Sejamos todos melhores oportunistas

Tolstoi considerava que não existia, na história da humanidade, nenhuma única figura capaz de, isoladamente, mudar os rumos do mundo. Ao contrário: em sua obra prima, Guerra e Paz, ele desenhou Napoleão como um oportunista que conseguiu identificar uma espécie de “corrente de pensamento” entre seus pares, pintar-se como o capitão de uma nau feita para navegar rapidamente por essa corrente e, assim, mudar os destinos da França, da Europa e do mundo.

Poder, segundo Tostoi, não é fruto de um ato de heroísmo isolado – é a capacidade de identificar a vontade popular e de criar argumentos e justificativas para colar a sua imagem a ela.

Tentemos, no entanto, tirar a camada política do pensamento desse que foi, provavelmente, um dos maiores gênios da literatura que o mundo já viu. Observemos o quadro mais de perto.

Cada gesto que tomamos em nosso cotidiano, cada decisão rumo ao nosso futuro, é tanto consequência quanto causa de algo.

É consequência porque, obviamente, qualquer decisão é fruto de uma série de fatores que nos levaram a considerar um caminho em detrimento de outro. Ninguém escolhe escrever um livro, por exemplo, sem antes ter, ainda que flutuando no inconsciente, alguma história fruto de toda uma gama de experiências de vida acumuladas.

Esse mesmo livro, consequência das experiências do autor, é também causa pelo simples fato de que histórias mudam vidas. O simples ato de publicar um livro, aliás, encerra um capítulo emocional em nossas vidas e nos deixa preparados para enfrentar outros tantos. Nos faz crescer, abre algumas portas, fecha outras, aponta caminhos que pareciam inexistentes. E não são causa apenas para nós: um autor muda a vida de cada leitor que devora as páginas que escreveu, forçando sinapses que não existiriam sem os seus parágrafos e encurtando (ou mesmo abrindo) caminhos para decisões.

Ou seja: um livro é consequência das experiências de vida do autor e causa para novas experiências do mesmo autor e de seus leitores.

Um livro coloca, com todas as suas palavras, nomes e enredos a correntes de pensamento. Um livro dá nortes. Um livro dá um tipo de poder inimaginável ao impactar diretamente a vida de pessoas que, a partir daí, tomarão decisões que podem mudar os seus destinos e os de todos em sua volta.

E o que fazemos nesse infinito ciclo de causa e consequência? Vivemos. Ou melhor: nos deixamos levar pela vida.

Voltemos a Tolstoi e ao oportunismo dos heróis.

Quanto mais um livro conseguir captar as correntes de pensamento inconscientes da humanidade, ainda que colecionando sutilezas, maior o seu potencial de público e, consequentemente, de sucesso. Quanto mais ele se transformar em consequência dos tempos em que foi gerado, mais ele tenderá a causar mudanças sociais, das mais óbvias às mais intangíveis.

Mas não é só uma boa história que faz um livro de sucesso. Há a questão do autor conseguir identificar bem as oportunidades, as pessoas, os momentos; há a fundamental questão dele saber lidar com cada situação de maneira a tirar o melhor proveito possível e, com isso, aproveitar oportunidades que não existiam há minutos, há segundos.

Isso é oportunismo – no bom sentido. É deixar-se levar por uma espécie de força de gravidade social ao invés de brigar contra ela; é tentar beber o máximo possível das correntes de pensamento em vigor para devolver ao mundo visões autênticas do que todo mundo já pensa, mas não sabe colocar em palavras.

Napoleão foi o grande oportunista de Guerra e Paz, claro. Mas o próprio Tolstoi foi um oportunista perfeito ao identificar o cenário ideal na Rússia do meio do século XIX para escrever a história ideal. Sagrou-se um autor-herói, por assim dizer.

Assim como outros tantos fizeram mundo afora: Machado de Assis, Saramago, Murakami, Achebe, García Marquez, Hemingway – para ficar apenas em uma meia dúzia.

Genialidade real não está em criar nada de novo: está em perceber as oportunidades perfeitas para colocar o óbvio em palavras, apresentando-se como criador supremo de ideais que, embora inomináveis, já sejam quase universalmente conhecidos e compartilhados.

Que consigamos todos aprender o oportunismo dos heróis.

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Sobre o sagrado de direito da expressão

Desde que os ataques terroristas mancharam Paris de sangue e medo, as redes sociais brasileiras tem reproduzido um outro tipo de “guerra ideológica”.

Por um lado, milhões de brasileiros mudaram seus perfis no Facebook adotando as cores da bandeira francesa em um ato de solidariedade; do outro, outros tantos milhões preferiram usar a bandeira mineira ou um símbolo da bandeira do Brasil em tons de lama. Somos um país livre: todos podemos nos comover mais com o que quisermos.

Mas, nas redes sociais, a liberdade é sempre algo relativo.

Acusados de alienados, os brasileiros que se solidarizaram com os franceses sofreram um bullying desnecessário. Disseram que eles estavam ignorando tragédias em seu próprio país, que o que acontecera em Mariana havia sido muito pior etc. Comparou-se tragédias, como se os passaportes dos cadáveres fizesse alguma diferença para a Morte.

Estes, por sua vez, replicaram. Disseram que o fato de protestarem contra o terrorismo na Europa em nada tinha a ver com as acusações de apatia em relação ao caso da Samarco. Disseram que, em que pese a responsabilidade da mineradora, a tragédia ainda assim era menos chocante do que um grupo de fanáticos assassinar, coordenadamente, mais de uma centena de inocentes.

Houve tréplica: o descaso da Samarco e dos órgãos de fiscalização do governo não poderia ser considerado como um assassinato coordenado?

Nova resposta: sim, mas uma coisa é assumir a responsabilidade por um eventual desastre fruto do mais puro e desumano descaso; outra é efetivamente se vestir de explosivos e se detonar em uma praça lotada, buscando ativamente matar o maior número possível de pessoas em nome de um Deus.

E, no final, o que deveria ser um momento para homenagear os mortos e pedir algum tipo de reação acabou se transformando em uma guerra ideológica à parte.

No final, acabou-se esquecendo o que há de mais sagrado na sociedade moderna: o direito à livre expressão.

Não é crime algum querer ficar mais solidário com quem quer que seja, brasileiro ou francês. Não é crime se sentir mais ultrajado com terrorismo ou com má administração. Não é crime expressar sua opinião, seja por meio de troca de avatar ou de posts em redes sociais.

Ao contrário: se expressar é a maior arma que temos. É o que nos inspirará a escrever as nossas histórias, a eternizar os nossos pensamentos e, portanto, a se inspirar.

Sua opinião é contrária à de alguém? É um direito seu – da mesma forma que é um direito deste alguém de ter e expressar a sua própria opinião.

Hoje, todos temos o direito sagrado de contar e curtir as histórias que quisermos.

Que esse direito nunca, nunca seja posto em cheque.

liberdadeexp

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