A diferença entre a verdade e o real

O livro no qual eu estou trabalhando parte de uma série de biografias. São histórias verdadeiras, vividas por personagens verdadeiros entre 1911 e 2017 – e captadas a partir de todo um monumental esforço envolvendo pesquisas, entrevistas e investigações.

Esse trabalho foi, de certa forma, revelador para mim: me ensinou a diferença entre o real e a verdade.

Explico-me: no final, toda a soma das investigações geraram uma linha de tempo. Uma linha de tempo detalhada e recheada de fotos e relatos, indubitavelmente. Mas, ainda assim, uma linha de tempo que cabe em umas duas ou três páginas.

Linhas do tempo, concluí, são as verdades – os fatos inquestionáveis, documentados, indiscutíveis. Mas eles não são o real.

E não o são porque o real é sempre, sempre, uma história. É o que acontece entre um fato e outro em uma linha de tempo, é a cola entre os fatos, o conjunto de emoções, sensações e conflitos que geraram os marcos.

O problema disso em biografias? Por mais que verdades sejam quase sempre fartas e documentadas, o real sempre depende muito mais de interpretações e relatos que, na medida em que o tempo passa, vão ficando cada vez mais rarefeitos.

E é aqui que entra o papel do biógrafo: usar o seu poder de construção de narrativas e a sua capacidade de dedução para criar colas e transformar verdades no real, na história que efetivamente entrará pelas pálpebras das pessoas e se imortalizará como “o que realmente aconteceu”. Porque, queiramos ou não, não se pode negar uma coisa: o que fica na eternidade, o que é entendido como o real, nunca é um punhado de dados e datas: é a história melhor contada – aquela carregada de tramas e dramas, de tons muito mais cinzas do que pretos no branco. De tons que tendem a sair muito mais da imaginação do escritor do que de qualquer minuciosa análise do passado.

Voltando ao ponto original do post: qual a diferença entre a verdade e o real? A verdade, os dados indiscutíveis, pontuais, factuais, são a única coisa que efetivamente se pode provar que aconteceu; mas o real, a história que une os fatos e os cola em uma narrativa única, depende muito mais do contador da história do que de sua cronologia – e, portanto, embora estejam naturalmente sujeitas a vieses, é o que eterniza-se como o que “realmente aconteceu”.

Fiz um post dia desses falando que “somos as nossas próprias histórias”. Retifico-me: na verdade, somos as histórias que contam sobre nós.

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Há como escrever biografias reais?

Sim, eu sei que a pergunta é difícil – e já peço desculpas aos biógrafos que aqui me lêem.

Mas, recentemente, estou mergulhado de cabeça na tarefa de escrever a biografia de um atleta sul africano e heróis de guerra, um tal de Phil Masterton-Smith.

Mergulhado é pouco: já conversei com a irmã de 94 anos dele diversas vezes, já fiz amizade com sobrinhas e familiares, já bati papo com colegas de regimento, já capturei documentos oficiais da Segunda Guerra, já até me planejei para repetir um dos seus feitos, pedalar 1700km pela África em 10 dias e correr uma ultramaratona de 89km no dia 11.

E a história, modéstia à parte, está mesmo tomando uma forma belíssima. Mas sabe onde essa dúvida do título me bateu?

Nas partes entre datas e fatos documentados. Biografias, concluí, são sempre compostas de três partes: os inegáveis fatos, os dedutíveis pensamentos e as filosofias de vida quase sempre obscuras, íntimas demais para se fazerem realmente sabidas.

O que Phil, por exemplo, estava pensando antes de embarcar em um ou outro caminho de sua vida? O que ele buscava, realmente? E do que era composta aquela “matéria negra” tão vasta, tão maior, que circundava cada decisão sua.

No meu caso – como no caso de qualquer biógrafo – não há como saber.

Há, no entanto, como projetar, como encaixar filosofias entre ações, fatos e dados do biografado. A grande questão é que, no fundo, essas filosofias partem invariavelmente de uma única pessoa: do autor.

Assim, um biografado não é apenas uma pessoa real, que viveu sua vida e fez suas coisas: ele é também, ainda que em parte, um personagem de ficção, parido e criado pela mente do seu autor.

Volto, portanto, à pergunta do título: há como escrever biografias reais? Minha conclusão: não.

Biografias, no final, são sempre peças de ficção baseadas em fatos verdadeiros.

Mas a história da humanidade inteira não é também escrita exatamente desta forma?

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