O caos, nosso passado e nosso futuro

Sempre fui apaixonado pela teoria do caos. Parte dela inclui o famoso exemplo de uma borboleta que, ao bater as suas asas em algum canto qualquer do mundo, pode desencadear uma série de acontecimentos que vão crescendo feito uma bola de neve até mudarem, de maneira dramática, os rumos da humanidade.

Tomemos um exemplo claro, embora mais dramático do que o bater de asas de uma borboleta: o grande terremoto de Lisboa de 1755.

No dia 1 de novembro desta data, enquanto todas as igrejas da capital de um dos maiores impérios do mundo se iluminavam com velas para comemorar o dia de Todos os Santos, um movimento nas placas tectônicas no fundo do Atlântico fez tudo mudar de figura.

De repente, a capital foi sacudida com uma violência sem precedentes; as tantas velas acesas caíram e iniciaram focos de incêndio espalhados por todos os seus bairros; e, quando cidadãos apavorados saíram correndo em direção às margens do Tejo, longe das construções, uma tsunami veio e os varreu da existência. Tudo mudou.

À época, o Marquês de Pombal estava apenas começando no comando do império. Por conta do terremoto, conseguiu dinheiro e poder para reconstruir a capital ao espelho das outras grandes metrópoles europeias. Ele conseguiu – em grande parte fortalecendo a coleta de impostos das suas colônias e impondo reformas administrativas dramáticas. A capital do Brasil, por exemplo, mudou de Salvador para o Rio; e mudanças na burocracia local fizeram com que o mesmo ouro que correu para Portugal gerasse revoltas no Brasil. Um desses focos de descontentamento, por exemplo, foi a Inconfidência Mineira, combatida pelo Marquês com grande sucesso.

Bom… voltando às asas da borboleta, e se o terremoto não tivesse ocorrido ou se fosse em um outro dia, com menos velas e, portanto, menos incêndios? Teria Pombal adquirido tanto prestígio para mudar tanta coisa em Portugal e no Brasil? Como estaria a nossa vida? E a nossa literatura, à época contando com gênios que foram perseguidos na Inconfidência como Tomás Antônio Gonzaga ou Cláudio Manoel da Costa, dentre tantos outros?

Tudo, provavelmente, seria diferente.

Mas não é.

Hoje, somos o resultado de uma série de acasos caóticos que nos colocaram aqui e que nos levarão a futuros que estão, possivelmente, menos em nossas mãos do que gostaríamos. Essa sensação de impotência, no entanto, tem efeito dúbio: nos tira um pouco da esperança de comandar os grandes feitos do nosso destino mas, por outro lado, mantém alta a adrenalina pelo desconhecido que certamente está por vir.

E voltando à Lisboa de 1755, vale conferir essa incrível reconstrução da tragédia feita pelo Instituto Smithsonian:

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