11 livros de “países de merda”

Caso vocês queiram beber um pouco da riquíssima cultura dos países que o [complete com seu palavrão preferido] Trump chamou de “shithole” (e que me permitirei aqui traduzir como “países de merda”), o ElectricLit publicou a seguinte lista (que compartilho abaixo).

Infelizmente, a maioria dos títulos está disponível apenas em inglês – mas, se puder e conseguir, vale MUITO a pena debruçar-se sobre eles.

  1. The Art of Death, de Edwidge Danticat (Haiti)
  2. Aqui estão os sonhadores, de Imbolo Mbue (Camarões)
  3. Americanah, de Chimamanda Ngozie Adichie (Nigéria)
  4. Carrying knowledge up a palm tree, de Taban Io Lyong (Uganda)
  5. O Caminho de Casa, de Yaa Gyasi (Gana)
  6. Precisamos de novos nomes, de NoViolet Bulawayo (Zimbabwe)
  7. Teaching my mother how to give birth, de Warsan Shire (Somália)
  8. Under the Udala Trees, de Chinelo Okparanta (Nigéria)
  9. Asco, de Horacio Castellanos Moya (El Salvador)
  10. Concerto Al-Quds, de Adonis (Síria)
  11. Kintu, de Jennifer NAnsubuga Makumbi (Uganda)

Leia Mais

A revolução mundial que está acompanhando Trump

Há quem diga que Trump é problema dos Estados Unidos, que aqui temos coisas mais urgentes com as quais nos preocupar como, por exemplo, a Lava-Jato e toda essa corja política que insistimos em eleger e reeleger. 

Não nego que, entre a Casa Branca e o Planalto, as ações do segundo realmente trazem consequências muito mais imediatas para nós, brasileiros. Mas também não há como negar que, uma vez que vivemos em um mundo globalizado, o que acontece no país economicamente mais poderoso do mundo costuma ter impactos tremendos aqui. 

Basta olhar à nossa volta: nós nos locomovemos nas ruas com automóveis que foram, na prática, inventados por americanos; assistimos a séries e filmes majoritariamente americanos; e nos comunicamos via Internet – uma nuvem que, assustadoramente, “pertence” fisicamente a eles uma vez que é lá que ficam os servidores que coordenam todo o tráfego online do mundo. 

Se tudo o que acontece dentro das nossas fronteiras tem o potencial de afetar diretamente as vidas dos brasileiros, o que acontece nos EUA afeta não apenas os seus próprios cidadãos, mas sim todo o planeta.

E há um exemplo claro disso: o discurso inflamado do ex-presidente Lula durante a campanha de reeleição de Dilma Rousseff pregando a mística do “nós versus eles” e bradando que “os ricos não querem os pobres no poder porque não gostam de compartilhar com eles os assentos em aviões”. Foi com esse discurso que o governo conseguiu os votos necessários para se manter no poder – mas foi também com ele que acendeu o pavio emocional de quase metade dos eleitores, pondo em movimento toda uma cadeia de acontecimentos que culminou com o impeachment e com um dos mais dramáticos momentos do nosso país. 

O impeachment mudou o Brasil? É óbvio que sim. Mas ele mudou o restante do mundo? Muito pouco. Nós, infelizmente, ainda não somos tão relevantes no cenário global quanto gostaríamos. 

Os EUA, no entanto, são – e Trump parece estar repetindo lá, com precisão, os mesmos passos que o PT deu no Brasil. “Nós contra eles”? Que tal construir um muro para isolar o México ou vetar a entrada de muçulmanos de 7 países no seu? Há versão mais anabilizada da cisão de povos que essa?

Se vitimizar quando entidades da sociedade torcem o nariz para suas propostas e ações? Que tal acusar de comprados ou mesmo de burros todos os juízes e entidades que discordarem dele? 

Chamar a mídia de golpista? Que tal espalhar, oficialmente, que todo veículo de comunicação que discordar dele é desonesto e que mente descaradamente? 

Confundir patrimônio público com privado? Alguma dúvida sobre o questionamento ético do Trump usar o Twitter da presidência dos EUA para atacar uma loja que decidiu parar de vender produtos da sua filha? 

Não sou nenhum analista político, mas me parece claro que Trump está seguindo os mesmos passos que Dilma e buscando se manter no poder a partir de uma estratégia de criar divisões e preconceitos. Se o resultado do lado de lá for igual ao de cá, ele dificilmente terminará o mandato. 

E acreditem: isso afetará o mundo inteiro como um tsunami. 

Somos criaturas da dualidade – dependemos de conflitos para criar as nossas próprias histórias e tirar conclusões que, com alguma sorte, nos façam evoluir. E dualidades, conflitos, são a base para qualquer boa história que se escreva. Conflitos são a inspiração, a musa dos escritores e artistas. 

Pois bem: se a eleição do Trump fez subir ao mais alto posto do poder mundial um fascista mimado incapaz de entender que não é Deus em pessoa, ela também evidenciou um movimento anti-conservadorismo e pro-liberdade e união dos povos como em nenhuma outra era. Essas duas forças, que estão apenas esquentando seus motores, devem se enfrentar de maneira contundente e explosiva nos próximos anos. 

Nós, aqui no mundo real, estamos prestes a participar ativamente de uma das maiores revoluções ideológicas que a humanidade já testemunhou ao menos desde a Revolução Francesa. Ganhará a ideologia da divisão ou da união? O preconceito ou a conciliação?

Pode ser cedo para prever, mas não para torcer: que vençamos nós, os que defendem que o mundo existe para ser um único território, e não um punhado de cidades-estados medievais. 

E tomara também que registremos essa nossa guerra em histórias incríveis para que a posteridade não repita os mesmos erros da nossa geração. 

 

Leia Mais

O muro de Trump como símbolo perfeito dos nossos tempos

Fiquei me perguntando, dia desses, o que aconteceria (ou acontecerá?) com o mundo se o Trump realmente construir o seu muro. Sim, é óbvio que isso afetará mais a relação entre México e EUA do que entre quem quer que seja… mas será também o símbolo de uma mudança dramática na história da humanidade.

Por que? Porque mudanças são simbolizadas por marcos, por manifestações físicas de pensamentos polêmicos. O muro de Berlim, ingrato antecessor da ideia de Trump, teve esse papel: ao isolar diferentes culturas, ele simbolizou diferentes enfoques culturais e políticos e gerou toda uma pletora de conflitos e histórias. Símbolos e muros são como o pontapé inicial de uma dialética hegeliana: há a tese, cria-se uma antítese fisicamente separada dela e, depois de muita filosofia sobre divisões e uniões, chega-se em uma síntese nova.

Como humanidade, ficamos na ingrata posição de perder no curto prazo (uma vez que cismas entre povos dificilmente trazem benefícios) e de ganhar no longo prazo (uma vez que experiências, inclusive as malfadadas como creio que será a do muro, tendem a ampliar o nosso conhecimento sobre nós mesmos).

Mas o mais curioso é que símbolos, quando tangibilizados, servem apenas para oficializar pensamentos que já são generalizados. Olhe para o mundo distante: Brexit, polêmicas em torno dos imigrantes muçulmanos, fanatismo religioso, Estado Islâmico. Todos esses movimentos são fruto de uma crescente intenção de povos se juntarem em comunidades que pensem de maneira semelhante para se isolarem do resto do mundo (a quem condenam aos brados).

Olhe para o mundo próximo: as eleições para presidência no Brasil, vencidas por Dilma Rousseff, foram marcadas por discursos do ex-presidente Lula pregando o “nós contra eles” e posicionando o seu eleitorado como inimigo do “outro Brasil”, o “Brasil das elites”. Dilma pode ter sofrido o impeachment pouco tempo depois (por outros motivos), mas não se pode ignorar que foi esse discurso incendiário que conquistou os votos decisivos para que ela se consagrasse vitoriosa nas urnas.

Fora das eleições, há movimentos crescentes de separatismo, por exemplo, da região sul do Brasil – um dos quais já tem até mascote e abaixo-assinado com dezenas de milhares de apoiadores.

Aliás, nem precisamos ir tão longe: olhe o seu próprio Facebook. Seja por brigas entre esquerda e direita ou entre defensores de grafite ou da limpeza urbana, o fato é que as discussões estão cada vez mais inflamadas independentemente das suas causas.

O resumo de tudo isso: a era da informação, ao invés de nos unir enquanto povo, está nos separando em comunidades de fanáticos. O muro do Trump é, repito, apenas o símbolo mais dramático de um pensamento que, com maior ou menor força, já está presente na quase totalidade das pessoas.

Nos posts que faço aqui no Clube eu costumo olhar tudo sob a ótica da produção literária – mesmo porque isso é, afinal, um blog de literatura. Farei o mesmo, então.

Kafka foi filho de uma era de ruptura de pensamento social. Machado de Assis também. Como eles, em diferentes eras de ruptura, tivemos ainda Nietzsche, Proust, Shakespeare. Tivemos muitos, muitos gênios que produziram obras primas que questionaram tudo e, ao fazer isso, nos catapultaram para níveis intelectuais cada vez mais elevados.

A que conslusões isso nos leva?

O muro do Trump e esse segregacionismo generalizado podem ser as verdadeiras portas do inferno para sociedades de todo o mundo, abrindo caminho para que a humanidade mostre o que tem de pior. Mas, por outro lado, temos tudo para crer que já estamos testemunhando, em nosso cotidiano, lançamentos de maravilhas literárias que serão verdadeiros presentes para as futuras gerações.

Histórias, afina0516trumpwall01l, não hão de faltar nesse nosso caótico mundo de sociedades fanáticas.

Leia Mais