Como criar um personagem para seu livro?

Não há como conceber boas histórias sem bons personagens

Sim: generalizações são sempre perigosas justamente por abolirem, de certa forma, a possibilidade da exceção. Mas pare e pense um pouco: qual o livro que realmente entrou para a história com personagens simplistas, hiper superficiais e pouco críveis? Pouquíssimos, se algum.

E há um motivo óbvio para isso: histórias são sempre formadas por históricos, por linhas de tempo cruzadas de personagens que incluem os passados individuais que os formaram, os encontros que fundiram contextos, as possibilidades de futuro que se desdobram nas tramas.

Assim, por mais fantasiosa que seja uma obra, acreditar na profundidade de um determinado personagem, no seu realismo condizente com o bom senso geral, acaba sendo fundamental para que um livro vá além de um punhado de páginas soltas.

E perceba que não estamos falando aqui apenas do protagonista ou antagonista principais: falamos de todos, absolutamente todos os personagens que compõem uma determinada obra, por mais coadjuvante que ele seja.

A Lei de Tchekhov e a necessidade de relevância em todos os elementos da história

Um dos maiores dramaturgos da humanidade, o russo Anton Tchekhov, descreveu uma espécie de “lei literária” que diz que, se uma arma aparece sobre uma mesa na segunda cena de uma peça, é porque ela fatalmente será disparada até a quarta cena.

Há uma lógica nisso: todo e qualquer elemento inserido em uma história acaba fatalmente “servindo” para algo e levando o leitor e chegar a construir uma determinada expectativa ou a chegar a uma determinada conclusão sobre algo. Há pouco espaço para inutilidades em um livro – em grande parte porque inutilidades desviam o foco e acabam matando o interesse e o engajamento do leitor na medida em que ele vai se perdendo na trama.

E por que estamos falando disso aqui? Porque o mesmo raciocínio deve ser aplicado a personagens. Personagens inúteis, daqueles que aparecem e somem de uma história praticamente sem causa efeito na trama, devem ser eliminados. por completo. Colocando de outra forma: se há alguém na história, esse alguém deve cumprir algum papel, ainda que secundário, na trama; e, se há um papel a ser cumprido, esse mesmo alguém, precisa ser minimamente crível pelo leitor.

Como garantir a densidade de um personagem?

A primeira resposta é tanto óbvia quanto inútil: pelo bom senso. Ela é óbvia porque tudo em um bom argumento depende do bom senso; ela é inútil porque, normalmente, todos sempre acreditam piamente que são os únicos detentores domador bom senso do mundo, o que invariavelmente joga o conceito na lata de lixo.

Mas há algumas práticas que podem ajudar bastante, incluindo:

Coerência

Personagens são seres, humanos ou não, dotados de características que os fazem agir de uma determinada maneira ao longo de uma narrativa.

O que os move, o que faz com que eles ajam de uma ou de outra maneira, quase sempre tem a ver com as suas próprias personalidades. Esse é um ponto de suma importância: as personalidades de cada personagem precisam ser bem definidas e mantidas ao longo da trama.

Veja: não é que uma pessoa vingativa por natureza não possa se arrepender e agir de uma maneira mais altruísta – praticamente todas as histórias do Charles Dickens tem uma ou outra mudança drástica de comportamento de um ou mais de seus personagens chave. Todos podem mudar – mas desde que os motivos, os gatilhos para uma mudança de comportamento, sejam nítidas e fortes o bastante para justificá-la.

Em outras palavras: estamos falando de coerência. Se não garantirmos que nossos personagens não tenham coerência, perderemos nossos leitores.

Passado

Sendo personagens, eles também costumam ter os seus próprios passados: suas coleções de pequenas (ou grandes) vitórias e derrotas pessoais que, no final das contas, acabou forjando os seus caráteres.

Não precisamos sempre descrever o histórico de um personagem à exaustão – mas precisamos, ainda que para nós mesmos, ter claro esse passado como maneira de garantirmos que manteremos a sagrada coerência.

Contexto e momento

Todas as pessoas do mundo mudam de acordo com as circunstâncias. Pegue a mais bondosa das criaturas e coloque-a na mais dramática e negativa das situações e certamente algumas gotas de egoísmo aparecerão até como maneira de sobrevivência.

Respeite essa tridimensionalidade, esse contexto que pode curvar ou mudar qualquer personalidade.

Mas, em paralelo, construa cada contexto como uma soma de momentos. Evite catapultar personagens para dentro de uma história assim, no susto, sem respeitar as regras mínimas do bom senso. Introduza-o na história com coerência, garantindo as circunstâncias percebidas como mais realistas para a sua presença.

E, claro, dê motivo para a sua presença (observando a Lei de Tchekhov) e crie as devidas conexões entre ele e os demais personagens.

Contexto e momento: muito do sucesso de uma história depende desses dois fatores.

Questionário para a construção de um personagem

Se você respeitar esses três elementos acima (e observar a sagrada Lei de Tchekhov), serão imensas as chances de ter em seu livro personagens sólidos, densos e críveis.

Mas há ainda como ir um pouco além. tome qualquer personagem seu e tente enquadrá-lo no questionário abaixo. Se quiser, você pode até responder formalmente a ele (nem que seja para os personagens principais como forma de garantir mais realismo a eles) – mas, normalmente, basta que consiga endereçar cada uma das questões mentalmente.

Se conseguir fazer isso, perfeito: seu livro estará muito mais próximo do sucesso.

Qual a necessidade do personagem para a história?

Como ele é?

Como ele muda ao longo da história?

Quais as suas características físicas (idade, peso, porte, raça, gênero sexual etc.)

Onde nasceu e onde vive?

Se vive em um lugar diferente de onde nasceu, o que o fez se mudar?

Qual o seu nível de inteligência?

Qual a sua relação com a própria família?

Quais os seus amigos e inimigos mais próximos ou importantes?

O que o motiva?

O que o assusta/ amedronta?

Como ele enxerga o mundo?

Como ele age perante os desafios que aparecem em sua vida?

Que outras características você considera como importante?

Bons personagens bastam para um bom livro?

Certamente que não – mas são um passo importante. Um bom livro tem outras muitas características que também precisam ser observadas – como essas aqui, nesse post, que recomendamos fortemente a leitura.

E isso sem contar com outros fatores que vão além da escrita em si, como diagramação, leitura crítica, revisão, capa etc. Nesse sentido, recomendamos também que você acesse esta página aqui, que concentra uma série de conteúdos importantíssimos para garantir que seu livro saia exatamente como você deseja.

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Como escrever um livro de romance

O que você deve levar em conta ao escrever uma história de amor?

Antes de começar este post, cabe de imediato um esclarecimento: um romance não é, necessariamente, um livro de romance. Por algum motivo qualquer, no nosso idioma, um romance é todo e qualquer livro, em prosa, que narre uma história (mesmo que ela sequer contenha menções a amor ou coisas do gênero). Um livro de romance, no entanto, já envolve, sim, histórias de amor. E é deles que falaremos aqui.

Primeiro, porque mais de 25% de todos os livros publicados aqui no Clube são relacionados, de alguma forma, ao amor. E, segundo – mas não menos importante – pelo óbvio: o amor é, provavelmente, o mais importante dos assuntos da humanidade e o único ao qual todos da nossa espécie, de alguma forma, têm algum tipo de experiência ou vivência pessoal. E, se somos uma espécie que se diferencia das demais justamente pela nossa capacidade de contar histórias, nada mais natural que escolhermos como base para elas o mais universal dos assuntos: o amor.

Exemplos de obras primas não nos faltam: Machado de Assis esculpiu Bentinho e Capitu em um extremo, Guimarães Rosa entregou Riobaldo e Diadorim em outro, Hemingway, Garcia Marquez, Pamuk, Kazuo Ishikuro e tantos mais nos brindaram com as maiores pérolas da literatura baseadas justamente nesse gênero máximo.

Mas, se amor é um sentimento universal, a técnica de se estruturar um romance envolvente certamente é bem mais individual. Basta, aliás, comparar alguns desses exemplos que citei acima. Por mais incríveis que sejam, em nada o platonicismo do Amor nos Tempos do Cólera (Garcia Marquez) sequer se assemelha com a distopia de Não me Abandone Jamais (Kazuo Ishiguro). ainda assim, ambas são obras primas indiscutíveis.

E aqui entramos com um punhado de dicas (ou boas práticas) algo que, se não servirão como livro de receita – pois não há receitas aqui – certamente ajudarão a inspirar ou ao menos a “guiar” o escritor.

1. Leia muito, muito, MUITO.

Esse negócio de querer escrever e não gostar de ler é algo simplesmente desfuncional. E mais: as desculpas comuns (como falta de tempo) são ridículas. Sempre, sempre se arruma tempo para o que se realmente deseja fazer. É tudo uma questão de prioridades.

E se você quer ser um escritor, o primeiro passo é abraçar a leitura de todas as formas. Cada vez que você mergulhar em um universo criado por outro autor, afinal, você terá uma aula de estilo, de construção de trama, de personagens. Você pode não encontrar o seu estilo neles, mas certamente colecionará exemplos que o ajudarão a entender o que prende o leitor.

Nesse sentido, dê bastante espaço para os clássicos, os livros que se imortalizaram no tempo. O motivo? Se u Dom Quixote, para ficar em um exemplo, está há séculos encabeçando a lista dos mais vendidos da história da humanidade, é certamente pela capacidade narrativa de Cervantes.

Aproveite: os melhores professores do mundo, afinal, estão logo ali, na livraria mais próxima de você.

2. Viva na realidade, não na utopia

A maior diferença entre realidade e utopia é a complexidade. Em utopias, tudo funciona como um reloginho: quem ama é sempre correspondido, os conflitos são superficiais, mesmo os problemas são de uma facilidade irrealmente ingênua.

Bom… a vida não é assim e o leitor sabe. A consequência: a capacidade de retenção de atenção, de engajamento, despenca.

E é precisamente isso que desejamos evitar ao mergulhar mais a fundo na realidade. Ao estruturar uma trama qualquer, baseie-se no mundo real: agregue complexidade, contratempos, dificuldades e, em suma, “normalidade”. Deixe seus personagens mais tridimensionais, com qualidades e falhas, acertos e erros.

Se, ao terminar uma leitura crítica, você sentir que algo estiver perfeito demais para ser verdade, sente e reescreva. A verdade é o que mais se deve buscar em um livro, mesmo que seja uma ficção.

3. Cace o espírito do tempo

Sabe uma das principais regras que Shakespeare utilizava para compor as suas peças? Ele sempre, sempre criava alguma trama com base nos “trending topics” da Inglaterra. Othello foi escrito quando Elisabeth I expulsava os mouros de Londres; o Rei Lear se baseou em um caso jurídico real que se transformara na grande fofoca do reino; MacBeth foi feita para celebrar, por meio de metáforas, a linhagem do monarca James I , para quem a peça foi escrita.

O que aprendemos com o grande mestre? Simples: que um pano de fundo popular, principalmente quando assume proporções gigantescas, é perfeito para fazer a audiência se conectar com a trama e se deixar envolver pelas histórias dos personagens.

4. Não há boas histórias românticas sem grandes conflitos

Tá… talvez até haja uma ou outra que não tenha me ocorrido – mas o fato é que são raras. O que envolve o leitor, afinal, não é a estrutura do personagem em si, mas sim as suas reações seguindo momentos de conflitos internos e externos.

Naturalmente, quanto mais conflitos, mais fácil construir reações à altura (desde que sejam consistentes com a personalidade dos personagens.

5. Crie personalidades para seus personagens

Entramos em um quinto e fundamental ponto aqui: personagens não devem ser descritos apenas como rostos e atitudes. Todos devem ter um passado próprio, um histórico que dê consistência a cada uma de suas atitudes quanto a tudo.

Não que você precise, claro, se alongar infinitamente nos detalhes da infância de um personagem secundário – a questão não é essa. Mas, na medida em que um personagem vá ganhando prioridade na história, a importância de fazer o leitor entender o seu passado vai ficando cada vez mais relevante. Somente assim, afinal, aquele senso de intimidade entre leitor e protagonistas vai ganhando um espaço fundamental para que o engajamento com a história seja efetivamente construído.

Quer uma dica? Monte uma linha de tempo e um resumo da história de cada um dos seus personagens antes de se alongar muito na trama. Pode ser que você nem utilize partes desse histórico mas, no mínimo, ele servirá para garantir que você não coloque ações e palavras na boca de um personagem que dificilmente as executaria.

6. Cuidado com o piegas

Um dos maiores riscos de um livro de romance é deixá-lo escorregar para o piegas, forçando a barra em situações naturais e trocando a densidade pelo sentimentaloidismo.

A solução, aqui, normalmente foge de algo que o próprio autor possa resolver sozinho: envolve um leitor crítico.

Há, normalmente, dois caminhos aqui: selecionar um ou mais amigos críticos ou contratar um crítico literário. Seja qual for o caminho, o importante é que você escolha alguém realmente crítico em quem confie (evitando envolver alguém que você sabe que vai te elogiar livremente pela própria relação que já tenham) e que deixe de lado o ego (preparando-se para receber e lidar com eventuais críticas mais pesadas).

Esteja disposto a reescrever trechos inteiros do seu livro, aliás. E entenda que isso faz parte do processo.

7. Siga todas as outras recomendações que servem para todos os outros gêneros

Isso pode parecer genérico demais (e talvez seja mesmo)… mas já escrevemos aqui uma série de dicas importantes sobre como escrever um livro que se aplicam tanto a romances quanto a outras temáticas diversas. Elas incluem, por exemplo:

Como escrever um livro

Como lançar um livro sem burocracia

Como publicar um livro no Clube de Autores

E agora? O que fazer? 

Bom… a parte mais complexa de se escrever um livro, naturalmente, é sentar e escrevê-lo! Esse compilado de dicas aqui deve ser visto mais como uma espécie de caminho, de recomendação nossa com base na experiência de lidar com mais de 70 mil títulos e de ler muitos, muitos livros – principalmente de romance.

Mas nada, nada substituirá a sua própria veia de escritor. Assim sendo, procure ao menos observar as nossas recomendações e mergulhar na sua própria trama. Do nosso lado, desejamos toda a sorte do mundo e esperamos tê-lo publicado aqui, no Clube de Autores!!!

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Como escrever um livro infantil

Qual o segredo de capturar a atenção de crianças para uma história?

Em primeiro lugar, é fundamental já deixar claro que gerações diferentes não são espécies diferentes. Ou seja: por mais que as crianças, hoje em dia, estejam sujeitas a um volume abundante e excessivo de informação 24 horas por dia, isso não faz delas alienígenas ou robôs. Crianças continuam sendo crianças: precisam (e gostam de) desenvolver a própria imaginação, sonham, criam mil teorias para tudo em suas cabecinhas e, acima de qualquer coisa, são hiper-criativas.

“Ah, mas com tantos tablets e games, certamente o espaço para livros despencou!”, exclamam os profetas da negatividade. Bom… eles estão errados. Muito errados.

Quebrando mitos: sim, crianças não apenas continuam lendo livros, como o fazem em muito maior intensidade que nas gerações passadas

Aliás, uma pesquisa de 2017 da Education Week revelou que crianças (do pre aos 12 anos) não apenas estão lendo mais, mas 65% preferem impressos a ebooks. Se deixarmos os fatalismos de lado e pararmos para pensar (e observar), isso faz total sentido:

  1. Para quem nasceu na era digital, o meio importa pouco – desde que a história seja contada. Isso significa que o fascínio pela tecnologia está muito mais nos adultos do que nas crianças, que já nasceram em um mundo eletrônico.
  2. Do ponto de vista de storytelling, de narrativa, um livro permite se atiçar muito mais a imaginação do que um ebook interativo, um game ou mesmo uma animação. O motivo? Enquanto, em um game, a criança se concentra em descobrir onde ela precisa clicar e, em uma animação, ela recebe os personagens já imaginados por vozes, trilhas sonoras e tons, no livro é ela quem precisa contribuir com a sua imaginação para interpretar a história.
  3. O volume de estímulo à leitura para crianças é, hoje, muito – mas MUITO – maior do que nas décadas de 70, 80 ou 90. Ou alguém se recorda de tantas livrarias com espaços lúdicos inteiramente dedicados a crianças, permitindo que elas tomem intimidade com os livros ao folheá-los e manuseá-los livremente?
  4. A própria sociedade, por fim, tem incentivado cada vez mais a leitura para crianças – incluindo hábitos dos pais de lerem para seus filhos antes destes irem para a cama. A mesma pesquisa da Education Week revelou que 62% dos pais de crianças de 3 a 5 anos lêem livros para elas (contra 55% em 2014).
  5. Para nós, latinoamericanos que costumávamos “importar” a cultura produzida fora das nossas fronteiras, esses números tendem a ser ainda mais intensos. Afinal, uma coisa é uma criança baiana, para ficar apenas em um exemplo, se identificar com uma sereia ruiva chamada Ariel que vive no Atlântico Norte; outra é ela se identificar com uma sereia chamada Janaína que vive nas águas da Baía de Todos os Santos. E, na medida em que produzir livros ficou mais barato para toda a cadeia, histórias muito mais próximas da realidade das crianças foram sendo disponibilizadas, ajudando a transformar de maneira importantíssima toda uma legião de novos leitores.

Enfim… esses são apenas cinco pontos que nos ajudam a entender que, ao contrário do que costuma pregar a sempre pessimista futurologização, crianças gostam sim de livros e estão lendo cada vez mais. Mas isso significa que basta escrever e pronto?

Não. Da mesma maneira que o incentivo à leitura cresceu, a oferta de títulos também se avolumou, o que significa que a competição entre os livros infantis saltou de maneira exorbitante. E é aqui que entra a capacidade do autor em trabalhar melhor o seu livro. Como?

Como escrever livros infantis?

Como em toda produção artística, não há uma receita de bolo que funcione em todos os casos. Mas há, sim, algumas melhores práticas que devem sempre ser observadas para garantir uma maior aderência da história para a imaginação da criança.

1. Leia livros infantis

Esse talvez seja o primeiro ponto: a melhor maneira de escrever um livro para crianças é partindo de um entendimento claro do que elas gostam de ler. Vá a uma livraria, converse com os vendedores, folheie os títulos que mais saem. Compre alguns, leve para casa, analise cada obra minuciosamente. Como é a relação texto x imagem? Quantos conflitos há no enredo? Como é a fluidez da história? Cada ponto aqui conta – e muito.

2. Saiba com quem você está falando

Não existe uma grande massa uniforme chamada “criança”. Se você estiver falando com crianças de 2 a 4 anos, por exemplo, deve entender que estão na pre-alfabetização e ainda desenvolvendo a capacidade de concentração. Histórias densas demais, com tramas muito complexas e poucas ilustrações dificilmente as conquistarão. Crianças de 5 a 6 anos, por sua vez, já estão entrando na alfabetização e o reconhecimento de letras é importantíssimo (motivo pelo qual, por exemplo, o texto deve preferencialmente ser todo escrito em caixa alta, já que é assim que elas aprendem a ler na escola). E, na medida em que as crianças vão envelhecendo, a necessidade de ilustrações cai e a necessidade de tramas mais complexas, identificáveis com os seus cotidianos, cresce.

3. Entenda que a forma importa tanto quanto o conteúdo

Para crianças, um livro não é a história contida nas páginas: é o conjunto inteiro da obra (incluindo capa, ilustrações etc.). Tudo precisa chamar atenção, ser cativante, seduzir, envolver. Aliás, é sempre útil encarar um livro como uma espécie de brinquedo: ele tem o seu propósito, mas para ganhar e prender a atenção do público precisa ser bem acabado, ter qualidade plástica. Em outras palavras: de nada adianta escrever um texto fenomenal para crianças de 3 anos se ela não tiver ilustrações bem feitas que ajudem-na a entender o universo que está sendo narrado. Histórias infantis não são escritas: são criadas por um conjunto de elementos que incluem tanto texto quanto ilustração.

4) Estruturas são fundamentais

Qualquer que seja o enredo, uma estrutura sólida é importante para que a criança se sinta confortável com a narrativa. Ou seja: há a necessidade de um personagem principal com quem ela se identifique facilmente; de personagens secundários que a ajudem a caminhar pela história; de conflitos ou problemas que precisam ser solucionados; de sustos ou surpresas que ajudem a manter as suas atenções presas, ansiosas pelo que estiver por vir.

5) Cuidado com lições de moral

Era comum imaginarmos que todo livro infantil deveria vir com alguma lição de moral embutida. Bom… até certo ponto, isso pode funcionar com crianças menores… mas, na medida em que elas crescem, a própria existência de moralismos pode acabar tendo o efeito contrário e afastando os pequenos leitores. Livros não são aulas de certo e errado: são maneiras do próprio indivíduo se entender e formar a sua visão sobre o mundo ao seu redor. Se esse indivíduo não se sentir livre para formar sua opinião por meio da sua imaginação, para interpretar a história sem que ela seja entregue de maneira “enlatada”, ele acabará se cansando e perdendo o interesse. Mais do que para adultos, para crianças a leitura deve ser uma fonte primária de prazer, não de lição.

6) Crie conexão

Este ponto talvez seja o mais importante de todos. Quanto mais a criança conseguir se enxergar na história ou nos personagens, mais ela se interessará. E “se enxergar” aqui inclui tudo: o local em que a história se passar, a fisionomia dos personagens, as realidades em torno delas, as tramas que precisam ser vencidas etc. Da mesma forma que na vida real, conexão gera empatia.

7) Publique seu livro

Já comentamos, acima, que crianças preferem livros impressos a ebooks. Vamos até além disso: enquanto é relativamente fácil ler um livro impresso para um filho ou uma filha na cama, fazer isso com um tablet é virtualmente impossível uma vez que ele ou ela quererá tocar, arrastar, brincar com a tela (ao invés de prestar atenção ao enredo). Assim sendo, publicar o livro em formato impresso é simplesmente fundamental. Como fazer isso? Simples: vá ao Clube de Autores e publique gratuitamente, dando preferência ao formato quadrado de livros que é ideal para o público infantil. Temos este post aqui no blog, aliás, que explica em mais detalhes como fazer para publicar um livro – incluindo desde dicas importantes (como encontrar um leitor crítico) até pequenas e fundamentais burocracias (como registrar o ISBN). O ISBN, aliás, é fundamental para que seu livro seja vendido não apenas no site do Clube de Autores, como também em todas as livrarias com as quais temos parceria como Cultura, Amazon, Estante Virtual etc. Se precisar de mais detalhes sobre como registrar o ISBN, recomendamos este post aqui. Se quiser um manual sobre como publicar o seu livro no Clube de Autores gratuitamente, veja este guia aqui.

8) Crie eventos

Lançar um livro – principalmente para um público infantil – vai muito além de produzir um material. Aqui, o evento de lançamento é importantíssimo por funcionar como um pontapé inicial da obra. Organize um lançamento diferente, incluindo rodas de leitura com horário marcado e em períodos que funcionem para que pais e mães levem seus pequenos. Não pare em um evento, aliás: negocie com livrarias, escolas ou de outros locais feitos para crianças um calendário em que você possa ler para o público e, ao mesmo tempo, deixar seu livro à venda. Em geral, todos esses lugares costumam ser acessíveis pois você estará oferecendo a eles um atrativo a mais para seus públicos. Temos um outro manual aqui, focado em divulgação de livros, que também pode ser útil.

9) Tenha algum estoque contigo – sempre

Hoje, é cada vez mais comum que leitores procurem os próprios autores para comprar seus livros. Não é fundamental que você tenha um estoque próprio contigo – mas é recomendável. Dê uma olhada no Programa de Gestão Colaborada do Clube de Autores: você poderá adquirir seus exemplares a custos bem mais baixos e ainda garantir uma pronta distribuição em todo o país.

10) Não pare no primeiro título

Por serem curtos, livros infantis costumam ser lidos em uma tacada só. Como fazer para se consolidar como um autor de livros infantis? Siga o exemplo dos grandes mestres: mantenha uma produção sempre fértil. Quanto mais escrever, mais o público se identificará com seu estilo e mais fácil será você conquistar seu lugar ao sol.

É isso?

Além dessas dicas, há outros pontos que devem ser observados – alguns dos quais podem ser conferidos aqui e que servem tanto para livros infantis quanto adultos. Mas, de todos, o mais importante é: comece. Escreva seu primeiro livro, publique, teste-o com as crianças que estiverem mais próximas.

O público infantil costuma ser difícil, exigente e extremamente sincero: aprenda com isso e use cada retorno que tiver como insumo para construir e consolidar a sua carreira.

 

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Sobre Fan Fics

O mundo superconectado trouxe consigo algumas características curiosas: o abandono do conceito de privacidade por muitas pessoas, um “boom” nos hábitos de leitura e uma espécie de globalização cultural sem precedentes.

Nessa toada, um novo gênero literário surgiu com força total: as fan fics, ou fan fictions. Para quem não conhece, são livros escritos com base em personagens ou enredos de outras histórias mais famosas (como Senhor dos Aneis, Harry Potter, Start Trek e tantas outras).

Há um “quê” de marginalidade nesse novo gênero: muitas das editoras das obras originais são simplesmente contrários a eles, considerando-os infratores de direitos autorais e, portanto, criminosos. Curioso esse ímpeto de considerar fãs ardorosos como bandidos, aliás.

Mas, claro, há um bom senso imperando na maioria dos casos: é difícil imaginar a Pottermore, empresa que cuida da obra de Harry Potter, processando seus próprios fãs. O escândalo em mídias sociais seria tamanho que ela teria mais a perder do que a ganhar.

OK… mas isso torna o gênero algo legal?

Não.

Na teoria e na prática, personagens e enredos tem direitos autorais assegurados por lei e qualquer uso indevido pode resultar em penalidades severas para o infrator.

Isso significa, portanto, que há uma zona cinzenta onde esse gênero se enquadra: ele não é legal (do ponto de vista jurídico) – mas qualquer tipo de processo movido pelo detentor dos direitos, embora com o apoio da lei, não é “legal” do ponto de vista da manutenção de uma audiência de fãs fiel.

O que fazer então? Negociar individualmente pode ser uma solução, desde que se entenda que a maioria das editoras, sempre antiquadas na sua forma de pensar e ver o mundo, cordialmente negarão qualquer forma de autorização. Na prática, muitos preferem enfrentar os riscos e seguir adiante, arcando com possíveis consequências.

Mas o fato é que fan fics são um espelho de um novo mundo que veio para ficar e que, mais cedo ou mais tarde, as grandes editoras precisarão articular uma solução mais clara para a convivência com elas.

A propósito, há um livro aqui no Clube que fala especificamente sobre essas questões sob aspectos que vão do cultural ao legal inseridos na realidade brasileira. Recomendo a todos que forem curiosos sobre o tema ou que se enquadrarem como autores: https://www.clubedeautores.com.br/book/137578–Fanfiction_Fragmentos_da_ficcao#.VNCv0FXF-LE

A propósito disso, cabe uma pergunta? O que você acha sobre fan fics? É contra? A favor? Ou acha um movimento simplesmente inevitável?

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