Um olhar sobre os diferentes modelos de apps focadas em narrativas

Sabe qual o maior desafio para autores (ou editores) mergulharem no mundo das apps e criarem livros mais interativos?

Custo.

De uma maneira geral, produzir um livro interativo interessante o suficiente para ser efetivamente comprado em lojas online custa muito, muito caro. Meses de desenvolvimento intenso, em alguns casos.

Por outro lado, cobrar muito não é uma opção. Vi um estudo em Londres (cuja fonte, perdoem-me, esqueci) dizendo que uma app de R$ 9,99 é encarada como um livro de R$ 99,99. Ou seja: subir o preço para pagar os custos tem como efeito colateral praticamente zerar as vendas.

E esse, provavelmente, será o maior desafio para uma espécie de mutação de livros em apps, uma realidade que, embora muito preconizada, dificilmente decolará DE VERDADE.

Selecionei três modelos de empresas interessantes para avaliação.

O primeiro se chama Me Books (mebooks.co). De todos, é o único realmente rentável por se tratar de um estúdio focado em livros infantis e com muita, muita escala. O segredo deles é a estruturação de uma linha de montagem baseada em animações padrão para livros infantis: em média, do papel para a app (incluindo desenvolvimento, animações e gravações de vozes), um livro leva de 1 a 7 DIAS para ficar pronto. Eles vendem a valores próximos a US$ 1,99 e contam com acordos feitos com personagens da Disney e de outras empresas. As vendas unitárias são espetaculares? Não. Mas a soma do volume funciona. Para autores independentes, não chega a ser exatamente um bom negócio. aliás, não dá nem para dizer que é um negócio. Mas para a editora e para marcas com direitos de personagens como Disney e Peppa, por outro lado, é bastante lucrativo.

O segundo é a TouchPress (touchpress.com), uma empresa feita por artistas multimídia realmente incríveis. Como trabalham? Eles escolhem um tema qualquer, criam aplicativos incríveis para contar uma história e fazem um desenvolvimento tão inacreditavelmente bem acabado que rapidamente vão parar nas recomendações oficiais da Apple ou Google Play. O segredo deles é a perfeição pura que acaba atraindo a atenção das grandes varejistas de app e, por consequência, gerando divulgação. Considerando que há apps que levaram 9 meses para ficar pronta, é uma aposta arriscadíssima – mas que tem funcionado para eles.

O terceiro, finalmente, é a NosyCrow (nosycrow.com), focada em histórias infantis da mesma forma que a Me Books. A diferença aqui é que as apps também são mais artísticas e elaboradas – mas não tanto quanto as da TouchPress. Pelo papo que tive com eles, não me pareceu que a empresa se pague, exatamente, o que acaba deixando um questionamento sobre o modelo de negócios como um todo. A NosyCrow é um excelente representante de como editoras tem trabalhado o mundo das apps, buscando um desenvolvimento bem acabado mas ainda sem chegar a uma fórmula de receita sustentável. Vai funcionar? Só o futuro dirá.

Mas uma coisa que parece claro é que, ao menos para esse mercado, há duas alternativas de sucesso: qualidade ou quantidade, quase como opostos de um raciocínio de sobrevivência mercadológica.

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Interpretando as reações dos leitores em tempo real

Dentre tudo o que aconteceu na semana retrasada – incluindo ter ganho o prêmio de YCE em nome do Clube de Autores – o que mais me impressionou em Londres foi ter contato direto com alguns dos movimentos mais importantes pelos quais o mercado literário está passando. Pretendo blogar sobre isso nesses próximos dias para compartilhar um pouco do que vi – sendo que o mais “revolucionário” foi a mudança do próprio conceito de livro.

Tanto na Feira de Londres quanto nas diversas reuniões que aconteceram pela capital britânica, o que ficou mais claro é que livro não é mais definido por um punhado de páginas (ou telas) contendo letras. Na verdade, o próprio nome “livro” acabou perdendo importância por lá e cedendo espaço para experimentos mais ricos em torno de narrativas (ou “storytelling”).

Mas cuidado com fatalismos: isso não significa que o livro morreu ou nada do gênero. Significa apenas que a humanidade está achando formas inovadoras para se contar histórias, conectando-se com as novas gerações por meio das suas linguagens quase natas como drag-and-drop, interações, multimídia, multitasking etc.

E, se isso aproxima o mercado editorial ao de games e de cinema (o que pode não ser algo necessariamente positivo), também acaba apresentando ao nosso mercado tecnologias impressionantes que podem ser utilizadas (o que, com certeza, é fabuloso).

Uma dessas é de um estúdio britânico chamado Portal Entertainment. Sabe o que eles fazem?

Separam “cortes” de filmes e distribuem para a audiência, usando a câmera do IPad e um software de reconhecimento facial para “interpretar” as emoções dos usuários cena a cena. O objetivo: evitar que filmes fiquem entediantes e deixar o público sempre super atento ao que estiver vendo.

Mesmo sendo uma tecnologia mais para filmes do que para livros, não é difícil imaginar uma possível adaptação em um futuro próximo. E, com certeza, poderia ajudar muito a escritores, que teriam assim uma interpretação estatística de cada trecho de seus livros.

Achei um vídeo no Youtube com uma demonstração muito parecida do Portal Entertainment que a que vi na Inglaterra e compartilho abaixo. O único ponto negativo é que ela está em inglês – mas vale para quem souber o idioma.

 

 

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