Morram de inveja, finlandeses e suecos

Nos últimos anos tivemos Lava-Jato, impeachment, dezenas de ultrapoderosos e multimilionários presos, crise seguida por recessão, intervenção militar depois que a nossa segunda maior cidade entrou em colapso completo, brigas e incongruências entre os quatro poderes (os três “oficiais” e nós, a população), Copa do Mundo e, agora, eleições.

Fico imaginando a vida em algum lugar como Finlândia ou Suécia. Sim: deve ser de uma calma por vezes invejável, com uma estabilidade utópica para nós aqui deste lado do equador e uma facilidade para se tocar a vida que sequer conseguimos imaginar.

Mas olhe o lado positivo: a quantidade de assunto que temos aqui é de causar inveja a qualquer finlandês ou sueco.

Para nós, escritores, então, é um prato cheio. Já imaginou a quantidade de panos de fundo ou enredos que podemos desenvolver a partir da mera observação das tantas óperas que se desenrolam no nosso dia-a-dia? O tanto de personagens que podemos criar a partir de modelos que vão de supervilões a superheróis? O volume de ficção que podemos sugar a partir da assombrosa não ficção que nos inspira cotidianamente?

Nosso país pode estar em um dos momentos de estresse mais histéricos da história – mas pelo menos não podemos reclamar de falta de inspiração para que nos transformemos, em um futuro breve, na nação com maior potencial de produção de literatura de todo o globo!

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Que os mares revoltos tenham ficado para trás

Ultimamente, tenho tido a sensação de que um ano novo está começando agora, em maio.

Não digo isso com a ingênua esperança de que todos os problemas do Brasil se resolvam com o impeachment da presidente, a passe de mágica. Problemas, aliás, esse nosso país tem de sobra.

Mas, se a certeza sobre os próximos capítulos em nosso futuro não é exatamente nítida, é inegável que ela é muito, mas muito menos nebulosa que esse passado recente. Nos últimos meses o Brasil foi ditado pela incerteza: enquanto acumulamos números cada vez mais devastadores comprovando o que víamos nas ruas – desemprego, inflação e uma destruição sistemática de mercados inteiros – não tínhamos nenhuma vaga noção do que aconteceria.

O impeachment passaria na câmara? Não quero entrar em política aqui, mas a existência de duas hipóteses garantia uma incerteza devastadora para quem quer que busque estabilidade.

Agora, parece claro que teremos uma espécie de governo de transição. Repito: não quero entrar em política ou fazer qualquer juízo de valor sobre políticos ou partidos. Mas agora já sabemos quais serão os próximos passos. Esses próximos passos incluem a tomada de uma série de medidas já virtualmente anunciadas por meio de sites escancaram os bastidores do país.

Esses próximos passos anunciados já permitem que todos nós consigamos atuar com um mínimo de planejamento. Embora sem conseguir saber os resultados das ações que serão tomadas pelo novo governo, pelo menos sabemos, com algum grau de segurança, quais serão essas ações – e conseguimos assim nos preparar de acordo com as nossas capacidades de dedução e percepção.

Os nossos governantes – todos eles, acrescento – passaram os últimos anos nos tirando o que é mais importante para qualquer sociedade estável: a previsibilidade das perspectivas. Os nossos governantes, tanto da situação quanto da oposição, fizeram uma lambança tão grande que, hoje, estamos na esdrúxula situação de comemorar o reveillon em pleno mês de maio.

Mas, como diz o ditado, antes tarde do que nunca.

Pelo que estamos acompanhando, os mares mais revoltos estão finalmente ficando para trás e a tão sonhada calmaria, embora ainda no futuro, já começa a alcançar as nossas cansadas vistas. Ao que parece, conseguimos atravessar o pior dessa crise.

Que venha um novo capítulo.

E que ele seja mais fácil do que o último.

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Como se combate uma crise?

Acordei na terça-feira com a TV alardeando que, na melhor das hipóteses, o Brasil terá 2 anos de recessão. Serão dois anos de uma crise que se intensificará, com mais escândalos que provavelmente se amontoarão na mesa do Sérgio Moro e mais disputas palacianas entre os líderes que, gostemos ou não, foram todos eleitos pelo sagrado voto popular. 

Demissões provavelmente continuarão pipocando por todos os lados, juros e inflação permanecerão – pelo menos por mais um bom tempo – travando o crescimento e uma insatisfação nítida continuará pairando sobre o país (muito embora o governo insista em “comemorar” o fato de que as manifestações do dia 16 terem sido menores que as anteriores, ao invés de lamentar o fato delas terem existido).

Mas não me cabe aqui falar de política. Somos um blog de autores, de pessoas devotadas a escrever histórias melhores do que as que tem sido escritas para o nosso país. O que me leva a fazer este post, no entanto, é a sensação de que sairemos desta crise possivelmente piores do que entramos. 

Sairemos, provavelmente, com a mesma incapacidade explícita de entender argumentos. Nas redes e nas ruas, o que mais se vê é argumento supérfluo, reduzindo toda a democracia brasileira a uma versão pseudo-politizada do Festival de Parintins, com bois azuis brigando contra bois vermelhos. Se se critica a Presidente Dilma para um petista, ouve-se deste que Alckmin foi incapaz de lidar com a crise hídrica; se se critica denúncias contra Aécio Neves para um tucano, ouve-se que todos os males da humanidade, provavelmente desde Sodoma e Gomorra, foram culpa do PT. Mas poucos param para pensar que a incompetência de um governo jamais, em nenhuma hipótese, poderia ser justificada pela incompetência de outro. 

Sairemos desesperançosos. Nas trocas de partidos e no excesso de barbeiragens governamentais, sobraram órfãos de ideologias tidas como sagradas desde a luta pela redemocratização. Pessoalmente, não acho isso triste: ideologias dogmáticas, daquelas que não toleram argumentos opostos e buscam cegar-se diante dos mais claros fatos, precisam mesmo ser destroçadas para que alguma razão seja construída em seu lugar. Mas, mesmo ignorando os velhos dogmas, não há como fechar os olhos para a baixíssima confiança que restará quanto à capacidade das nossas instituições – do Planalto ao Congresso – fazerem o que foram eleitos para fazer. 

Sairemos divididos, em grande parte pelo tenebroso discurso de “nós contra eles”, do “pobres contra ricos”, do “sul contra o norte”, alardeado raivosamente na campanha. 

Sairemos, muito provavelmente, mais pobres, uma vez que a crise está corroendo de maneira decisiva o poder efetivo das nossas notas de real. 

Se somarmos todas essas hipóteses, o resultado é muito pouco estimulante. Todas elas, no entanto, tem uma causa comum: o pouco repertório que o brasileiro tem, a pequena bagagem trazida por uma educação de baixa qualidade e por uma média vergonhosa de 1,4 livro lido por ano (contra 8 nos EUA e 6,4 na Alemanha e na França).

Se lêssemos mais, estaríamos mais abertos a ouvir os argumentos dos outros e a racionalizar em cima deles. 

Se lêssemos mais, não seríamos tão dogmáticos com relação às nossas crenças: entenderíamos que são ideias e que, até por isso, podem e devem ser questionadas, melhoradas ou derrubadas. 

Se lêssemos mais, certamente votaríamos com mais consciência. 

Se lêssemos mais, não cairíamos nas ciladas verborrágicas que cismam em segregar o país geográfica, social e economicamente.

Talvez a solução que esteja propondo aqui esteja vindo tarde demais – ao menos para este delicado momento da nossa história, já em curso. 

Talvez ela funcione apenas para próximas crises pelas quais certamente passaremos. 

Ainda assim, deixo-a como uma espécie de proposta que considero óbvia para o crescimento sustentável de qualquer povo ou nação. 

Como se combate uma crise? 

Com livros. 

  
 

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A todos os autores, desejamos boas vendas – e a todos os pais, uma excelente leitura!

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