Do orgulho do pioneirismo à frustração do conformismo

Saramago, Valter Hugo Mãe, Mia Couto.

Esses três escritores – um português, um angolano e outro moçambicano – tem uma coisa em comum: eles são parte de uma revolução na língua portuguesa. Sim, eu sei que Saramago já nos deixou – mas isso faz tão pouco tempo que tomei a liberdade de ignorar sua morte para me concentrar em sua obra.

Vamos à questão da revolução.

Basta ler As Intermitências da Morte ou Ensaio sobre a Cegueira para ficarmos babando nos períodos longos e virgulados de Saramago, em uma maestria que confere a cada texto um ritmo inacreditável.

O que dizer sobre a tetralogia das minúsculas – os quatro pesadíssimos livros de Valter Hugo Mãe que abole até as letras maiúsculas e os pontos de interrogação para fazer as histórias fluírem melhor?

Mia Couto? As palavras que ele inventa, por exemplo, em Terra Sonâmbula, são poesias à parte. Cada frase sua é um livro, eu diria.

Mas sabe o que isso tem a ver conosco? Nós, brasileiros, somos a raiz de toda essa revolução. Não costumamos nos dar tanto crédito, mas todos esses gênios estão fazendo hoje o que Mário de Andrade e Guimarães Rosa, para ficar apenas em dois exemplos, fizeram no começo do século passado.

Sim: apesar de não sermos os inventores do nosso idioma, fomos nós que primeiro os tiramos do ostracismo, sacudimos os seus antiquados tradicionalismos e o fizemos se curvar às histórias. Aliás, é isso que define a revolução de um idioma: fazer com que as suas regras ortogramaticais obedeçam às histórias para as quais ele foi criado, e não o contrário.

Tá… mas qual o ponto de tudo isso?

Não se trata apenas de bater no peito e arrotar o orgulho dos pioneiros. Trata-se de entender que, hoje, enquanto outros países lusófonos do mundo estão seguindo um movimento que nós iniciamos, nós estamos aqui, metamorfoseados em seguidores.

Já passou da hora de impormos ao mundo uma forma nova de contarmos histórias.

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O mercado editorial tradicional já morreu

Antes de abrirmos o Clube de Autores, o CEO de uma das maiores redes de livrarias brasileiras veio até nós e nos aconselhou fortemente a “não seguir adiante com uma ideia que certamente não conseguiria se sustentar nem por um punhado de meses uma vez que o mercado é de quem tem tradição e habilidade em lidar com as complexidades de um país como o nosso”. 8 anos se passaram e estamos aqui, de pé, crescendo e com uma base de mais de 50 mil autores, enquanto a tal rede de livrarias – embora ainda uma gigante perto de nós – enfrenta dificuldades financeiras potencialmente fatais.

Não digo isso para tripudiar deles ou para me vangloriar do Clube – não são os egos que estão em jogo aqui. O que está em jogo é o futuro dos livros.

Por que? Porque, até então, o futuro dos livros estava nas mãos desses grandes livreiros e editores que, de uma forma ou de outra, nos trouxeram até aqui. Foram esses livreiros e editores que entregaram ao grande público brasileiro não apenas os Dostoiévskis, os Prousts e os Tolstois como também os Graciliano Ramos, os Guimarães Rosas, as Cora Coralinas. Foram estes então destemidos aventureiros que nadaram pelas letras do nosso país e pescaram preciosidades que para sempre mudaram as nossas próprias feições culturais.

Mas eles envelheceram, tornaram-se decrépitos ranzinzas incapazes de entender as mudanças pelas quais o mundo já passou. Cansados, eles pararam de assumir os riscos necessários de garimpar novos talentos e entregaram-se ao inferior trabalho de vender apenas os estrangeiros já testados e comprovados em outras terras. Teimosos, eles transformaram essa terra maravilhosa em um mercado puramente consumidor (e não produtor) de literatura.

O resultado desse pensamento retrógrado, de um senso de inferioridade constrangedor? Esses próprios editores e livreiros brasileiros estão conseguindo quebrar o nosso mercado editorial no mesmo momento em que a avidez pelo livro passou a crescer exponencialmente. Nunca se leu tanto no Brasil como agora – mas nunca uma crise tão avassaladora se abateu sobre o mercado editorial brasileiro. Para ficar em dois números simples, divulgados recentemente pela SNEL: o faturamento do mercado de livros caiu 3,09% em 2016 em relação a 2015; em volume de vendas, a queda foi ainda maior: 10,84%. Só há más notícias no mundo dos velhos editores e livreiros. Só há pesadelos.

Sim, algo está errado – não é a primeira vez que escrevo sobre isso aqui no Clube. Aliás, já peço desculpas por estar cansando os autores com essa insistência em requentar o mesmo assunto – mas é que o assunto é importante.

O assunto é uma mensagem.

Você, autor, que sonha em ser descoberto por alguma grande editora e viver como um Hemingway dos trópicos, desista desse sonho. Hemingway nasceu em outros tempos, em outros lugares – e, é sempre bom relembrar, acabou com a própria vida.

O tempo de Hemingway não existe mais: editoras não descobrem mais ninguém, nem lá fora e muito menos aqui dentro. Editoras não fazem nem ideia de como trafegar por essa nossa nova realidade.

Sabe quem consegue garimpar mercado hoje?

O próprio autor.

Você.

Nosso tempo é o tempo de quem sabe (ou tem vontade de aprender a) cuidar da sua obra e lutar pelo seu público.

Nosso tempo é o tempo de quem está disposto a se alforriar desses sonhos sem base de um mundo que já não existe mais para batalhar pelo seu próprio espaço.

Aproveitemos melhor essa revolução.

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A revolução mundial que está acompanhando Trump

Há quem diga que Trump é problema dos Estados Unidos, que aqui temos coisas mais urgentes com as quais nos preocupar como, por exemplo, a Lava-Jato e toda essa corja política que insistimos em eleger e reeleger. 

Não nego que, entre a Casa Branca e o Planalto, as ações do segundo realmente trazem consequências muito mais imediatas para nós, brasileiros. Mas também não há como negar que, uma vez que vivemos em um mundo globalizado, o que acontece no país economicamente mais poderoso do mundo costuma ter impactos tremendos aqui. 

Basta olhar à nossa volta: nós nos locomovemos nas ruas com automóveis que foram, na prática, inventados por americanos; assistimos a séries e filmes majoritariamente americanos; e nos comunicamos via Internet – uma nuvem que, assustadoramente, “pertence” fisicamente a eles uma vez que é lá que ficam os servidores que coordenam todo o tráfego online do mundo. 

Se tudo o que acontece dentro das nossas fronteiras tem o potencial de afetar diretamente as vidas dos brasileiros, o que acontece nos EUA afeta não apenas os seus próprios cidadãos, mas sim todo o planeta.

E há um exemplo claro disso: o discurso inflamado do ex-presidente Lula durante a campanha de reeleição de Dilma Rousseff pregando a mística do “nós versus eles” e bradando que “os ricos não querem os pobres no poder porque não gostam de compartilhar com eles os assentos em aviões”. Foi com esse discurso que o governo conseguiu os votos necessários para se manter no poder – mas foi também com ele que acendeu o pavio emocional de quase metade dos eleitores, pondo em movimento toda uma cadeia de acontecimentos que culminou com o impeachment e com um dos mais dramáticos momentos do nosso país. 

O impeachment mudou o Brasil? É óbvio que sim. Mas ele mudou o restante do mundo? Muito pouco. Nós, infelizmente, ainda não somos tão relevantes no cenário global quanto gostaríamos. 

Os EUA, no entanto, são – e Trump parece estar repetindo lá, com precisão, os mesmos passos que o PT deu no Brasil. “Nós contra eles”? Que tal construir um muro para isolar o México ou vetar a entrada de muçulmanos de 7 países no seu? Há versão mais anabilizada da cisão de povos que essa?

Se vitimizar quando entidades da sociedade torcem o nariz para suas propostas e ações? Que tal acusar de comprados ou mesmo de burros todos os juízes e entidades que discordarem dele? 

Chamar a mídia de golpista? Que tal espalhar, oficialmente, que todo veículo de comunicação que discordar dele é desonesto e que mente descaradamente? 

Confundir patrimônio público com privado? Alguma dúvida sobre o questionamento ético do Trump usar o Twitter da presidência dos EUA para atacar uma loja que decidiu parar de vender produtos da sua filha? 

Não sou nenhum analista político, mas me parece claro que Trump está seguindo os mesmos passos que Dilma e buscando se manter no poder a partir de uma estratégia de criar divisões e preconceitos. Se o resultado do lado de lá for igual ao de cá, ele dificilmente terminará o mandato. 

E acreditem: isso afetará o mundo inteiro como um tsunami. 

Somos criaturas da dualidade – dependemos de conflitos para criar as nossas próprias histórias e tirar conclusões que, com alguma sorte, nos façam evoluir. E dualidades, conflitos, são a base para qualquer boa história que se escreva. Conflitos são a inspiração, a musa dos escritores e artistas. 

Pois bem: se a eleição do Trump fez subir ao mais alto posto do poder mundial um fascista mimado incapaz de entender que não é Deus em pessoa, ela também evidenciou um movimento anti-conservadorismo e pro-liberdade e união dos povos como em nenhuma outra era. Essas duas forças, que estão apenas esquentando seus motores, devem se enfrentar de maneira contundente e explosiva nos próximos anos. 

Nós, aqui no mundo real, estamos prestes a participar ativamente de uma das maiores revoluções ideológicas que a humanidade já testemunhou ao menos desde a Revolução Francesa. Ganhará a ideologia da divisão ou da união? O preconceito ou a conciliação?

Pode ser cedo para prever, mas não para torcer: que vençamos nós, os que defendem que o mundo existe para ser um único território, e não um punhado de cidades-estados medievais. 

E tomara também que registremos essa nossa guerra em histórias incríveis para que a posteridade não repita os mesmos erros da nossa geração. 

 

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