É hora de reinventar o mercado editorial

Ultimamente, muito se fala em crise no mercado editorial brasileiro. É possível acompanhar tudo isso por meio de reportagens que mostram como o setor literário tem registrado constantes quedas nas vendas. Para piorar, a imprensa tem dado destaque à recuperação judicial das duas maiores livrarias do país. Diante de todo esse cenário, de fato, pode parecer que o segmento passa por dificuldades. Mas, na verdade, o problema está no modelo de negócios adotado na venda das publicações.

O discurso pode parecer algo um tanto otimista ou fora da realidade. Na verdade, os fatos concretos relacionados ao ramo vão ajudar a comprovar que essa minha tese relacionada ao universo dos livros está correta. A conjuntura econômica ruim dos últimos anos realmente derrubou o volume de vendas nos estabelecimentos do gênero. A partir daí, as maiores redes do ramo passaram a atrasar os pagamentos às editoras.

Só para esclarecer, as maiores livrarias brasileiras adotam um modelo de negócio conhecido como consignação. A modalidade funciona da seguinte forma: as editoras enviam grandes quantidades de exemplares impressos para as lojas sem receber absolutamente nada num primeiro momento. As redes do setor apenas abrem espaços em suas prateleiras para que os livros fiquem expostos aos consumidores. 

As editoras sempre enviavam seus livros para receberem somente após a venda destes títulos. Esse estoque parado não é bom para ninguém, é um desperdício de espaço e de dinheiro. É muito mais inteligente e econômico imprimir sob demanda.

Com o agravamento da crise, as livrarias deixaram de repassar o valor da consignação, após a venda efetiva, para quem produziu as publicações. Dessa forma, gerou-se praticamente um efeito cascata diante dessa modalidade de negócio usado no mercado literário. Sem dinheiro, o volume de lançamentos caiu drasticamente. Consequentemente, menos livros eram entregues para comercialização. E, dessa forma, a queda nas vendas de publicações também registrou forte queda em volumes de novas publicações. 

Por outro lado, toda essa situação também serviu para o setor buscar novos modelos de negócio, inclusive, com o uso da tecnologia para que a venda de livros se tornasse mais rentável. Hoje, é possível fazer a publicação gratuita dos livros em que a impressão se baseia totalmente na demanda de venda, por meio do uso de uma plataforma online. Nela, o autor se auto publica e disponibiliza sua obra para todo o mundo. Fora isso, a pessoa escolhe quanto quer ganhar em cada unidade comercializada.

Com o uso dessa solução, também se garante a impressão apenas quando algum exemplar é vendido tanto no site que abriga a plataforma, quanto nos espaços virtuais de seus respectivos parceiros. Ou seja, ninguém perde com isso, ao contrário da modalidade tradicional por consignação, que dentro deste modelo de negócios tradicional, as editoras foram as maiores prejudicadas com o calote das livrarias.

Por essas e outras, o mercado livreiro baseado em autopublicação tem se mostrado bastante eficiente. A mais recente pesquisa divulgada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) que apontou um aumento de 19,2% no faturamento de vendas do setor. Com certeza, o bom desempenho se deve às alternativas existentes no mercado literário.

Dados de empresas do setor comprovam que a nova modalidade por demanda utilizada pelo segmento também garante uma rentabilidade 30% maior se comparado com o adotado no mercado tradicional, onde estão as livrarias em processo de recuperação. Não gosto de dizer que o mercado editorial em si está em crise, até porque os brasileiros continuam consumindo e lendo até mais do que antes. 

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Livraria Cultura tem seu plano de recuperação judicial aprovado. Por que isso deve interessar a você?

O que devemos esperar do novo mercado editorial brasileiro?

Para que todos fiquemos na mesma página, é importante contextualizar o que, exatamente, foi esse processo de recuperação judicial que tanto abalou o mercado editorial brasileiro nos últimos meses.

Desde o começo do ano passado, as duas maiores redes de livrarias do país – Cultura e Saraiva – estavam com dificuldades grandes em honrar seus compromissos financeiros com editoras, autores e fornecedores de forma geral. Pode não parecer, mas foi um tsunami: juntas, afinal, essas duas redes representavam quase metade de todos os livros vendidos no país inteiro.

O que os planos de recuperação judicial incluíam?

De maneira geral, uma espécie de calote consensado. Apesar de pequenas diferenças nos acordos das redes com seus fornecedores, as propostas seguiam mais ou menos nessa linha:

  1. Em torno de metade de todo o montante que elas deviam (ou devem) aos fornecedores seria “perdoado” (ou seja, calote)
  2. A outra metade do montante devido, por sua vez, seria paga em suavíssimas parcelas ao longo de algo como 12 anos (!!!)

Já imaginou o efeito de algo assim para um pequeno editor, que já pagou gráficas para imprimir e distribuir suas tiragens, tem os seus compromissos com autores e funcionários e sempre agiu dentro das regras? Pois é: de repente, esse pequeno editor viu quase metade dos seus recebimentos ser ceifado por circunstâncias relativamente além do seu controle.

Relativamente, reforço.

Porque, no final, essas quase falências das duas redes devem ser vistos como um sinal de que o velho e antiquado mercado editorial já deveria ter se modernizado faz tempo.

Porque se, por um lado, não há como não sentir algum nível de pena do velho editor tradicional que trabalha como sempre trabalhou desde o início dos tempos, por outro não dá para considerá-lo também como culpado justamente por não ter inovado em seu próprio negócio. Convenhamos: imprimir grandes tiragens para distribuir de maneira consignada para centenas de livrarias, recebendo apenas quando elas alegarem as vendas?… Faz pelo menos dez anos, desde que o Clube de Autores começou e popularizou o modelo de impressão sob demanda, que isso não faz mais sentido.

Mercados que não se modernizam quebram: simples assim. Foi o que aconteceu com os velhos editores e livreiros. E não há como usar eufemismos aqui: o processo que culminou nos pedidos de recuperação judicial da Cultura e da Saraiva foi devastador para o mercado editorial tradicional brasileiro.

Ao mesmo tempo, foi o que abriu espaço para que novas empresas, dos mais diversos setores, começarem a trabalhar de maneira mais inovadora. Dei uma entrevista sobre o assunto recentemente, aliás, para a Record – veja no vídeo abaixo:

Como foi  crise para as novas empresas? 

Nós, que também distribuímos livros para a Saraiva (no caso de ebooks) e Cultura (no caso de impressos), também sofremos com os termos das recuperações judiciais. Dado o crescimento das vendas em canais aqui no Clube, o não recebimento foi um baque grande no caixa – até porque continuamos honrando todos os compromissos daqui, com gráficas e autores, apesar de amargar um prejuízo desnecessário.

Mas, ainda assim, 2018 foi o ano em que mais crescemos em toda a nossa história.

Por que?

Porque imprimimos sob demanda, o que dá um teto relativamente baixo de endividamento com livrarias. Porque temos muitos autores independentes aqui vendendo das mais diversas formas. E porque estamos abertos a todos os tipos de formatos e canais, o que significa que a nossa dependência das grandes redes nunca foi tão gigante assim.

Como o mercado editorial está agora?

Economicamente falando, o Brasil ainda não se recuperou da recessão que destroçou quem contava com um crescimento mais forte – e isso tem, claro, seus efeitos em qualquer mercado.

Mas eu diria que, no mercado editorial, os mais antiquados já pereceram e estão saindo de cena de vez.

Há novas empresas, há novos modelos, há mais ofertas para os consumidores. Ou seja: em que pese a persistência da crise brasileira, o mercado editorial está se reinventando. E isso, sim, é bom para todos.

Voltando às recuperações judiciais

Todo plano de recuperação judicial precisa ser aprovado pelos seus credores antes de ser oficializado. Em linhas gerais, funciona assim:

  1. A empresa apresenta a proposta de recuperação judicial em assembleia para os credores
  2. Enquanto a proposta estiver sendo avaliada, suas obrigações de pagamento do passado essencialmente cessam, congelando-se até uma aprovação ou reprovação final
  3. A partir daí, no entanto, todas as novas compras feitas pelas empresas precisam ser honradas nas datas (afinal, elas precisam continuar em funcionamento – o que significa que precisam continuar recebendo livros para venderem)
  4. Se a recuperação for aprovada, oficializam-se os passivos e as expectativas passam a ser controladas até o último centavo para evitar qualquer atraso (sob pena de falência)
  5. Se for reprovada, a falência passa a ser quase certa

A Cultura

Nesses últimos dias, a proposta de recuperação judicial da Livraria Cultura foi formalmente aprovado.

O que isso significa? Que muito provavelmente a rede sobreviverá à tempestade e permanecerá de pé.

Seu funcionamento já mudou bastante nos bastidores: os pagamentos referentes a compras feitas depois do anúncio da recuperação judicial foram todos feitos em dia, a empresa enxugou seus custos e estruturou um plano estratégico diferente do que estava habituada. Ou seja: ainda que por força de circunstâncias tensas, ela se modernizou.

Isso é bom para você? Sem dúvidas.

Porque sem a Cultura, criaria-se um vácuo imenso no mercado que seria fatalmente preenchido por alguma outra empresa. Até aí, tudo bem… mas que outras empresas estão à altura de ocupar um patamar tão alto aqui no Brasil?

Martins Fontes? Livrarias Curitiba? Leitura? Livraria da Vila? Todas têm seus pontos positivos, claro – mas quase todas são empresas excessivamente analógicas, algumas sequer com ecommerce, o que as coloca lá no século passado. Como esperar que empresas velhas ocupem um lugar deixado justamente pela falta de modernização de outra? Seria ingenuidade pura.

Restaria, portanto, apenas uma capaz de ocupar o vácuo: a Amazon.

E experiências no mundo inteiro já comprovaram que só quem ganha quando uma empresa como a Amazon vira monopolista natural em um mercado é a própria Amazon. É ela quem passa a determinar as regras do jogo, os preços de livros, os termos de relacionamento com os autores. E a todos esses, resta aceitar. Ou deixar de atuar no mercado.

A Amazon não parece ainda uma grande ameaça para o Brasil, principalmente com essa notícia da Cultura: ela (ainda, ao menos) não tem presença física (algo importantíssimo em nosso mercado) e nem massa crítica para se tornar líder inconteste de audiência, apesar do crescimento poderoso nos últimos meses.

Quero dizer com isso que a Amazon é uma inimiga que deva ser combatida? De forma alguma! Desde que ela não seja monopolista, ela é extremamente bem-vinda. Como toda concorrência, vale acrescentar.

E a Saraiva? 

Sabe a foto do buraco negro divulgada na semana passada pela Nasa? É a imagem que me vem à cabeça quando penso na Saraiva. Sim, ela é gigante e sua quebra seria um baque… mas tem sido difícil perceber uma saída para a rede principalmente quando o próprio mercado começa a reclamar que ela não está conseguindo fazer os pagamentos cotidianos mesmo depois de ter anunciado a recuperação judicial.

É possível que ela sobreviva? Claro. Torcemos para isso? Sim, desde que isso seja acompanhado pela criação de um modelo diferente de negócios, de algo mais inovador. Acreditamos que isso vá acontecer? Na minha humilde opinião, acreditar na salvação da Saraiva está crescentemente parecido com acreditar em unicórnios. Mas espero estar enganado.

Qual o resumo para você, autor independente? 

No passado, o mercado era dividido em duas grandes redes (Cultura e Saraiva) e um mar de “outros”. Não era um mundo bom para novos autores e nem para os consumidores. Eis a vantagem do capitalismo: por um motivo ou por outro, o próprio sistema expurga situações ruins.

O modelo, portanto, quebrou.

Veio a Amazon. Vieram os grandes marketplaces, de Estante Virtual ao Mercado Livre, posicionando-se como alternativa.  Vieram novos modelos de negócio, de assinaturas mensais a audiolivros.

O mercado se redesenhou e ficou mais dinâmico e competitivo.

Quem mais ganha com isso? Você.

Porque tamanho de acervo passou a ser um dos diferenciais entre os concorrentes – o que significa que todos os que até o passado fechavam as portas para autores independentes hoje os convidam ansiosamente para as suas prateleiras.

Se você, autor independente, ganha com isso, quem mais ganha? O leitor, óbvio, que passa a ter mais opções do que os best-sellers gringos que costumavam monopolizar as livrarias.

Em resumo: o plano de recuperação judicial da Livraria Cultura foi aprovado. Isso é ótimo para você, autor independente, que terá um canal de vendas poderoso cada vez mais disposto a vender os seus livros para um público imenso.

Que venham mais boas notícias assim!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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