Percebendo a percepção

Sempre tive como verdade absoluta que percepção é tudo – e que percepção é sempre relativa.

Tudo, no final das contas, depende de como o nosso cérebro cruza informações e experiências para gerar opiniões. Não é por outro motivo, aliás, que todos sempre temos opiniões fortes sobre tantas coisas.

Um programa na BBC fez uma espécie de metáfora mais dura com isso, forçando o cérebro a enxergar em cores uma imagem em preto e branco. Veja o vídeo e abstraia esse experimento para as nossas visões de mundo.

Antes, uma explicação técnica: esse fenômeno que você testemunhará no vídeo tem a ver com nossas “células cone”, um dos dois tipos de fotoreceptores em nossa retina e responsáveis pela visão a cores.

Temos três tipos de cones sensíveis a ondas de luz azuis, verdes e vermelhas. Quando somos expostos em excesso a uma única cor, o cone ligado a ela fica superestimulado, “cansado” e deixa de “responder”. Isso te deixa apenas com os outros dois tipos de cone temporariamente, o que, consequentemente, o faz enxergar as cores complementares (como vermelho versus verde ou azul versus amarelo).

Depois de alguns segundos, os cones voltam a funcionar normalmente e pronto.

Abstraindo o experimento, é o mesmo que acontece quando ficamos expostos em demasia a uma única visão de mundo: nos cansamos e passamos a ver “o outro lado”. Lembra de Laranja Mecânica, que “tratou” o protagonista estuprador com uma overdose de cenas de sexo? A mecânica é a mesma.

Para ajudar: ao ver o vídeo abaixo, haverá um momento em que você verá uma bola azul no centro da imagem. Foque-se nela e percebe como verá a imagem “preto e branca”.

 

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Sobre ser e existir, parte 2

Continuação do post da quarta passada, que termina mais ou menos assim: 

Se existir é ter os contornos reais necessários para mudar o mundo a partir de impactos causados, então personagens são tão reais quanto qualquer outra pessoa de carne e osso.

Essa frase fica ainda mais verdadeira quando se muda o condutor do nosso pensamento para a física.

Normalmente, nos habituamos a prender a nossa percepção de existência à biologia.

Tomemos como exemplo o José da Silva: um lavrador sul matogrossense que nasceu em 3 de agosto de 1912 e morreu em 7 de julho de 2001.

Nos seus 89 anos de vida, José da Silva comeu, cuspiu, falou, casou, teve filhos, amou, sofreu e, por fim, morreu. Foi enterrado no pequeno cemitério de Corguinho, uma vila minúscula longe de tudo. Hoje, José da Silva segue o destino de todos nós: decompõe-se rapidamente em outras formas de matéria até virar, no longuíssimo prazo, poeira cósmica.

No mesmo ano em que José da Silva nascera, Franz Kafka escrevera sua obra prima: a Metamorfose. Não entrarei nos pormenores do clássico aqui, mas basta dizer que se trata da história de um Gregor Samsa que, um belo dia, acordou para se ver metamorfoseado em uma horrenda barata.

Gregor Samsa, claro, nunca existiu no sentido biológico: o oxigênio da nossa atmosfera nunca perambulou pelos seus pulmões. Mas, independentemente disso, ele foi gerado, ele teve um pai, ele foi fruto da energia criativa de um escritor. E mais: na medida em que sua história segue sendo lida por milhões de leitores mundo afora, essa energia perdura, viaja por ondas cerebrais diversas, muda percepções, inspira, transforma. Eventualmente, no entanto, a história de Gregor Samsa fatalmente cairá no esquecimento – e sua energia se decomporá até se transformar no mesmo tipo de poeira cósmica que também definirá o futuro de José da Silva.

A conclusão mais óbvia que se pode chegar aqui? Que, embora pessoas sejam feitas de matéria e personagens, de energia, todos tem o mesmo destino. Há inclusive um sujeito que colocou tudo na mesma fórmula: Einstein. A fórmula? E=MC2, que basicamente prova que matéria e energia são apenas formas diferentes da mesma “coisa”.

Sob esse aspecto, não parece de uma ingenuidade bossal considerar como existente apenas seres que respiraram por 80, 90 ou até 100 anos – uma fração de nada, considerando os 13,54 bilhões de anos do universo?

Não seria mais correto definir a existência como qualquer coisa – seja material ou energética – forte o suficiente para causar algum impacto transformador, por menor que seja, no Universo?

Volto, pois, à frase de abertura deste post:

Se existir é ter os contornos reais necessários para mudar o mundo a partir de impactos causados, então personagens são tão reais quanto qualquer outra pessoa de carne e osso.

 

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Sobre ser e existir, parte 1

O Sr. Biswas era um indo-caribenho azarado, zangado, sempre às turras com o próprio destino que o catapultara para dentro de uma família cuja característica mais marcante era a capacidade de oprimir qualquer traço de independência individual. Passara a sua vida em busca do seu próprio lugar e experimentara de tudo: fora pintor de sinais, dono de uma pequena mercearia, feitor em uma plantação de cana de açúcar, jornalista. Mas fora, sobretudo, protagonista de uma trama extremamente bem elaborada sobre a busca da autodescoberta em meio à abafada ilha de Trinidad dos anos 40.

Ruth Swain, por sua vez, já era mais otimista – embora suas condições fossem para lá de tenebrosas. Abraçando uma doença gravíssima desde a pre-adolescência, ela cresceu vendo a chuva da Irlanda moldar histórias e destinos a partir da cama do seu quarto. Remoeu as tragédias familiares, voou até o passado longínquo, caminhou nos passos do pai, lamentou a morte do irmão, entendeu que cada um deles existe apenas porque suas histórias foram contadas.

Anos antes, da então quase macabra cidade de Praga, um Gregor Samsa atônito acordou para se ver metamorfoseado em uma barata. Muitos dos humanos modernos certamente entrariam em um pânico existencial incontrolável – mas Gregor passou seu tempo de inseto remoendo aquelas pequenas e sufocantes necessidades cotidianas como contas a pagar, família a sustentar, emprego a manter.

Mas o que há de semelhante entre um indo-caribenho da década de 40, uma irlandesa da década 80 e um tcheco do começo do século XX?

Em tese, as suas inexistências. O primeiro, Sr. Biswas, é protagonista da obra prima de V. S. Naipaul (Uma Casa para o Sr. Biswas); Ruth Swain, da maravilhoso A História da Chuva, de Niall Williams; e Gregor Samsa, claro, do grande mestre Franz Kafka.

Mas, embora inexistentes, suas histórias chegaram a mais olhos e ouvidos, ajudaram a formar mais pensamentos e mentes, do que muitos dos seres humanos “reais” que viveram ruminando seus tempos na terra nesse mesmo período. Quantos foram os Josés, as Marias, as Martas e os Antônios que nasceram, cresceram e morreram deixando impressões tão fortes no mundo quanto Biswas, Swain e Samsa? Pouquíssimos, eu arriscaria dizer.

E por isso a inexistência dos personagens é apenas uma tese vazia, ôca, aceitável apenas perante os olhos toscos dos que desconhecem qualquer capacidade mínima de percepção sobre a vida, a realidade e, portanto, a existência.

Se existir é ter os contornos reais necessários para mudar o mundo a partir de impactos causados, então tanto esses quanto quaisquer outros personagens são tão reais quanto qualquer outra pessoa de carne e osso.

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A diferença entre a verdade e o real

O livro no qual eu estou trabalhando parte de uma série de biografias. São histórias verdadeiras, vividas por personagens verdadeiros entre 1911 e 2017 – e captadas a partir de todo um monumental esforço envolvendo pesquisas, entrevistas e investigações.

Esse trabalho foi, de certa forma, revelador para mim: me ensinou a diferença entre o real e a verdade.

Explico-me: no final, toda a soma das investigações geraram uma linha de tempo. Uma linha de tempo detalhada e recheada de fotos e relatos, indubitavelmente. Mas, ainda assim, uma linha de tempo que cabe em umas duas ou três páginas.

Linhas do tempo, concluí, são as verdades – os fatos inquestionáveis, documentados, indiscutíveis. Mas eles não são o real.

E não o são porque o real é sempre, sempre, uma história. É o que acontece entre um fato e outro em uma linha de tempo, é a cola entre os fatos, o conjunto de emoções, sensações e conflitos que geraram os marcos.

O problema disso em biografias? Por mais que verdades sejam quase sempre fartas e documentadas, o real sempre depende muito mais de interpretações e relatos que, na medida em que o tempo passa, vão ficando cada vez mais rarefeitos.

E é aqui que entra o papel do biógrafo: usar o seu poder de construção de narrativas e a sua capacidade de dedução para criar colas e transformar verdades no real, na história que efetivamente entrará pelas pálpebras das pessoas e se imortalizará como “o que realmente aconteceu”. Porque, queiramos ou não, não se pode negar uma coisa: o que fica na eternidade, o que é entendido como o real, nunca é um punhado de dados e datas: é a história melhor contada – aquela carregada de tramas e dramas, de tons muito mais cinzas do que pretos no branco. De tons que tendem a sair muito mais da imaginação do escritor do que de qualquer minuciosa análise do passado.

Voltando ao ponto original do post: qual a diferença entre a verdade e o real? A verdade, os dados indiscutíveis, pontuais, factuais, são a única coisa que efetivamente se pode provar que aconteceu; mas o real, a história que une os fatos e os cola em uma narrativa única, depende muito mais do contador da história do que de sua cronologia – e, portanto, embora estejam naturalmente sujeitas a vieses, é o que eterniza-se como o que “realmente aconteceu”.

Fiz um post dia desses falando que “somos as nossas próprias histórias”. Retifico-me: na verdade, somos as histórias que contam sobre nós.

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Há como escrever biografias reais?

Sim, eu sei que a pergunta é difícil – e já peço desculpas aos biógrafos que aqui me lêem.

Mas, recentemente, estou mergulhado de cabeça na tarefa de escrever a biografia de um atleta sul africano e heróis de guerra, um tal de Phil Masterton-Smith.

Mergulhado é pouco: já conversei com a irmã de 94 anos dele diversas vezes, já fiz amizade com sobrinhas e familiares, já bati papo com colegas de regimento, já capturei documentos oficiais da Segunda Guerra, já até me planejei para repetir um dos seus feitos, pedalar 1700km pela África em 10 dias e correr uma ultramaratona de 89km no dia 11.

E a história, modéstia à parte, está mesmo tomando uma forma belíssima. Mas sabe onde essa dúvida do título me bateu?

Nas partes entre datas e fatos documentados. Biografias, concluí, são sempre compostas de três partes: os inegáveis fatos, os dedutíveis pensamentos e as filosofias de vida quase sempre obscuras, íntimas demais para se fazerem realmente sabidas.

O que Phil, por exemplo, estava pensando antes de embarcar em um ou outro caminho de sua vida? O que ele buscava, realmente? E do que era composta aquela “matéria negra” tão vasta, tão maior, que circundava cada decisão sua.

No meu caso – como no caso de qualquer biógrafo – não há como saber.

Há, no entanto, como projetar, como encaixar filosofias entre ações, fatos e dados do biografado. A grande questão é que, no fundo, essas filosofias partem invariavelmente de uma única pessoa: do autor.

Assim, um biografado não é apenas uma pessoa real, que viveu sua vida e fez suas coisas: ele é também, ainda que em parte, um personagem de ficção, parido e criado pela mente do seu autor.

Volto, portanto, à pergunta do título: há como escrever biografias reais? Minha conclusão: não.

Biografias, no final, são sempre peças de ficção baseadas em fatos verdadeiros.

Mas a história da humanidade inteira não é também escrita exatamente desta forma?

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