Tempos incríveis, tempos de transformação

Entre em um ônibus qualquer ou em um metrô e olhe ao redor: você sempre, sempre encontrará alguém lendo algum livro. E isso é fantástico.

Tenho para mim que a minha geração, nascida nos estertores da ditadura militar brasileira, foi praticamente incentivada a não “pensar” sobre as coisas realmente importantes da vida e da sociedade. O raciocínio era simples: pensar leva a questionar, questionar quase sempre leva a “se rebelar” e “se rebelar”, por décadas, levava a tenebrosas celas de tortura. E como culpar pais por não quererem ver seus filhos sofrerem, afinal?

O resultado disso? Povoou-se o Brasil com toda uma geração de odiares de livros, de cidadãos que culpam a falta de tempo, o excesso de trabalho ou o cansaço como responsáveis pelo que, no fundo, é a mais pura (e vergonhosa) falta de interesse pelo próprio crescimento intelectual.

Mas, se não há como se mudar o passado, há pelo menos como se sonhar com um futuro melhor. Porque, de alguma forma, essa mesma geração desinteressada tem buscado ensinar as gerações futuras a não agir como ela, a ler mais, a questionar mais, a formar e defender mais as suas próprias opiniões.

Volto ao parágrafo com o qual abri esse post como prova inconteste disso: hoje, é absolutamente natural encontrar pre-adolescentes lendo, vidrados, livros de centenas e centenas de páginas enquanto mergulham em histórias de magos, dragões e tempos invisíveis. Hoje.

Há trinta, vinte anos atrás, isso seria completamente impensável aqui no Brasil. Pelo menos como norma.

E o que isso significa? Que estamos mudando.

Que, aos poucos, estamos nos transformando em uma sociedade sem medo de pensar, de questionar, de formar opinião e firmar posição.

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Vendo histórias a partir de suas ausências

Há uma espécie de anexo à Pinacoteca de São Paulo onde funciona o Memorial da Resistência. Nos anos mais negros da história recente do Brasil, o temido DOPS – Departamento de Ordem Política e Social – ficava ali. Traduzindo: naquelas dependências, um sem número de brasileiros foi detido e torturado até os limites da humanidade.

Hoje, uma pequena exposição ilustra alguns dos efeitos daquela era: ausências, do fotógrafo Gustavo Germano.

São duplas de fotos das mesmas pessoas, todas combatentes políticas, tiradas dos mesmos lugares, separadas apenas por algumas décadas.

E, nas fotos, os olhares de antes e de hoje revelam um abismo desesperador. Em alguns casos, revelam pessoas que se foram; em outros, lembranças para sempre presas à carne, traduzidas em uma mescla de medo com ódio.

E por que estou postando isso aqui no blog? Porque essa exposição acaba contando histórias de maneira tão profunda quanto instantânea. Não há enredos longos, não há tramas complicadas que se desenrolam por horas, não há, em muitos casos, nem pessoas em frente a paisagens.

Mas há uma inspiração incrível despertada a partir da fotografia.

Recomendo fortemente a todos os autores que estiverem por aqui por Sampa.

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