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Crônicas de Quarentena [Resultado]

Algumas semanas atrás, lançamos um desafio aqui no Clube: contar, em formato crônica, um pouquinho sobre a quarentena. Todos poderiam participar – autores que já publicaram livros por aqui e também os simpatizantes.

Foram 356 crônicas de escritores que já têm obras lançadas pelo Clube de Autores e 477 de autores novinhos em folha que, esperamos, aventurem-se pelo universo da publicação independente em breve.

O desafio veio para confirmar o que já sabíamos: escrever é um remédio para a alma e alivia até mesmo os sentimentos mais confusos em tempos tão incertos.

Estamos muito felizes com o resultado :)
E sim, atrasamos um pouquinho o prazo de divulgação, mas a culpa é de todos os participantes. Quem mandou escreverem textos tão incríveis, dificultando tanto a nossa escolha?

ATUALIZAÇÃO: as especificações para a escrita do texto não foram consideradas neste desafio. Por se tratar de um momento atípico, decidimos avaliar todas as histórias enviadas.

Agradecemos a todos que se empenharam em deixar suas crônicas dentro das regras estabelecidas! Nos próximos concursos, não serão avaliados conteúdos fora do formato pré-estabelecido :)

Para compensar a mudança decidimos adicionar mais uma crônica às finalistas! (essa de acordo com as regras).

Agora sim, o resultado:

As três crônicas em destaque neste desafio estão publicadas abaixo – também serão compartilhadas no Instagram do Clube em breve! E fiquem atentos, teremos mais novidades sobre este desafio nos próximos dias!

É preciso vigiar de perto esses senhores desobedientes

Por Rafael Sette Câmara 

Meus pais e avós me criaram cheio de sonhos de conhecer o mundo, mas agora luto para convencê-los de que é preciso ficar em casa. Em meio a uma pandemia global que não se via há gerações, me pego tentando persuadir gente com várias décadas de vida de que essa não é uma crise qualquer – é um acontecimento que vai definir o mundo pelos próximos 50 anos. E que oferece um número ilimitado de riscos, principalmente para certos grupos.

Absolutamente neurótico. É assim que estou antes de completar uma semana de confinamento. Meu problema não é medo de pegar COVID-19, a doença transmitida pelo novo coronavírus. É pegar, nem sentir isso e acabar transmitindo para pessoas do grupo de risco, em especial aquelas que amo.

A preocupação é tanta que pensei duas vezes antes de visitar os meus avós, algo que normalmente faço dia sim, outro também. Fui no começo da semana, mas para isso medi (várias vezes) minha temperatura, permaneci distante durante a visita, evitando abraços e beijos, lavei as mãos uma dezena de vezes e limpei cuidadosamente todas as superfícies em que toquei – tão preocupado em apagar digitais quanto um serial killer após um dia de trabalho.

Enquanto eu dominava o medo de contaminação e pensava, passo a passo, nos cuidados necessários para estar ali, descobri que minha avó tinha ido, menos de 24 horas antes, num hospital lotado – e para fazer um exame de rotina que nós já tínhamos concordado adiar. Foi sozinha porque sabia que se avisasse a família não iria jamais, como ela mesma admitiu. Dei uma bronca daquelas e coloquei todos de quarentena, com álcool em gel suficiente e orientações de cuidados mil. Ufa!

Corta para o dia seguinte, quando dei uma última saída rápida de casa, atento para evitar aglomerações e coçando a alma para não coçar o rosto. Enquanto eu deixava o medo de contaminação me dominar, vi um grupo de octogenários batendo um papo animado num café no centro de Belo Horizonte, perfeitas ilhas numa cidade fantasma. Não eram os únicos, como descobri pela minha avó dias depois – a mesma que fez peraltice na segunda, mas que na sexta, já convencida da gravidade do problema, resolveu dedurar meu pai: “Ele estava no bar ontem. Ligou aqui e me contou”.

Não esperei nem a notícia descer: mandei dezenas de mensagens, com argumentos que variavam entre as taxas de mortalidade, a crise sanitária na Itália, as comorbidades e o risco de infectar outros. Também apelei para a chantagem emocional, confesso, embora tenha preferido guardar na manga algumas cartas desse tipo (ouviu, pai?).

Ele jurou que ia se comportar, mas daí a agir assim é outra história, né? É preciso vigiar de perto esses senhores desobedientes…

-Bar, pai? Com o prefeito fechando a cidade toda, com o mundo de ponta cabeça, você vai num bar? NUM BAR?

-Fui por isso, pra me despedir. Amanhã, com tudo fechado, é que não vou mesmo.

Bufando de raiva, contei a história em grupos de amigos – e ganhei atenção imediata. “Meu pai também tava num bar ontem, se despedindo”, disse um. “O meu se despede do bar o tempo todo, não tá nem aí. Vai jogar no bicho, tomar cerveja, bater papo com os amigos”, disse outra. “E os meus, que vão se encontrar com os amigos e fazem até roda de chimarrão”, diz um relato que vem do sul. “Acho que consegui assustar minha mãe. Compartilhei com ela uma fake news de que o governo vai suspender a aposentadoria dos idosos que não ficarem em casa”, falou uma terceira, admitindo uma tática, digamos, pouco ortodoxa.

Enquanto isso, outros relatos que chegam do sul deixam minha namorada apavorada:

-Pai, tu vai na feirinha amanhã? – pergunta ela.

-Vou cedo – responde meu sogro.

-Pai, pelo amor de Deus, para com isso. Tu vai se arriscar pra comprar queijo, é isso?

-Não, claro que não. Mel e bolachinhas. Queijo ainda tem aqui.

Em comum entre esses pais e mães estão exatamente os tais fatores de risco da COVID-19: idade na casa dos 60 ou acima disso, hipertensão, diabetes e hábitos pouco saudáveis, seja com ou sem pandemia.

Depois do desabafo, amigos passaram a me mandar textos, memes, áudios e vídeos sobre o assunto, uma onda de conexão, empatia e, por que não, humor – acho que vou criar um grupo no WhastApp: Filhos e Netos Preocupados Tomam Providências com Progenitores Sem Juízo

Só hoje já recebi o texto de um site português relatando que a coisa por lá está no mesmo nível, com idosos levando filhos à beira de um ataque de nervos; o áudio de um homem dizendo que o Rio de Janeiro parece uma cena de walking velho, só com idosos nas ruas; um meme com a velha surda dA Praça É Nossa trocando “evitar aglomeração” por “ir no atacadão”; um vídeo gravado em Santa Maria (RS) que mostra a prefeitura retirando bancos de um calçadão enquanto uma mulher comenta que é “absurdo ter que fazer isso pros idosos ficarem em casa”; a notícia de que a prefeitura de Três Rios (RJ) removeu de uma praça mesas de concreto onde eles costumam jogar cartas. E relatos mil de filhos desesperados porque não conseguem manter seus pais e avós quietinhos em casa.

Aprendi há tempos que o suceder de décadas inverte papéis. Nossos criadores, aqueles que cuidaram da gente e que até hoje são nosso porto seguro, repentinamente passam a demandar os mesmos cuidados – e devolver a dor de cabeça que demos um dia.

Mas me arrisco a dizer que poucas vezes a humanidade viu uma inversão de papéis coletiva deste tamanho, se é que algo dessas proporções já aconteceu antes.

– Mas tá todo mundo saindo, minha filha. É só um bingo na casa de fulano. Toda a turma vai, meu filho. Não é bar, não tem vírus desconhecido, só vamos nos encontrar na casa de um amigo.

– VOCÊ NÃO É TODO MUNDO. Eu não sou filho de todo mundo! Não sou filho da turma toda! Então se todo mundo pular da ponte você vai também, é? Você não tem casa não? Agora só vive na rua! Tem mais sorte que juízo, hein?

Pais, mães e avós, vocês nos pediram, com razão, que ficássemos em casa estudando pro vestibular, nos preparando para o futuro. Puxavam nossas orelhas deixando claro que seria um sacrifício passageiro e que tudo valeria a pena, que logo estaríamos no mundo. E que não é preciso ter pressa com o seguir natural da vida.

Agora é nossa vez: façam favor! Não é hora de caçar confusão! Fiquem quietinhos em casa, que na vida tem tempo pra tudo. E entendam, se brigamos é para o bem de vocês, vocês ainda vão nos agradecer. O que mais tememos é que essa brincadeira acabe em choro.

Eu, minha pequerrucha e o Presidente

Por: Paulo Luís Ferreira
Disse o presidente que, se ele pegasse essa gripezinha, esse resfriadinho, de nome coronavírus que, os “mal informados”, como a imprensa e a OMS, estão chamando de pandemia, ele em si, não teria problemas, pois como um inveterado atleta do exército brasileiro que, provavelmente, além de seu tão decantado paraquedismo, deve ter feito muito levantamento de fuzil, não seria atingido.

Então fiquei eu a pensar com meus botões, e recorri ao meu HD de memórias: que esportes fiz eu em minha minguada vida de atleta? Fazendo um esforço descomunal, deduzi que eu estou perdido, visto minhas reminiscências de infância só terem acesso aos meus intensos campeonatos de bola de gude e empinador de pipa; e os famosos tiros de cuspe à distância. Pois nem as cotidianas peladas da garotada eu não participava, porque eu era o afamado perna-de-pau do bairro, e no gol eu não jogava nem a pau.

A propósito, que boa lembrança me veio: quem dera ainda ter aquela potência na boca, para dá uma bela cusparada certeira, para acertar em algum alvo contemporâneo, bem na cara do energúmeno, e depois sair correndo. Coisa de criancice que ainda mora em mim, eu acho. Então disse para mim mesmo: maldito presidente, o que fez você de minha vida? Você tirou minha razão de viver, porque dessa eu não escapo, de acordo com seu diagnóstico de que, já que vamos morrer mesmo, pra quê esse negócio de quarentena, vamos pra rua gente, vamos cair na gandaia! É o que ele tem dito. E agora que faço eu? Se até os botecos estão fechados, não dando nem para fazer o disputadíssimo e animado jogo de palitos ou porrinha, como é conhecido aqui por minha turma.

Depois que ouvi os eloquentes conselhos do presidente. – Mesmo que contradizendo sua vontade. – Minha primeira providência foi entrar em quarentena. Ainda bem que, com o passar dos dias dessa minha existência que, segundo o grandíssimo, estou fadado a me despedir dela precocemente, por não ser um afeito aos exercícios, adquiri a prazerosa mania de ler e rabiscar historietas. Mas agora estou convivendo com o descalabro de viver prostado à frente da TV, a ponto de estar intoxicado pelas overdoses de notícias; e o encharcamento do palavreado: coronavírus, COVID-19, quarentena, OMS, confinamento, contaminação, álcool em gel, e outros tantos maneirismos e jargões médicos e jornalísticos. Sem falar das ânsias de vômitos, quando sou pego em flagrante a ouvir os fatídicos comentários do presidente.

Não bastasse a deturpada apropriação da fala do diretor da OMS, Tedros Ghebreyesus, sobre a população mais desassistida. Hoje, logo após ver a fake news postada pelo presidente, – numa consonância impressionante – com um sacripanta mostrando o desabastecimento no entreposto de abastecimento de Contagem em Minas, fui ao mercado fazer umas comprinhas. Na saída fui abordado por uma repórter de TV. Ora vejam só, tinha que acontecer uma calamidade dessas, para eu ter meus 15 segundos de fama. E a repórter veio logo com essa pergunta de chofre: O senhor não tem medo de morrer? Eu? De morrer? Medo? Por quê? – respondi eu com o corpo começando a gelar – E como fiquei mudo à repórter desistiu da entrevista.

Mas, enfim, chegou à onda salvadora: o panelaço logo no começo da noite para saldar as falas do presidente. Agora é todo dia. Oito em ponto, todos vão à janela. Batem panelas, gritam foras ao presidente. Aqui em casa tornou-se uma festa. Eu e minha pequerrucha de 4 anos. Estamos nos tornando quase uma dupla sertaneja: Panela e Papeiro. Aliás, pensando bem, esse negócio de bater panela bem que serve como um pouco de exercício, pelo menos para as mãos. E por que não para o corpo, porque eu e minha pequena aproveitamos para fazer um rebolado dançante, enquanto batemos. Eu bem que já estava disposto a seguir à risca o exemplo do presidente, fazer exercício.

Quando não tem panelaço já é motivo de acabrunhamento para mim e minha pimpolha. Papai hoje o presidente não vai falar não! Vai sim filha, aguarde um pouquinho ele deve está conferindo as informações com o homem do churrasco sobre a teoria de que às aglomerações de poucas pessoas pode, mas de muitas pessoas não pode. Então a partir daí ele toma novas atitudes sobre a quarentena. Ah, manda ele vim logo que eu tô com sono… – diz ela cheia de dengo. Mas não demorou muito e logo começou nosso bate-bate: panelaço e papeiraço. Pronto. Por hoje acabou o batecum de panelas, vamos pra cozinha fazer o suflê de chuchu enquanto esperamos a mamãe, né? Onde tá a mamãe? No hospital, trabalhando, ué!… Vamos cortar o chuchu?… Você bate o ovo no papeiro… Tá booom!… Fala meu chuchuzinho animada com a nova função.

Decidi levar a sério a história da quarentena.

Por: Marcos Siqueira

Decidi levar a sério a história da quarentena. Se bem que, talvez quarentena não seja o nome ideal para isso, já que não estou contaminado e nem tenho suspeita de portar o tal vírus. Penso que o nome ideal poderia ser con-fi-na-men-to. Estou confinado em meu próprio lar e, enquanto limpo detalhadamente o ventilador empoeirado, recebo uma mensagem de um grande amigo.

– Tô passando aí com uma garrafa de Jack – escreveu ele, inserindo vários emoticons após a frase.
– Não venha! – foi a minha resposta. Estava desmontando pela segunda vez o tal ventilador, recém-limpo e recém-montado, após perceber que esquecera de colocar outra peça por dentro, quando o interfone interrompe o sossego de minha clausura.
– Sim.
– O Fulano está aqui, posso deixar subir? – Deixa eu falar com ele pelo interfone, por favor.
– E aí? – ouço do outro lado.
– Falei para você não vir – respondi, amavelmente.
– Trouxe o Jack – disse-me ele, tal qual Satanás induzindo nosso Senhor a se jogar do pináculo de tempo. Pensei por um momento e disse:
– Tá. Vai ali, na frente de minha varanda. Quero ver se você trouxe mesmo a bebida.

Desliguei o interfone, fui ao meu quarto e peguei a capa do violão embaixo da cama. Abri, retirei a carabina de pressão e a caixa de chumbos. Coloquei alguns no bolso da bermuda e me dirigi a varanda.
– Ei! Você não vai atirar com essa merda, vai? – ouvi, lá de baixo, enquanto mirava na garrafa, que ele segurava à mostra em frente ao peito.

Eu estava no segundo andar e a posição de tiro era simplesmente perfeita, porém sempre fui ruim de mira e achei que provavelmente iria errar. Pois qual não foi minha surpresa ao escutar o som metálico do chumbo, ricocheteando no Jack Daniels, seguido da voz de Fulano, praguejando alto enquanto corria para fora de meu campo de visão. Recarreguei a arma e aguardei.

Lembre-me então que, provavelmente, o carro dele estaria estacionado atrás do bloco e corri para a janela da cozinha. Lá estava ele, se afastando rápido. Voltei a varanda e descarreguei a carabina na bananeira, bem em frente, não sem antes passar pela dispensa e verificar que ainda havia duas garrafas de 375 ml de Jack cheias, e uma com quase metade, que eu pagara uma bagatela no Super Adega. Arrumei a bagunça e ouvi o toque de uma nova mensagem no whatsapp:

– É bom que o coronavírus te mate, seu filhodaputa, porque se não matar, eu farei o serviço – era a mensagem que vinha, abaixo da foto dele, bebendo uísque no gargalo.

Se beber é batata

Por: Eloy de Oliveira

Um conhecido alcoólatra me disse certa vez: – Não beba quando estiver de boa, só porque está de boa. Essa é a senha para se tornar alcoólatra. Comigo foi assim. A tese dele se baseava em uma reportagem que leu, na qual se dizia que todo mundo pode se tornar alcoólatra se tiver o gene do alcoolismo. – Se tiver e beber, é batata, sentenciou. 

Esse papo surgiu em uma conversa trivial. Nunca me afetou, porque não tenho histórico familiar de alcoolismo, mas voltou à cabeça quando fui colocar uma dose de uísque. Nesses dias de quarentena, me pareceu uma boa forma de distração. Mas, de repente, comecei a achar que havia algum sentido: – Se tiver e beber, é batata. Eu não sabia se tinha.

Esses tempos de quarentena se prestam muito a esse desserviço com a nossa saúde. São muitas informações ao mesmo tempo e acabamos absorvendo de forma errada muitas vezes, ou porque não prestamos muito a atenção ou porque nos vemos equivocadamente nos sintomas. E não precisa ser hipocondríaco para cair nesses enganos inusitados.

Tenho outro conhecido que já teve todos os sintomas do coronavírus e já sarou umas quatro vezes. Basta ouvir na televisão que, se sentir isto ou aquilo, pode ser a doença que ele já absorve. Nunca foi hipocondríaco, mas deu de tomar remédios por conta em função da ansiedade. Deixou de ver tevê por isso. Só que assistiu “Pandemia” no Netflix. Não tem jeito.

A situação traz muitas confusões para todo mundo. Uma conhecida minha ficou com tanto medo que protagonizou uma cena hilária no banheiro do trabalho. Após fazer xixi, deu descarga usando papel higiênico, lavou as mãos com muita água e sabão e não se tocou mais para não se contaminar. Na hora de sair, não sabia como abrir a porta.

A primeira tentativa foi com o cotovelo. Era um trinco apenas. Ele não virara sem segurar. Tentou então com o sovaco, apertando no vão do braço, logo abaixo. A manobra quase deu certo. Não foi ao final porque manchou a manga da blusa com restos de mãos sujas usadas antes. Ela torceu o nariz e foi olhar de perto o trinco, já que é míope.

Inadvertidamente, uma colega de trabalho forçou a entrada pelo lado de fora, o gesto abriu o trinco de vez e a porta foi empurrada para dentro. Como estava muito perto da maçaneta, de boca aberta observando a sujeira e não esperava que tentassem entrar, essa conhecida acabou tendo a maçaneta nojenta enfiada entre os lábios.

O namorado da minha vizinha, um sujeito que não é dado a muitas cerimônias, criou um grande embaraço também. Ela recomendou que ele tirasse os sapatos e as roupas e deixasse na entrada da casa para não contaminar dentro. O sujeito chegou sem fazer barulho, ficou nu na porta da casa e foi forçar a maçaneta para entrar, como de costume.

O problema é que a namorada estava vendo o noticiário, onde falavam da onda de assaltos que tem acontecido por conta do isolamento social. Envolvida com as informações, ela se assustou, abriu a porta sem acender a luz e encheu o namorado de pauladas com um pedaço de madeira que arranjou. Ele saiu pelado para a rua, gritando desesperado que era ele.

A frase do meu conhecido me perturbou, mas acabei esquecendo dela enquanto fui lembrando de todas essas maluquices que estão acontecendo por conta do coronavírus. Quando me dei conta de que, se tiver o gene e beber, é batata, já estava na quinta ou sexta dose. Então já havia uma confusão de pensamentos. A frase, o uísque, a pandemia.

Adormeci na área de luz de casa, esparramado como se fosse um saco de batatas. Não sei quanto tempo se passou. Os meus pensamentos embaralhados passaram dos episódios malucos para uma ficção futurista. De repente senti uma massa mole cobrindo o meu rosto. Seria uma legião de coronavírus? Não, não era. Era cocô de uma pomba desgraçada.

E você, já escolheu sua favorita? Conta pra gente nos comentários o que achou =)

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Sobre o livro: Rios Invisíveis da Metrópole Mineira

Não é possível encontrar uma única definição para o poder dos livros e de seu impacto na construção de uma sociedade mais crítica. 

Toda obra é importante – seja por educar crianças e ajudar no período de alfabetização, por criar um universo novo, pronto para ser explorado, ou por resgatar a memória de lugares. E é sobre este último formato que falaremos neste artigo. 

A obra: Rios Invisíveis da Metrópole Mineira

O livro conta, logo nas primeiras páginas, que entre os motivos da escolha de Belo Horizonte como capital do estado de Minas Gerais, estava a abundância de nascentes e córregos – o que provou-se um motivo contraditório, já que apenas 10 anos após sua inauguração, apresentava indícios da falta de água. 

Os rios, antes limpos e populados por peixes, foram poluídos. A movimentação de terras, o desmatamento, o direcionamento dos esgotos para os cursos d’água… tudo isso contribuiu para que a metrópole mineira apagasse de sua memória importantes concentrações de água. Hoje, a cidade paga o preço por décadas de decisões inadequadas (e que continuam sendo tomadas). 

“É importante a compreensão de que temos uma imensa caixa d’água sob nossos pés”, alerta Borsagli na sinópse estampado na contra capa da obra, “assumir que as águas existem e que ou aprendemos a conviver com elas ou a vazão nas torneiras vai diminuir na mesma medida que as enchentes vão aumentar”, completa o autor logo na apresentação do livro.

A obra traz aos leitores um pouco da história urbana de Belo Horizonte, resgatando os “rios invisíveis” por muito tempo esquecidos. Explica como surgiram os primeiros problemas com água na metrópole e as decisões tendenciosas tomadas por governantes. Ao mesmo tempo, provoca a reflexão sobre futuras decisões e a necessidade de intervenção para solução dos problemas atuais.

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Segundo o autor, a ideia para o livro começou a se materializar por volta de 2010, a partir de seu aprofundamento em pesquisas sobre a geografia de Belo Horizonte. “Foi um caminho natural, pela quantidade de informações que foram surgindo ao longo das pesquisas”, conta. Depois disso, Borsagli ainda utilizou o estudo como base para sua dissertação de mestrado. 

Estudamos história desde o primeiro ano da escola, porque sabemos que a memória é importante não somente para explicar as raízes que nos trazem até o presente momento, mas também para aprender com os erros do passado e evitar que aconteçam novamente no futuro. 

Ao longo da narrativa, são apresentados diversas situações que resultaram no atual contexto hidrográfico de Belo Horizonte, como a falta de planejamento e utilização de métodos falhos. Entre eles, o autor considera intervenção do poder público na rede hidrográfica o mais grave, porque foi, muitas vezes, motivado pela submissão a grupos de interesse, que poderiam lucrar com as consequências das intervenções, visto que não resolveram os problemas urbanos, mas criaram novas oportunidades de ganhar dinheiro. 

O autor acredita que o resgate da memória urbana de BH ajuda a explicar as alternativas existentes para que a população possa exigir a soluções que não se resumem a canalização e retificação. “Alternativas existem e o livro procura explicitar isso, cabe a população ter acesso a alternativas até então ignoradas pelas administrações municipais e exigir a aplicação delas”, explica.

Quem é o autor? 

Alessandro Borsagli é graduado em Geografia e também atua no campo de pesquisa do espaço urbano, com foco em geografia urbana e história das cidades. 

Borsagli também é autor do site Curral del Rey, onde discute as principais mudanças do espaço urbano da capital mineira desde a fundação do arraial do Curral del Rey, no século XVIII.  

Sobre o processo de publicação:

O autor conta que escolheu lançar sua obra de forma independente pela facilidade de publicação. Além disso, com este formato teria mais independência no processo de elaboração e diagramação, por exemplo.

Rios Invisíveis foi apenas o pontapé inicial da história do autor com a publicação independente. Após o lançamento da primeira obra, Alessandro Borsagli publicou outros 9 livros através do Clube de Autores. 

Apesar de não ter criado estratégias de lançamento, seus livros foram muito bem recebidos no mercado editorial. O autor, considerado best seller no Clube, vendeu mais de mil exemplares (somando todas as obras). Prova que informação de qualidade e dedicação ao tema são fundamentais para o sucesso no universo literário. 

“A surpresa foi a reação do público sobre um assunto tão específico, a lembrança dos rios dentro da cidade ainda é muito forte em parte da população, positiva ou negativa”, confessa.

Palavras do autor

Quando questionado sobre quais dicas daria para estudantes que, assim como ele, também planejam transformar suas pesquisas em livros, Alessandro respondeu “dedicação, seriedade e ética na hora de realizar a pesquisa”.

Para saber mais sobre o autor, acesse o site Curral del Rey. Você também pode segui-lo em sua página oficial no Facebook e conhecer todas as publicações de Alessandro no site do Clube de Autores.

#LeiaAutoresIndependentes

Este é o primeiro artigo da série #LeiaAutoresIndependentes – um projeto criado pelo Clube de Autores para valorizar as publicações autorais. Para continuar conhecendo as obras publicadas por aqui, acompanhe nosso blog e Instagram :) 

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