Mundos em transposição, parte 1

“Qual o sentido de ir a uma livraria, por mais megastore que seja”, uma amigo me perguntou no final do domingo.

Ela não se referia à Internet, ressalte-se: referia-se a uma livraria física, daquelas belíssimas que decoram os shoppings e esquinas daqui de São Paulo com verdadeiras esculturas renascentistas feitas de letras e papel.

Ela continuou: “Já fui em três livrarias ontem e não achei nenhum dos dois livros que procuro. Pedi para o vendedor me indicar algo ao menos relacionado ao tema, mas ele conhecia literatura tanto quanto eu conheço física quântica.”

Sua conclusão: se estiver procurando um livro específico, mais fácil e rápido buscá-lo na Internet, em algum site tipo a Estante Virtual, que sempre tem tudo da velha literatura.E, se estiver buscando algo mais novo sobre um tema específico, melhor garimpar no Clube de Autores, que concentra tudo de novo.

Um ponto em comum entre ambos: nenhum dos dois trabalha com estoque. Ainda que com modelos diferentes, todos fazem da própria rede – seja de sebos e pequenas livrarias a autores independentes – a fonte primária de conteúdo.

É justamente aí que está o futuro. Ou melhor: é “aqui”.

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Sobre as pérolas escondidas em cada livro

– A igreja está fechada. Sabe que horas são? Quase cinco da manhã. E não deveria estar aqui. De noite esta zona é má, é uma zona perigosa.

Mylia sentiu vontade de rir em frente ao bom homem. Zona má porque perigosa! Ela que vem com a doença, uma doença que já está dentro e a vai matar num ano, dois, não mais. Ela que está com a morte fechada num sítio de onde já não sai; ela quer precisamente o perigo, aquilo que ainda a excite, que ainda revele nela energia suplementar. Esteve à beira de dizer ao homem, certamente trabalhador na igreja em ofícios menores, esteve tentada a dizer: se esta zona é perigosa, não é uma zona má. Aqui se poderá construir.

Esse é um trecho de Jerusalém, livro do português Gonçalo M. Tavares que li durante o final de ano.

Sempre acreditei que livros são como uma espécie de marisco: todos escondem, por trás de enredos envolventes, personagens marcantes e usos perfeitos da palavra escrita, alguma pérola solitária de conhecimento capaz de nos deixar absolutamente deslumbrados em maior ou menor grau. São as três bruxas que prevêem o destino de MacBeth, o perigo da vida de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, a relação entre discurso e poder em Guerra e Paz, a figura do homem mais triste do mundo em Nosso Reino, do também português Valter Hugo Mãe.

Não é que eu esteja diminuindo histórias gigantescas como Guerra e Paz, para ficar neste exemplo, a uma mera passagem de duas ou três páginas. Histórias, a meu ver, são como canais de transmissão de ideias sutilmente forjadas, delicadas, absolutamente complexas e detentoras de uma luz própria que, quando entendidas, efetivamente nos apresentam uma face nova da vida e da humanidade. Nesse sentido, é fundamental que elas sejam ricas o suficiente para nos envolver, para roubar a totalidade da nossa atenção e nos fazer enxergar as metáforas que carregam com o devido encanto.

Ler, para mim, é uma espécie de tarefa de investigação: sempre me vejo caçando pérolas e tentando enxergar a luz escondida nos enredos dos livros. Nem sempre consigo, é bem verdade: há vezes em que, provavelmente pela minha própria incapacidade investigativa, histórias são apenas histórias, entretenimentos frugais do cotidiano. Mas há outras – a maioria, ainda bem – em que essa luz me capta com um susto e me faz repensar a própria maneira de enxergar a vida.

Jerusalém não é um livro tão espetacular quanto os outros que citei aqui. Ele não envolve quanto Guerra e Paz, não nos deixa em estado constante de choque quanto Grande Sertão, não nos faz repensar a história da humanidade como MacBeth, não nos remete à melancolia pueril e direta de Nosso Reino. Ainda assim, ele tem a sua própria pérola, com a qual abri este post.

O resumo em uma frase? É no perigo que se constrói.

Sim, isso pode parecer simples. Sim: colocado desta maneira, como uma espécie de resumo de vestibular, pode até esbarrar no piegas.

Mas é também a mais pura verdade.

Que graça teria a vida (ou as histórias) sem os perigos que precisam ser transpostos para que se chegue a alguma nova síntese de vida? Nenhuma.

Que nossas próprias histórias sejam recheadas de perigos para que possamos construir sobre elas.

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