Sobre a variedade dos estilos

Eu me considero um leitor ávido.

Entre audiolivros e impressos – por algum motivo qualquer nunca me dei muito bem com ebooks – devoro algo como 3 ou 4 livros todo mês.

Hoje, estou lendo Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz, e, simultaneamente, ouvindo O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov. Sim: é óbvio que as histórias e a sapiência destrancada por essas duas obras primas são absolutamente inspiradoras. Mas há mais.

Há muito mais.

Em Memorial de Maria Moura, Rachel de Queiroz cruza diversas narrativas em primeira pessoa partindo de pontos de vista diferentes. Ora a própria Maria Moura fala seus pensamentos, ora seus primos Tonho e Irineu, ora o Beato Romano e assim por diante. A história se auto-costura a partir de visões individuais que, majestosamente entrançadas, constroem uma das epopéias sertanejas que mais marcou a nossa literatura.

A ótica narrativa de Bulgakov não é o que impressiona, embora seja incrivelmente sofisticada: a história é que salta aos olhos. O Mestre e Margarida foi escrito pouco tempo depois da revolução soviética e descreve uma Moscow cambaleante entre os distantíssimos ideais utópicos do comunismo e a mais corrupta realidade. Mas ele vai além: um dos protagonistas é o próprio Satanás, que descreve para poetas o que ele chama de história real de Jesus Cristo – uma história absolutamente diferente da que ouvimos, com um Jesus órfão de pai e mãe e originalmente seguido apenas por um discípulo, Mateus. Satanás leva aos moscovitas sua trupe, que inclui um gato gigante falante, uma ruiva que anda nua e dois “capangas” esquisitíssimos. Ainda assim, entre tanta exoticidade, ele tece uma história de amor belíssima entre um escritor e sua musa, uma história tão tradicional quanto surreal.

Costumamos “classificar” os livros que mais amamos pelas suas histórias. Isso pode ser um erro.

A forma da narrativa, em alguns casos, é tão ou mais importante por ter justamente a capacidade de nos catapultar de maneira decisiva para dentro das tramas.

Como escapar da curiosidade de entender uma história a partir das óticas de todos os personagens? E como não ficar preso a uma narrativa surrealista, que conta como a mais pura verdade situações tão impensáveis quanto um paletó vazio despachando ativamente em um prédio do governo ou notas de dinheiro caindo do céu de um teatro para, pouco tempo depois, se transformarem em rótulos de whisky ou abelhas zangadas?

Não é só o conteúdo que deve inspirar leitores e autores. Os mestres, os verdadeiros mestres, revolucionam a partir de onde menos esperamos: na própria maneira de colocar no papel o que as suas imaginações enxergam.

mestre

 

 

 

 

 

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Dalí, Lewis Carroll e o protagonismo dos contadores de história

Dia desses eu estava navegando pela Internet em busca de inspiração. Fucei alguns livros, fui até o parque respirar um ar mais fresco, vi filmes daqueles angustiantes e, sem que nada tivesse surtido o efeito desejado, recorri à Web.

Ao Twitter, mais especificamente.

Acabei me deparando com um post feito no Brain Pickings, um site que sempre traz conteúdos “diferentes”.

E, nele, a matéria tratava de uma edição de Alice no País das Maravilhas ilustrado por ninguém menos que Salvador Dalí.

Sabe o que mais surpreendeu? A capacidade que uma diferente técnica de se contar histórias – ilustrações, ao invés de letras – tem de somar sentido. Ou melhor: a importância protagonista que o contador da história tem sobre ela.

Histórias, afinal, são coleções de experiências narrativas organizadas por pessoas. Elas dependem muito mais do narrador do que do próprio tema central, seja ele qual for. E contar com dois mestres – Lewis Carrol e Dalí – narrando o mesmo tema simplesmente o coloca em um patamar novo.

Diferenciado.

Surpreendente.

E, claro, inspirador.

Recomendo o post a quem quiser: basta clicar aqui ou na imagem abaixo (uma das ilustrações do livro):

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