Londres de acordo com Dickens

Na última quarta eu postei sobre uma app que permite se navegar pelo Rio com os olhos do Machado de Assis. Perfeito: uma viagem pelo tempo, na Cidade Maravilhosa, tendo como guia um dos maiores gênios da humanidade.

Mas… essa app não é exatamente inovadora, ao menos pelos padrões mundiais. Uma ideia semelhante já existe lá em Londres, onde se pode “navegar” pela cidade pelos olhos de ninguém menos que Charles Dickens e seus imortais personagens.

Esses tempos em que vivemos são absolutamente incríveis…

Quem quiser experimentar pode baixar agora mesmo: basta clicar aqui.

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Um olhar sobre os diferentes modelos de apps focadas em narrativas

Sabe qual o maior desafio para autores (ou editores) mergulharem no mundo das apps e criarem livros mais interativos?

Custo.

De uma maneira geral, produzir um livro interativo interessante o suficiente para ser efetivamente comprado em lojas online custa muito, muito caro. Meses de desenvolvimento intenso, em alguns casos.

Por outro lado, cobrar muito não é uma opção. Vi um estudo em Londres (cuja fonte, perdoem-me, esqueci) dizendo que uma app de R$ 9,99 é encarada como um livro de R$ 99,99. Ou seja: subir o preço para pagar os custos tem como efeito colateral praticamente zerar as vendas.

E esse, provavelmente, será o maior desafio para uma espécie de mutação de livros em apps, uma realidade que, embora muito preconizada, dificilmente decolará DE VERDADE.

Selecionei três modelos de empresas interessantes para avaliação.

O primeiro se chama Me Books (mebooks.co). De todos, é o único realmente rentável por se tratar de um estúdio focado em livros infantis e com muita, muita escala. O segredo deles é a estruturação de uma linha de montagem baseada em animações padrão para livros infantis: em média, do papel para a app (incluindo desenvolvimento, animações e gravações de vozes), um livro leva de 1 a 7 DIAS para ficar pronto. Eles vendem a valores próximos a US$ 1,99 e contam com acordos feitos com personagens da Disney e de outras empresas. As vendas unitárias são espetaculares? Não. Mas a soma do volume funciona. Para autores independentes, não chega a ser exatamente um bom negócio. aliás, não dá nem para dizer que é um negócio. Mas para a editora e para marcas com direitos de personagens como Disney e Peppa, por outro lado, é bastante lucrativo.

O segundo é a TouchPress (touchpress.com), uma empresa feita por artistas multimídia realmente incríveis. Como trabalham? Eles escolhem um tema qualquer, criam aplicativos incríveis para contar uma história e fazem um desenvolvimento tão inacreditavelmente bem acabado que rapidamente vão parar nas recomendações oficiais da Apple ou Google Play. O segredo deles é a perfeição pura que acaba atraindo a atenção das grandes varejistas de app e, por consequência, gerando divulgação. Considerando que há apps que levaram 9 meses para ficar pronta, é uma aposta arriscadíssima – mas que tem funcionado para eles.

O terceiro, finalmente, é a NosyCrow (nosycrow.com), focada em histórias infantis da mesma forma que a Me Books. A diferença aqui é que as apps também são mais artísticas e elaboradas – mas não tanto quanto as da TouchPress. Pelo papo que tive com eles, não me pareceu que a empresa se pague, exatamente, o que acaba deixando um questionamento sobre o modelo de negócios como um todo. A NosyCrow é um excelente representante de como editoras tem trabalhado o mundo das apps, buscando um desenvolvimento bem acabado mas ainda sem chegar a uma fórmula de receita sustentável. Vai funcionar? Só o futuro dirá.

Mas uma coisa que parece claro é que, ao menos para esse mercado, há duas alternativas de sucesso: qualidade ou quantidade, quase como opostos de um raciocínio de sobrevivência mercadológica.

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Há espaço para gigantes no #FuturoDoLivro?

Qual o futuro do livro? Nessa semana que estou aqui em Londres, um dos principais tópicos discutidos no encontro dos YCE (grupo de 6 empreendedores do mercado editorial vindos da Rússia, Africa do Sul, China, Emirados Árabes, Colômbia, Espanha e, claro, Brasil) gira em torno desse assunto.

E, já no primeiro papo que aconteceu no Groucho Club (SoHo), a conclusão já foi bem simples: todos os países estão enfrentando os mesmos tipos de problema, incluindo:

– Embates sobre livro impresso vs. livro digital (o que, sinceramente, acho uma discussão meio inútil)
– Briga por espaço para novos autores até mesmo como forma de rejuvenescer a literatura tradicional
– Briga com os “donos” do mercado editorial

Esse último ponto é importante principalmente para países como o Reino Unido e Espanha, que contam com uma dominação inacreditável do mercado pela Amazon – algo que não ocorre, ao menos com esse peso, no Brasil.

Esse é, aliás, um ponto curioso da própria dinâmica de mercados: a Amazon cresceu no mundo principalmente pela sua competência – ela conhece o leitor como ninguém mais.

Por outro lado, o gigantismo gerado pela sua competência acaba servindo como uma força política imensa usada para impedir (ou ao menos diminuir) o crescimento de outras empresas do meio. Ou seja: o sucesso no longo prazo de uma iniciativa inovadora como a Amazon parece estar preso à necessidade de dificultar, por meio de sua força política, novas iniciativas inovadoras que, por definição, existem para questionar e alterar o status quo (que ela passou a representar).

Diferentemente do passado, no entanto, novas iniciativas nunca tiveram tanta oportunidade de crescimento quanto agora devido à Internet – o próprio Clube é testemunha disso.

E as forças que, mesmo de maneira desestruturada, tem se unido contra o gigantismo de uma ou algumas poucas empresas, parecem ainda maiores do que elas.

Para onde isso aponta? Para o questionamento da própria viabilidade de iniciativas pseudo-monopolistas como a Amazon. Hoje, certamente, ela domina o mercado como ninguém mais: mas parece que o mercado está começando a reagir a essa (e a qualquer outra) forma de dominação tão clara.

Veremos as cenas dos próximos capítulos.

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(Na foto, os participantes da reunião dos YCE que acontece agora no Groucho Club).

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