O triste hábito de reclamar demais e pensar de menos, parte 2

Segunda frase da série a ser desconstruída: “livro é caro demais”.

É mesmo?

Você realmente acredita nisso ou apenas repete a frase como se ela fosse uma verdade incontestável?

Bom… só há como se dizer que algo é caro quando fazemos algum tipo de comparação.

Em média, um livro custa R$ 39,77 no Brasil. R$ 39,77. Se um brasileiro médio lê 2 livros por ano, isso significa R$ 79,54 gastos em literatura. No ano.

Mesmo se fôssemos franceses e lêssemos 10 livros por ano, isso iria para R$ 397,70. Por ano.

É muito dinheiro? Mesmo? Por um ano inteiro de histórias e mergulhos em mundos fantásticos, enriquecendo nossa própria educação e cultura?

Sabe quanto um brasileiro médio costuma gastar com entretenimento e lazer, segunda uma pesquisa do SPC? R$ 389 por mês – ou R$ 4.668 por ano. O que isso inclui? Restaurantes, bares, cinemas e coisas do gênero. Mesmo se dobrássemos nossa média de leitura, não chegaríamos nem nos 4% do gasto anual com entretenimento. 4%.

A questão aqui é outra: quem repete que livro é caro o faz simplesmente por não ter a leitura como prioridade mínima – e aí prefere culpar o mercado e a economia ao invés de pensar mais racionalmente e consumir algo que agregará muito mais valor que um almoço ou jantar no restaurante novo que abriu na esquina.

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O triste hábito de reclamar demais e pensar de menos, parte 1

“Não há como se sobreviver como escritor no Brasil porque o brasileiro lê pouco.”

“Livro é caro demais.”

“O governo investe pouco em educação e cultura.”

Essas são apenas algumas das tantas autocríticas que lançamos como responsáveis por todo um universo de males que massacram o nosso país.

Com o hábito já tão enraizado em culpar terceiros – seja o governo ou o cidadão ao lado – nós acabamos nos concentrando muito mais em bodes expiatórios do que em soluções práticas ou mesmo na percepção de que boa parte dos nossos problemas efetivamente inexiste.

Comecemos pela primeira frase.

O brasileiro lê pouco? Bom… em média, o brasileiro lê 2 livros por ano. Isso é ruim? Depende da perspectiva. Em 2006, por exemplo, esse número era de 1,5 livros/ ano, o que mostra uma evolução significativa.

Se compararmos com o mercado internacional, de fato ficamos um pouco abaixo da média. Na Inglaterra, por exemplo, lê-se 4,9 livros por ano; na França, 7 livros.

Mas, para escritores que pretendem viver de vendas de livros, essa análise per capita é simplista demais por desconsiderar o óbvio: a diferença no tamanho da população. A média de 2 livros por ano lidos no Brasil significa, dado o nosso tamanho, 420 milhões de livros. É BEM mais que os 260 milhões da Inglaterra e apenas um pouco abaixo que os 468 milhões da França.

Há mais boas notícias por aqui.

Um novo tipo de estudo começou a comparar os hábitos de leitura não por livros lidos, mas sim por horas dedicadas semanalmente à atividade.

O Brasil lidera? Não, não lidera. Mas, ao invés de se entregar ao pessimismo, que tal olhar o comparativo abaixo?

Com 5min12seg semanais, estamos apenas levemente abaixo dos ingleses e significativamente à frente de países como Japão e Korea.

Aos críticos que quiserem reclamar leitura não significa, necessariamente, leitura de livros, vai ua observação: esse estudo mostra o hábito, a intimidade de um cidadão comum com as letras. E parece óbvio que o hábito de leitura é mais importante justamente por preceder a atividade de leitura de livros.

Falo das outras frases da abertura do post nos próximos dias, mas espero que esta aqui já comece a ser desconstruída.

Viver de literatura é fácil? Não, certamente que não: mercados artísticos são, em todo o mundo, os mais competitivos que existem. Mas as rédeas estão nas mãos de cada escritor: mercado para isso, afinal, há aqui no Brasil em maior tamanho e demanda do que em países como Inglaterra, Suécia, Finlândia e tantos outros tidos como literariamente inalcançáveis.

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Deixemos, então, o nosso legado

Na sexta passada eu fiz aqui um post, digamos, meio pessimista quanto ao estado em que nos encontramos enquanto país e sociedade. E, verdade seja dita, fica difícil escrever otimismos dado o cenário em que vivemos.

Por outro lado, há sempre um lado extremamente positivo sobre a História: ela é infinita. Se nosso presente tem sido marcado por tropeços e escândalos do passado, temos também a chance de escrever um futuro muito, muito diferente desses tempos em que vivemos.

Como?

Fazendo o que mais amamos: escrevendo.

Porque futuros não são feitos do livre-arbítrio desconectato de quem quer que seja que apareça do nada no cenário nacional. Futuros são criados a partir de desejos de manutenção ou mudança de realidades, de visões e percepções generalizados dos povos que compõem uma determinada sociedade.

E quem registra esses cenários, essas realidades?

Nós, escritores.

Somos nós que, coletivamente, pintamos o retrato perfeito da nossa sociedade por meio de enredos, personagens e tramas que se encaixam nos mundos em que vivemos.

Somos nós que damos emoção, carne e osso aos sempre frios fatos e estatísticas.

Somos nós que formamos a época em que vivemos.

E essa é, pois, a mais importante das contribuições que podemos fazer ao nosso país e ao nosso mundo: escrever.

E publicar.

E fazer o máximo possível de leitores entender que estão lendo uma versão pluridimensional das suas próprias vidas.

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Celebre-se: escreva a sua história

Se você escreveu um livro e o publicou, não esqueça de celebrar-se.

Não digo aqui para se abraçar e se beijar, claro – embora isso também não seja um mau conselho dado que escrever um livro é um marco incrível. Mas digo para organizar o seu próprio evento, o seu lançamento.

O motivo? São poucos os momentos em que você conseguirá reunir tantos interessados – incluindo família e amigos – com o objetivo de dar ignição às suas vendas.

Em um lançamento, dezenas ou centenas de pessoas – dependendo das suas redes sociais (virtuais ou não) se reunirão para comprar um pedaço da sua mente, para garantir que olhos percorrerão os papeis que escreveu, para espalhar a sua palavra.

Daí, muita coisa pode acontecer. Pode ser que seu livro viralize e alcance novos mundos; pode ser que você seja catapultado para os holofotes literários; ou pode ser que você viva o auge da vida do seu livro ali mesmo, naquele evento.

Mas, seja como for, não há como perder: se é no livro que uma história se escreve, é também no seu lançamento que o autor vira protagonista.

Isso sem contar, claro, que as opções de lugares são imensas, em qualquer cidade do país. Qual livraria não aceita negociar ou mesmo dar espaço, afinal, para que autores levem hordas de leitores dispostos a comprar livros em seus domínios? Normalmente, é uma questão de ir até a sua preferida e negociar uma data. Simples assim.

Tem um livro publicado aqui no Clube? Então não perca tempo: organize já seu evento de lançamento. Escreva melhor a sua história.

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Somos todos contadores de histórias

Aprendi uma coisa importante ao lidar tanto com escritores: no final das contas, todos nós somos contadores de história. Reformulo: a única coisa que nos diferencia de um macaco, ao menos mentalmente falando, é a nossa capacidade de contar histórias aos nossos pares – seja relatando fatos verídicos ou romanceando-os para que se tornem mais sedutores.

Isso chega a ser óbvio, aliás. O que fazemos ao relatar nosso dia para a mulher ou o marido quando chegamos em casa? Contamos histórias do passado recente. O que fazemos quando estamos vendendo um serviço ou um produto? Contamos uma história que permita ao nosso interlocutor enxergar que nós somos o caminho para a realização de algum sonho seu, qualquer que seja.

O que fazemos quando estamos batendo papos com amigos? Trocamos histórias.

Quando queremos seduzir alguém? Criamos histórias.

Quando queremos nos livrar de problemas inesperados? Inventamos histórias.

Em cada um desses casos, a nossa chance de sucesso será maior se a nossa capacidade de contar uma boa história for grande, se soubermos prender a atenção, se dominarmos a arte de articular pensamentos e interpretar olhares, gerando mais expectativa a cada palavra cantada.

E isso também significa que buscar inspirações nos grandes contadores de história do mundo – os Saramagos e Kafkas, os Michaelangelos e Rodins, os Da Vincis e Portinaris – é quase uma obrigação para uma espécie de que diferencia das outras por saber relatar bem o que imagina.

Cultura, no seu sentido mais clássico, sempre continuará sendo a melhor ferramenta de sobrevivência da raça humana.

Ou, como bem colocou um dos maiores gênios da humanidade, o recém falecido Umberto Eco: “Quem não lê, aos 70 anos terá vivido só uma vida. Quem lê, terá vivido 5 mil anos. A leitura é uma imortalidade de trás para frente”

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