Inscreva-se no Prêmio Jabuti

Postei aqui, na quarta, sobre prêmios e concursos literários – e sobre a importância de se selecionar os mais sérios para se participar. Pois bem: já adianto então uma dica.

Participe do Prêmio Jabuti.

Não, ele não é dos mais baratos. A inscrição de um romance beira os R$ 400,00. Mas há a contrapartida: é, de longe, o prêmio de maior prestígio do mundo editorial brasileiro.

E é, portanto, uma oportunidade do seu livro dividir o mesmo justo parâmetro com outros livros dos mais renomados autores brasileiros.

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Sobre prêmios e concursos

Muito já falamos aqui sobre prêmios e concursos literários. Há quem pense que não valem o tempo que exigem, há quem aposte o futuro inteiro neles.

Pessoalmente, prefiro uma abordagem mais moderada. Há, claro, aqueles concursos mais fajutos, feitos para extorquir dinheiro de escritores sem muito compromisso com a meritocracia em si. Mas há outros, que garantem ao autor algo ainda mais importante que a visibilidade: parâmetro.

Em concursos mais sérios, podemos comemorar vitórias ou entender os motivos da derrota. Perdemos por conta de uma sinopse pouco vendedora? Uma capa pouco atrativa? Um enredo solto demais? Um português pouco fluido?

Cada perda, afinal, nos garantirá aprendizados importantes, fundamentais, para que nos aprimoremos nessa arte que tanto amamos (e que estamos fadados a nos dedicar).

Meu conselho, portanto? Separe jôio de trigo, selecione os concursos e prêmios que julgar realmente sérios e ponha a sua cara na rua. Arrisque-se e atente-se à opinião alheia: é dela, afinal, que carreiras literárias inteiras se fazem!

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A vida é mais fácil hoje

É difícil encontrar qualquer livro que, hoje, não precise de ao menos um poco de pesquisa histórica.

Mesmo nas coisas mais simples, como a descrição de uma cidade em uma determinada época, o uso de fatos reais para fazer o leitor mergulhar melhor no cenário e assim por diante. Basta um erro, uma descrição que jogue elementos no tempo errado, e uma história inteira pode morrer.

Para a nossa sorte, existe a Internet.

E esse é um desabafo de alguém que está terminando o próprio livro: há coisa melhor do que poder mergulhar nos bits e bytes e descobrir, com um altíssimo grau de certeza, cronologias, nomes e fatos de todo o mundo?

Vida de escritor, hoje, é decididamente mais fácil que nos séculos passados.

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Onde moram as boas histórias?

Darei aqui a minha opinião pessoal. Uma opinião sem nenhuma pretensão de se coroar incontestável ou mesmo de representar a forma com que o Clube de Autores como um todo pensa. Mas é uma opinião de alguém que ama, vive de e devora diariamente livro após livro.

Nessa minha opinião, boas histórias moram – ou ao menos preferem morar – nos lugares mais infernais, conflituosos e agonizantes do mundo.

Boas histórias não gostam de tédio, de monotonia, de vidas calmas tocadas em lugares estáveis. Acredito que busca estabilidade é sempre a nossa mente que, míope, acredita que paz de espírito faz bem à saúde. Mas quem nos dá aquela essencial gana de viver, quem esculpe emoções usando a adrenalina das grandes adversidades, é o nosso coração – e este precisa de dificuldades para bater mais forte. É também o nosso coração que determina o nosso estado de espírito, a nossa empolgação com a vida, a nossa ansiedade por uma boa história, os nossos dramas e gargalhadas com desfechos inusitados.

A paz e a estabilidade são, por definição, previsíveis. Boas histórias, por sua vez, tem enredos (também por definição) imprevisíveis. Percebe a diferença?

Boas histórias, portanto, gostam de se originar em momentos de crise aguda, de guerra, de desafios colossais impostos a pessoas comuns. Boas histórias gostam de guetos, de discriminações, de mutilações, de desafios. Boas histórias nascem de uma intenção natural do ser humano de superar injustiças impostas a ele pelo acaso, por terceiros ou por si próprio.

Não me entendam mal: obviamente, não estou pregando aqui a favor das grandes mazelas da humanidade. O contrário talvez fosse mais verdade: estou apenas dizendo que é dessas grandes mazelas, dessas grandes adversidades, que nascem as grandes histórias de superação – e que é dessas histórias que as inspirações do mundo inteiro são construídas.

Nietzsche costumava dizer que só se pode levar uma vida plena quando se mergulha de cabeça nas dificuldades e adversidades que ela costuma nos lançar. Concordo em gênero, número e grau: uma vida sem adversidades é uma vida sem boas histórias. E se não é para cultivarmos boas histórias, para que então vivemos?

Da mesma forma, se não é para registrar boas histórias, para que escrevemos?

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Sobre livros, tempos e espaços

Livros não são apenas passatempos frugais, rotas para se passear pelo ócio: são ferramentas para se dobrar o tecido do tempo-espaço.

Segundo Einstein, o próprio conceito linear de tempo – essa sucessão inabalável de passado-que-vira-presente-que-vira-futuro – é uma ilusão. Basta deixarmos um pouco de lado essa sempre tão turva obviedade perante os nossos olhos e tudo muda de figura. Basta compreender que a realidade não é o que vemos no mundo exterior, mas as experiências que se constroem em nossa mente, e tudo muda de figura.

E livros, claro, não são a única maneira de se mergulhar no nosso cosmo interior e de se permitir viajar por tempos e espaços além dos que testemunhamos com os nossos sempre tão rudimentares olhos. Não são a única – mas são, talvez, a mais sofisticada das ferramentas.

Na maior parte dos livros, afinal, não há imagens construídas pelas óticas de terceiros; não há cenários erigidos por efeitos especiais hollywoodianos; não há vozes sendo entonadas que não as ditadas pela nossa própria imaginação. Livros contém apenas as mais frias letras: nossa imaginação, ao mesmo tempo aquém e além dos nossos olhos e ouvidos, é que tem a incumbência de construir o tecido de suas histórias.

E o que há nesse tecido? Justamente a possibilidade de se fugir do presente tácito para mergulhar em um outro tempo, em um outro mundo, em um outro enredo. A possibilidade de se se ser tão invisível quanto toda criança sempre sonha de vez em quando, testemunhando as mais íntimas ações de personagens desconhecidos que, ao se desnudar perante nossas mentes por obra de seus autores, tornam-se mais próximos de nós do que muitos dos nossos familiares.

Hoje, por exemplo, eu amanheci no meu apartamento, em São Paulo, no dia 10 de janeiro de 2017, acordado por uma sinfonia suave de despertadores com choros de bebê. Depois me catapultei para o seio de uma família indo-caribenha na ilha de Trinidad no final dos anos 50, passeando pela descoberta da individualidade de um dos autores mais geniais que já li, V. S. Naipaul. Depois, fechei o livro e me teletransportei diretamente para a minha mesa no trabalho, no alto da Avenida Paulista, de onde agora escrevo este post cercado por correrias e afazeres e tarefas.

Foram pelo menos três espaços e tempos diferentes em um intervalo de poucas horas.

E porque isso importa? Porque a vida é curta demais para ser vivida apenas na linearidade do cotidiano visual.

Há que se ler para se viver como se deve.

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