O Brasil nasceu há 95 anos

O Brasil só virou Brasil entre 11 e 18 de fevereiro de 1922.

Antes, éramos um país perdido nos distantes trópicos, com uma produção artística que, embora belíssima, era uma escrava estética das artes europeias. A história de Bentinho e Capitu é ímpar – mas ela poderia ter se passado tranquilamente em qualquer cidade europeia e não causaria espanto algum se os personagens se chamassem Wolfgang e Frida. Aleijadinho e sua arte sacra são um indiscutível patrimônio da humanidade – mas os doze profetas em Congonhas poderiam facilmente ter sido feitos para uma catedral em Bragança ou em um convento qualquer perdido no Buçaco. Almeida Júnior talvez seja dos mais brilhantes pintores brasileiros – mas até os seus temas caipiras se confundiriam com cenas passadas no verão isolado de  Smolensk, na Rússia.

Produzíamos arte, indiscutivelmente, como em qualquer lugar do mundo: mas as técnicas, os temas e mesmo os ritmos eram ditados pelo mundo que mandava em nós.

Isso mudou em 22, ano em que o Brasil nasceu.

Foi a partir da Semana de Arte Moderna que descobrimos nossas raízes e que aprendemos a nos orgulhar dela. Foi por causa de 1922 que, poucos anos depois, Mário de Andrade pariu Macunaíma, obra mãe da literatura brasileiríssima. Foi 22 que gerou Tarsila, Bandeira, Di Cavalcanti. Foi a partir daí que nossas telas ganharam o estilo único de Portinari, que nossas esculturas receberam força sutil de Brecheret, que nossa música ganhou os inconfundíveis ritmos de Villa-Lobos.

Foi em 22 que o Brasil passou a ser Brasil de verdade, que deixamos o anonimato cultural para assumir o nosso lugar de direito.

Os resultados dessa ruptura proposta pelo movimento antropofágico? Dos sertões perigosos de Guimarães Rosa à Bahia hipersexualizada de Jorge Amado, passamos a ser temas de nossa própria cultura. Passamos a nos enxergar, a nos ouvir, a nos tocar. Até a nossa música virou nossa de verdade – ou alguém duvida que, sem uma identidade cultural única, samba e bossa nova teriam algum espaço.

Nossos avós culturais abriram espaço para a nossa personalidade artística há quase exatos 95 anos.

Comemoremos o nosso quase centenário, pois, honrando-os com o que de melhor sabemos fazer por aqui: escrevendo histórias.

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Os bons velhos tempos (que graças a Deus já se foram)

Na semana passada participei de um evento que, de alguma maneira não planejada, acabou enveredando para uma discussão sobre o mundo online versus o mundo offline.

Tenho pavor de discussões assim. Sempre tive.

Para mim, sequer considerar que há um mundo online que se contraponha a um mundo offline é uma excrescência. Ainda assim, o evento seguiu com pessoas dizendo que o mundo estava perdido, que o apocalipse poderia ser definido pelo excesso de conexões superficiais e pela carência de relações reais, que um post jamais substituiria um “cafezinho” e coisas do gênero. Argh.

Quem me conhece sabe que comentários assim chegam a me dar ânsia de vômito: são como tentar, a todo custo, se segurar a um passado que, como a própria palavra sugere, já passou.

O tempo caminha para a frente e, se quisermos nos manter vivos, ativos e relevantes, temos apenas uma alternativa: caminhar junto com ele.

Como? Deixando preguiça e preconceito de lado, aprendendo o que não sabemos e aproveitando todo esse universo de possibilidades que, pela primeira vez na história da humanidade, está aí, à disposição de todos. Afinal, se o mundo mudou tanto, foi porque nós, os humanos, impusemos essas mudanças; e se o mundo não está voltando a ser o que era, é também porque nós, enquanto comunidade global, preferimos continuar evoluindo.

Nesse mesmo evento acabei conversando com um autor daqui do Clube. Do alto dos seus 67 anos ele me contou que, ano passado, depois de incontáveis negativas de editoras tradicionais, decidiu publicar seu livro conosco. Como não sabia exatamente como já que intimidade tecnológica não era seu forte, pediu ajuda ao filho.

Depois de duas semanas, colocou o livro no ar. Aprendeu a usar o Facebook. Navegou pela infinidade de conteúdo sobre como se divulgar e testou o que pôde. Fez algumas ações de sucesso e outras de fracasso, mas seguiu tentando. Organizou um lançamento em uma livraria, fez promoções especiais, cativou um público fiel nas Internet. Um ano se passou e, hoje, ele está chegando perto dos mil exemplares vendidos – um número impressionante para um país como o nosso. Aliás, um número impressionante para qualquer país.

O que ele disse sobre toda essa discussão que se desenrolava no evento? Que não entendia a lógica, o motivo de ser dela. Afinal, imbuído do único desejo de contar a sua história, ele foi ao online descobrir uma solução que jamais existiria no mundo analógico, aprendeu a cativar uma audiência própria, feita de pessoas reais, conseguiu vender e, no processo, fez amigos que dificilmente cruzariam o seu caminho se ele se mantivesse apenas acomodado em um sofá velho reclamando da modernidade.

Sua conclusão? Só há uma maneira de viver hoje e ela não é nem online e nem offline: é onlife.

Nas palavras dele: “prenda-se ao passado e o máximo que você conseguirá publicar será a sua própria lápide”.

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A autopublicação e a Caixa de Pandora

Quando começamos o Clube de Autores, em 2009, havia um perfil quase monolítico de escritores com os quais nos deparávamos: o do “gênio ainda não descoberto” – com ênfase no “ainda”.

Até então, a principal barreira do mercado editorial era o acesso, era conseguir ter uma história devidamente publicada e disponível ao grande público. No imaginário do escritor desse passado recente, bastaria que algum ser inteligente o “descobrisse”, bancasse a sua publicação e pronto: o destino seria cumprido com o imediato povoamento de vitrines de livrarias com suas obras-primas.

Nossos tempos tem uma vantagem: hoje, eras inteiras passam em meses, semanas, dias, horas. 7 anos não costumam ser, ao menos normalmente, nada do ponto de vista de maturação de mercados. Mas esses últimos sete foram.

Nos primeiros dois ou três anos do Clube, uma tsunami de autores independentes passou a exibir os seus títulos. A autopublicação, supunham, viria como solução definitiva para aquele mecenas que teimava em não aparecer em seus caminhos. Mas publicar, infelizmente, nunca foi sinônimo de vender.

Quando as vendas não apareceram para todos, muitos passaram a buscar culpados externos em uma caça às bruxas pouco produtiva: os livros autopublicados eram caros demais, faltava alguém para “fazer o marketing”, faltava estar em uma livraria física, faltava apoio, faltava o mesmo mecenas de sempre.

O tempo foi passando.

Desse mundo de autores frustrados pelos baixos resultados de vendas, alguns decidiram parar de culpar o universo – mesmo porque isso não estava rendendo resultado algum – e começaram a tomar as rédeas dos seus próprios desejos. Acabaram concluindo que, se antes a barreira estava no acesso ao mercado – algo já ampla e gratuitamente viabilizado pela autopublicação – hoje a dificuldade residia na divulgação, no ato de fazer o seu livro ganhar os olhos dos seus leitores.

E, assim, eles foram usando as ferramentas que encontravam – de pequenos cursos online a blogs e redes sociais – para cuidadosamente formar os seus públicos e fazer as suas letras ganharem vida nos corações de leitores. Aos poucos foram entendendo como se divulgar, como cuidar de suas carreiras, como formar público, como não depender de absolutamente ninguém para ter sucesso.

Aos poucos foram colhendo resultados. Bons resultados, acrescento, do tipo que nem editoras mais tradicionais conseguem hoje.

Não digo aqui que haja uma receita simples para o sucesso: há muito mais do que o marketing para que um livro seja um best-seller. Seu texto precisa ser trabalhado, erros de português precisam ser aniquilados, a capa precisa ser sedutora e, sobretudo, o enredo precisa ser envolvente. E, enquanto alguns desses fatores realmente podem ser adquiridos online em sites como o Profissionais do Livro, outros dependem mesmo daquela matéria escura e possivelmente inata que perambula pela alma de alguns abençoados autores: o talento.

Mas há como nos sabermos talentosos? Dificilmente. Se ego inflado é pre-requisito para qualquer um que julgue que sua imaginação deva ser lida pelo mundo em um livro, como esperar que um escritor consiga se julgar “inferior” aos grandes mestres da narrativa? Até há casos assim – como Kafka que, antes de morrer, pediu ao amigo Max Brod que queimasse todos os seus textos. Mas Kafkas, tanto do ponto de vista de humildade quanto de talento, são raros.

Deixemos, portanto, essa capacidade de autoanálise de lado.

O fato é que o autor independente de 2016 é muito diferente do de 2009.

Hoje, aqui no Clube, vemos muito menos reclamações sobre um universo que conspira contra talentos individuais e muito mais esforço empresarial. É cada vez mais comum que autores entendam que estão vendendo “produtos”, por menos romântico que o conceito possa soar, e que precisam de públicos-alvo. É cada vez mais comum vermos lançamentos organizados diretamente por autores, capas bem trabalhadas que não nasceram das antigas (e naftalinadas) editoras convencionais, redes sociais sendo utilizadas como maneira de se cultivar a mesma audiência para a qual se pretende eventualmente vender algo.

O autor independente de 2016 está longe de ser aquele coitado abandonado de 2009: as agruras da realidade acabaram forjando nele a necessidade de se transformar em empreendedor que ousa, que aposta, que confia em si mesmo e que prefere não depender de ninguém por ter a perfeita noção de que somente ele conseguirá levá-lo até onde deseja chegar.

O resultado dessa mudança de postura?

Vendas.

Quando autores independentes viram empreendedores independentes, tudo muda. Eles conseguem seu espaço, sua audiência. Eles conseguem escoar suas histórias para um mundo que está sempre disposto a receber boas histórias.

E o resultado coletivo desse sucesso individual que muitos já começaram a colher por aqui?

Uma evolução sem paralelos em nossa força cultural. Uma revolução, eu diria.

Afinal, só com autores independentes há mais histórias brasileiras sendo publicadas e lidas. Há mais manifestações culturais.

Há menos estrangeirizações.

Há mais crescimento da brasilidade.

Há mais Brasil.

Quando começamos o Clube de Autores, lá nos longínquos idos de 2009, nem poderíamos imaginar o tamanho da Caixa de Pandora que estaria sendo aberta.

Ainda bem.

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Qual o papel dos bibliotecários na era digital?

Imaginar que, em plena era da informação, com ebooks e catálogos impressos disponíveis sob demanda, o papel de um bibliotecário será o mesmo de 30 anos atrás, é certamente um erro grosseiro. Por outro lado, acreditar que não há mais espaço para este profissional é também outro erro.

O principal motivo, ao menos em minha opinião, é que o papel do bibliotecário – de certa maneira, assim como o do professor – deixou de ser o de organizar conhecimento de maneira quase procederam e passou a ser o de guiar o interessado em um tema pela selva de conteúdo em torno dele. Repito algo que já disse diversas vezes: em nossos tempos, conteúdo deixou de ser escasso e passou a ser abundante – o que apenas mudou a cara do problema (e não o eliminou).

Exemplifico: imagine que voce queira pesquisar um determinado assunto, seja para escrever um livro novo, seja para estruturar um trabalho acadêmico ou seja por pura curiosidade. Sim: você pode sempre ir ao Google e nadar por conta própria.

Mas e se voce pudesse ir a um espaço contar com um profissional experiente, capaz de te guiar pelas fontes mais relevantes e pelos autores mais experientes? E se ele conseguir ainda garantir um espaço praticamente feito para se absorver conhecimento, como são algumas das mais modernas bibliotecas do mundo? Nesse aspecto, o bibliotecário é uma espécie de curador ultra dinâmico de conteúdo: e sempre haverá papel para bons curadores.

E por que estou escrevendo isso? Nos Estados Unidos, o Wall Street Journal publicou uma matéria que praticamente enterrou bibliotecários, condenando-os ao mais certo ostracismo. E é claro que isso gerou um debate poderoso, incluindo uma carta resposta da American Libraries Magazine.

Debates são sempre bons, são sempre positivos. Nos permitem ver ambos os lados, instigam a mente, nos fazem pensar. Infelizmente, os artigos estão apenas em inglês: mas recomendo fortemente para quem conseguir lê-los que o faça. Os links estão neste próprio post, no parágrafo de cima, e também podem ser acessados clicando na imagem abaixo.

A pergunta que fica é: o que deve mudar na maneira com que nos guiamos pelo conhecimento em tempos tão dinâmicos quanto os nossos? Quais instituições devem sobreviver – e que adaptações elas terão que fazer, no melhor estilo do darwinismo, para se salvar da extinção?

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O hipertexto contra o tempo

É inegável que autores como Machado de Assis sejam uma referência para a literatura brasileira – da mesma forma que textos como os de Kafka, Nietzsche, Goethe, Balzac, Camões e tantos outros marcaram de maneira definitiva a história de seus povos e do mundo inteiro.

Mas todas as obras são, por natureza, vítimas do tempo em que foram escritas. Por situarem-se em tempos e espaços compatíveis com a realidade ou imaginação de seus autores, a imensa maioria dos livros carrega referências de fundamental importância para a própria compreensão dos textos que as encerram.

Na medida em que o tempo vai passando, é natural que parte dessas referências vá deixando de existir ou simplesmente mudando – o que faz com que a interpretação do leitor se descole dos conceitos originais e acabe prejudicando a compreensão como um todo. Quer um exemplo?

Uma das obras primas de Kafka se chama “O Castelo”. O título faz referência a um castelo que observa, do alto, toda a cidade de Praga – ostentando um ar macabro, sombrio e quase intimidador. Se o leitor do Castelo for a Praga nos dias de hoje terá dificuldades em entender o título: um dos maiores centros turísticos europeus, o local é hoje colorido, alegre, repleto de flores e de pessoas sorridentes caminhando por entre as suas ruelas e corredores.

O mesmo tipo de problema pode ser aplicado a referências históricas, endereços e mesmo a conceitos que já deixaram de fazer parte do nosso cotidiano. Isso significa que a compreensão de obras primas escritas no passado está prejudicada de maneira irreversível?

Não. Significa apenas que é necessário que o leitor se contextualize enquanto estiver lendo.

Uma iniciativa da Fundação Casa de Rui Barbosa, com apoio do CNPq e da FAPERJ, tem justamente o intuito de ajudar o leitor nessa tarefa. Batizado de “romances em hipertexto”, o site se utiliza de recursos da própria Web para grifar verbetes ou termos específicos cuja compreensão seja importante para a leitura, definindo-os de maneira suscinta e prática. Em outras palavras, quando Machado de Assis faz referência à Aljube, basta passar o mouse sobre o termo para ver que se trata de uma cadeia antiga, extinta mesmo em sua época, e que nasceu para prender membros do clero. E tenha certeza: saber isso muda toda a compreensão do texto!

Esse tipo de funcionalidade – que já está presente também em boa parte dos leitores de ebooks – é certamente um passo importante para se perenizar ainda mais a literatura produzida no mundo, da qual todos nós, autores, somos legítimos representantes.

Enquanto o ano não vira, visite o site e conheça alguns romances em hipertexto clicando aqui, no linkhttp://www.machadodeassis.net/hiperTx_romances/index.asp ou na imagem abaixo!

 

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