Oi, dezembro

Não vou fazer aqui um post de final de ano – ainda temos um longo mês pela frente.

Mas vou me permitir ficar um pouco embasbacado hoje, primeiro dia útil de dezembro, último mês do mais longo ano que já vivemos aqui no Clube.

Porque houve de tudo.

Houve os acordos que fizemos com livrarias e marketplaces que mudaram de maneira tão decisiva a nossa própria história.

Houve o lançamento de projetos inovadores muito peculiares, alguns com sucesso e outros com fracasso.

Houve a Copa do Mundo.

Houve a eleição em seus dois turnos, transformando o país inteiro em um caldo gástrico borbulhante.

Houve o começo dos acordos que possibilitarão ao Clube uma expansão internacional que já sonhávamos faz tempo.

Houve recordes impressionantes para nós, que nos descobrimos desbravando fronteiras até então distantíssimas em nosso imaginário.

Houve best-sellers que se consagraram por aqui.

Houve promessas que não se concretizaram.

Houve pedidos de recuperação judicial das duas maiores livrarias do país, garantindo um futuro no mínimo repleto de (bem vindas) aventuras selvagens para todo o mercado.

Houve de tudo.

E, bom… estamos agora aqui, às portas do último mês.

Será um mês rápido como costumam ser todos os dezembros? Duvido.

Pelas nossas contas, se os últimos 11 meses levaram algo como 11 anos para passarem, imagino que dezembro levará pelo menos um ano inteiro.

Aproveitemo-lo.

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Zeitgeist e a inspiração que nasce dos tumultos de nossos tempos

Zeitgeist é uma palavra alemã que significa “espírito do tempo”. Sua aplicação prática: entender qual o conjunto de valores que está efetivamente movendo uma sociedade em um dado momento para que se consiga tomar proveito disso.

O “tomar proveito”, nesse caso, significa surfar a onda de uma comoção popular já formada e, portanto, deixando algo que se queira vender (seja um produto ou uma história) com uma vantagem fundamental. E, apesar do conceito parecer recém saído das páginas de um livro de marketing, ele já era essencial há séculos.

Tome Shakespeare, por exemplo.

Todas, absolutamente todas as suas grandes peças tiveram os seus enredos baseados em fatos que estavam mexendo com o imaginário popular. Othello foi escrito quando Elisabeth I expulsava os mouros de Londres; o Rei Lear se baseou em um caso jurídico real que se transformara na grande fofoca do reino; MacBeth foi feita para celebrar, por meio de metáforas, a linhagem do monarca James I , para quem a peça foi escrita.

A receita de Shakespeare sempre foi simples (o que, ressalvo, não subtrai em nada a sua genialidade): entender o que estava movendo o povo e criar uma peça que metaforizasse o momento para angariar um tipo mais entusiasmado de atenção.

O bardo, no entanto, viveu em um tempo de poucas imensas mudanças sociais – o oposto do nosso.

Nossos tempos são mais agitados: há pequenas revoluções, por assim dizer, acontecendo a cada par de dias. Olhe para a política brasileira: não há uma só semana em que tudo não esteja na iminência de uma ruptura completa.

Olhe a política americana: não dá para dizer que a eleição de Trump, com todas as suas promessas xenófobas e radicais, vá pacificar o planeta.

Olhe para os refugiados do Oriente Médio, para a falta de preparo da Europa em recebê-los e para o absoluto caos gerado por causa disso. Olhe para o Brexit.

Olhe ao seu redor.

O mundo tende a ser um lugar muito, mas muito mais tenso do que o que já foi em qualquer ponto do passado pós revolução industrial.

E por que isso tem alguma relevância em um blog que gira em torno de escritores?

Porque, se me permitem a frieza, nunca um mundo entregou tanto zeitgeist e tanta inspiração para histórias.

Esse lugar quente, feito de cataclismas semanais e de radicalismos diários, é uma espécie de paraíso para mover mentes e corações e gerar clássicos talvez muito mais intensos que os da Inglaterra Shakespeariana.

Para quem está do lado de cá da tela, apenas acompanhando a literatura moderna enquanto ela se forma, é um tempo que se pode traduzir no mais puro entusiasmo.

Para quem está do lado daí, torna-se cada vez mais imperativo saber como aproveitar bem esse nosso mundo tão inclinado a se revolucionar.

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Por dentro da revolução egípcia

Sim: o que está acontecendo no Brasil, por mais que tenha o potencial de mudar radicalmente o país, está longe do caldo caótico que ocorreu, por exemplo, no Egito, com derramamento de sangue, prisões (realmente) políticas e tudo mais. 

Já falei isso no post da quarta passada, quando esclareci que, em minha humilde opinião, o que está acontecendo aqui é uma revolução à brasileira. Por mais que o desenrolar de uma revolução dependa de fatores que incluem história e cultura locais, há sempre paralelos que podem ser traçados.

E revoluções são um pano de fundo perfeito para se contar histórias, se registrar eventos (fictícios ou não) e deixar para as gerações futuras uma noção mais concreta do que realmente aconteceu em nossos estranhos tempos. 

E por que digo tudo isso? Por conta desse depoimento que inlui um olhar interno sobre a revolução egípcia. Ela pode ter muito pouco a ver com a nossa – mas, ainda assim, tem uma infinidade de aspectos semelhantes que merecem atenção. 

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