarda do que o que imaginamos ser

Esse não é um post de autoelogio. Ou talvez seja um pouco… embora se estenda para todos nós, autores do Clube.

Compromissos pessoais me trouxeram para a Itália essa semana.

Estou aqui, na terra de Dante e de Calvino, no berço do renascimento, na origem principal, para ficar em apenas um exemplo, do nosso próprio idioma.

Decidi pesquisar o mercado editorial local.

Sabe o que encontrei?

O mesmo que se encontraria aí no Brasil na década passada.

E isso não se resume à Itália: Reino Unido, Alemanha, França, Bélgica e a imensa maioria dos países europeus estão recheados de escritores e livros sem porta alguma para se mostrar ao mundo. Não há um Clube de Autores lá, um site em que publicar passou a ser gratuito para autores e que, portanto, abriu portas que nem sequer se imaginava existentes.

Verdade seja dita, há algo como o Clube apenas nos Estados Unidos e, em menor escala, na Espanha.

Ainda assim, nenhum deles – CreateSpace ou Lulu, nos EUA, ou Bubok, na Espanha – tem uma distribuição minimamente semelhante à que conseguimos viabilizar daqui, incluindo lojas como Estante Virtual, Submarino, Amazon e tantas outras que estão prestes a se tornar realidade.

Às vezes nos habituamos tanto a considerar o Brasil atrasado que nos esquecemos de olhar ao redor para saber se isso é mesmo tão verdadeiro assim.

No caso de autopublicação, decididamente não é.

No caso do mercado editorial, aliás, somos muito mais vanguarda global do que imaginamos ser.

OK… não era a intenção, mas esse post realmente virou um autoelogio.

Peço desculpas :-)

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A imortalidade fundamental dos livros

Há quem diga que livros são apenas um compilado de páginas encadernadas em papel ou bits. Discordo.

Sim, sei que uma história pode ser contada em um TumblR, em um post no Facebook, em um muro. Ainda assim, é diferente.

Há uma espécie de rito, de cerimônia, inclusa no ato de se publicar um livro. É como se o autor, ao efetivamente publicar uma obra, ecoasse as palavras que Michaelangelo disse para sua escultura de Moisés no instante em que a concluiu: “Levanta-te e anda!”.

Que outras palavras caberiam ali, no êxtase daquele momento, afinal?

Ao ser finalizada, a escultura não mais pertencia ao escultor: já tinha vida própria, já suscitaria olhares e suspiros de quem quer que se deparasse com ela, já assumiria um papel único no imaginário de cada um que a visitasse. O escultor continuaria esculpindo outros trabalhos, claro, até morrer dentro da brevidade que o Tempo garante a todos nós; sua obra, no entanto, seguiria encantando gerações, tão imortal quanto imutável a partir do instante em que foi por ele finalizada, revelada.

É o mesmo que ocorre com livros.

Saramago já se foi; o Ensaio sobre a Cegueira permanecesse como um clássico imperdível da literatura mundial. Chinua Achebe deixou o mundo em 2013; Things Fall Apart, que ainda carece de uma tradução para português, certamente sobreviverá por séculos como a mais hipnótica versão africana das tragédias shakespearianas. Não sei por onde anda Carlos Moreira; mas Tetralogia do Nada, publicada aqui no Clube, já causou e seguirá causando impactos no mínimo tectônicos nas mentes de seus leitores.

Livros são diferentes de outras formas de escrita por serem as lápides das próprias histórias que encerram.

Posts podem ser alterados a qualquer momento; histórias orais podem ser mudadas ao sabor do hálito do narrador; e mesmo o teatro pode ser entendido de acordo com as entonações dadas por cada diretor ou companhia. Toda e qualquer história não publicada em um livro é viva, orgânica, sujeita a ondas infinitas de refações. Não há nada de errado com isso, claro: cada arte tem o seu propósito.

Mas é que é apenas quando uma história encontra seu fim criativo em um livro, quando é efetivamente encapada, diagramada, revisada e distribuída, que seu ciclo pode ser dado como completo. É apenas nesse instante, quando suas palavras passam a ser imutáveis, que ela deixa de pertencer ao autor e passa a pertencer à humanidade.

 

E a humanidade precisa de presentes assim para evoluir um pouco mais.

Contribuamos, nós que somos autores, com os nossos livros.

 

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A liberdade está matando a arte?

Tenho para mim que a arte é filha direta da repressão com a censura.

O Renascimento, por exemplo, só existiu depois que a peste bubônica devastou meia Europa e convenceu o mundo de que viver em uma submissão literal aos mandamentos cristãos não estaria, enfim, agradando tanto a Deus. Ainda assim, mesmo nessa época mais negra da humanidade, Dante cunhava sua Divina Comédia repleta de críticas ricamente entranhadas em metáforas político-religiosas e Giotto revolucionava as artes visuais pintando o que acreditava disfarçado de ingênuos temas religiosos.

A arte pré-renascentista era pura resistência sutil feita por heróis geniais.

Tudo mudou no Renascimento? Mais ou menos. Não dá para dizer, afinal, que não havia censura em tempos que fogueiras queimavam pessoas como se fossem churrasquinhos de final de semana.

Como burlar a censura que punia de morte o livre-pensar?

Metaforizando-o.

Tome como exemplo o teto da Capela Cistina, encomendado a Michelangelo pelo Papa Júlio II. Uma ode ao cristianismo? Certamente, como não poderia deixar de ser em uma obra encomendada pelo Vaticano. Mas, ao mesmo tempo, um conjunto imenso de sutis (porém ferozes) críticas à decadência da igreja e do pontífice, este último detestado pelo artista.

 

Siga com o tempo e atravesse as artes. Vá para a literatura.

 

Há como negar a riqueza de símbolos e metáforas em Dom Quixote, até hoje um dos livros mais vendidos do mundo?

E nas descrições feitas do nosso Brasil pelos primeiros europeus sob o constante olhar vigilante dos seus monarcas?

E no modernismo? Há como negar as tantas incontáveis simbologias em Macunaíma?

Atravessamos colonialismo, impérios e ditaduras aqui pelas nossas bandas. Nossa arma para contestar tanta repressão?

A arte. A mesma arte que, ao disfarçar protestos de beleza, imortalizava suas histórias enquanto criticava o mundo a seu redor.

Se a arte é a maneira mais livre de se expressar, então os simbolismos e as metáforas foram suas maiores aliadas em tempos de censura e perseguição. Mais que isso: sem recorrer aos simbolismos, o teto da Capela Cistina não passaria de um teto qualquer e Dom Quixote seria apenas um relato realista comparável a uma novela das nove.

Avancemos, agora, aos nossos tempos.

Sim, temos (e sempre teremos) muito do que reclamar e exigir dos nossos líderes, sejam eles eleitos ou não – mas não temos como reclamar de falta de liberdade. Hoje, podemos tudo: não somos queimados na fogueira por criticar o Papa, não somos presos e torturados por exigir a prisão de líderes políticos, não “desaparecemos” ao nos tornarmos politicamente inconvenientes.

Isso significa que podemos ser diretos em nossos pleitos, podemos falar o que pensamos sem recorrer a disfarces mais elegantes para esconder nossas reais intenções. A liberdade, a mesma liberdade pela qual tanto lutamos nos últimos milênios, venceu! Uma felicidade indiscutível para a humanidade, claro… mas talvez uma tristeza para a produção artística como um todo.

Para quê, afinal, dedicar anos cuidadosamente maquiando mensagens em livros e afrescos se basta postar um protesto qualquer diretamente no Facebook sem medo de repressão?

Para quê metaforizar, correndo o risco de perder o entendimento de boa parcela do público, se basta apontar e gritar a pulmão aberto?

Para quê fazer arte se o caminho mais curto para a mudança, hoje, é mostrar a própria realidade desnuda?

 

Por outro lado, qual a graça de se retratar a realidade que todos já vemos da forma que todos já enxergamos?

Há valor artístico na obviedade?

Temo que estejamos testemunhando, em nossos ricos tempos, a morte da arte.

Espero estar errado.

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Sejamos todos melhores oportunistas

Tolstoi considerava que não existia, na história da humanidade, nenhuma única figura capaz de, isoladamente, mudar os rumos do mundo. Ao contrário: em sua obra prima, Guerra e Paz, ele desenhou Napoleão como um oportunista que conseguiu identificar uma espécie de “corrente de pensamento” entre seus pares, pintar-se como o capitão de uma nau feita para navegar rapidamente por essa corrente e, assim, mudar os destinos da França, da Europa e do mundo.

Poder, segundo Tostoi, não é fruto de um ato de heroísmo isolado – é a capacidade de identificar a vontade popular e de criar argumentos e justificativas para colar a sua imagem a ela.

Tentemos, no entanto, tirar a camada política do pensamento desse que foi, provavelmente, um dos maiores gênios da literatura que o mundo já viu. Observemos o quadro mais de perto.

Cada gesto que tomamos em nosso cotidiano, cada decisão rumo ao nosso futuro, é tanto consequência quanto causa de algo.

É consequência porque, obviamente, qualquer decisão é fruto de uma série de fatores que nos levaram a considerar um caminho em detrimento de outro. Ninguém escolhe escrever um livro, por exemplo, sem antes ter, ainda que flutuando no inconsciente, alguma história fruto de toda uma gama de experiências de vida acumuladas.

Esse mesmo livro, consequência das experiências do autor, é também causa pelo simples fato de que histórias mudam vidas. O simples ato de publicar um livro, aliás, encerra um capítulo emocional em nossas vidas e nos deixa preparados para enfrentar outros tantos. Nos faz crescer, abre algumas portas, fecha outras, aponta caminhos que pareciam inexistentes. E não são causa apenas para nós: um autor muda a vida de cada leitor que devora as páginas que escreveu, forçando sinapses que não existiriam sem os seus parágrafos e encurtando (ou mesmo abrindo) caminhos para decisões.

Ou seja: um livro é consequência das experiências de vida do autor e causa para novas experiências do mesmo autor e de seus leitores.

Um livro coloca, com todas as suas palavras, nomes e enredos a correntes de pensamento. Um livro dá nortes. Um livro dá um tipo de poder inimaginável ao impactar diretamente a vida de pessoas que, a partir daí, tomarão decisões que podem mudar os seus destinos e os de todos em sua volta.

E o que fazemos nesse infinito ciclo de causa e consequência? Vivemos. Ou melhor: nos deixamos levar pela vida.

Voltemos a Tolstoi e ao oportunismo dos heróis.

Quanto mais um livro conseguir captar as correntes de pensamento inconscientes da humanidade, ainda que colecionando sutilezas, maior o seu potencial de público e, consequentemente, de sucesso. Quanto mais ele se transformar em consequência dos tempos em que foi gerado, mais ele tenderá a causar mudanças sociais, das mais óbvias às mais intangíveis.

Mas não é só uma boa história que faz um livro de sucesso. Há a questão do autor conseguir identificar bem as oportunidades, as pessoas, os momentos; há a fundamental questão dele saber lidar com cada situação de maneira a tirar o melhor proveito possível e, com isso, aproveitar oportunidades que não existiam há minutos, há segundos.

Isso é oportunismo – no bom sentido. É deixar-se levar por uma espécie de força de gravidade social ao invés de brigar contra ela; é tentar beber o máximo possível das correntes de pensamento em vigor para devolver ao mundo visões autênticas do que todo mundo já pensa, mas não sabe colocar em palavras.

Napoleão foi o grande oportunista de Guerra e Paz, claro. Mas o próprio Tolstoi foi um oportunista perfeito ao identificar o cenário ideal na Rússia do meio do século XIX para escrever a história ideal. Sagrou-se um autor-herói, por assim dizer.

Assim como outros tantos fizeram mundo afora: Machado de Assis, Saramago, Murakami, Achebe, García Marquez, Hemingway – para ficar apenas em uma meia dúzia.

Genialidade real não está em criar nada de novo: está em perceber as oportunidades perfeitas para colocar o óbvio em palavras, apresentando-se como criador supremo de ideais que, embora inomináveis, já sejam quase universalmente conhecidos e compartilhados.

Que consigamos todos aprender o oportunismo dos heróis.

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O Museu da Língua Portuguesa é dos novos poetas!

Tem alguma coisa programada para os próximos dias? Caso contrário – e se estiver pelas ruas de São Paulo – indicamos um programa perfeito: uma visita ao Museu da Língua Portuguesa.

Sempre considerei esse museu como uma espécie de lar do nosso belíssimo idioma, mas a exposição que eles organizaram e que está aberta desde o último dia 23 o fez crescer ainda mais em relevância. Sendo direto: as suas portas foram abertas para 500 poetas, inclusive (e principalmente) os independentes como, mostrando como se tem construído arte a partir do português.

Para facilitar, colarei o release inteiro do evento aqui no post – mas já reforço a indicação para que quem puder, programe uma visita urgente!

O Museu da Língua Portuguesa, Instituição da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, que já foi palco de exposições de nomes consagrados da Literatura, como Clarice Lispector, Machado de Assis e Guimarães Rosa, abre suas portas para receber quase 500 poetas. De autores célebres aos ainda não publicados, eles estarão na Exposição Poesia Agora, que será inaugurada oficialmente no dia 22 de junho – com abertura ao público no dia seguinte.

“É a primeira vez que abrimos espaço para autores talentosos e geniais, mas ainda não consagrados. Assim, o Museu se aproxima de uma produção poética e literária contemporânea, produzida pelas ruas das cidades, onde a nossa língua evolui e se transforma”, afirma Antonio Carlos Sartini, Diretor do Museu da Língua Portuguesa.

Com patrocínio dos Correios, realização da Secretaria de Estado da Cultura e do IDBrasil Cultura, Educação e Esporte, que administra o Museu da Língua Portuguesa, Poesia Agora tem curadoria do escritor e editor literário Lucas Viriato, coordenação artística de Domingos Guimaraens e Yassu Noguchi, e cenografia assinada por André Cortez.

“É muito significativo que o Museu da Língua Portuguesa abra uma exposição voltada à produção contemporânea. Com sua abordagem sempre voltada a promover novas experiências e vivências aos visitantes, o Museu tem o potencial de cativar o público para a poesia da atualidade, aproximando-o da linguagem e dos novos autores de uma forma única”, afirma o secretário de Estado da Cultura, Marcelo Mattos Araujo.

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA

Endereço: Praça da Luz s/n; tel.: (11) 3322-0080

Horário: de terça a domingo, das 10h às 18h (a bilheteria fecha às 17h). Fechado às segundas. Ingressos: R$ 6 e R$ 3 (meia entrada), com entrada gratuita aos sábados.

Site: http://www.museudalinguaportuguesa.org.br/noticias_interna.php?id_noticia=457

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