Onde moram as boas histórias?

Darei aqui a minha opinião pessoal. Uma opinião sem nenhuma pretensão de se coroar incontestável ou mesmo de representar a forma com que o Clube de Autores como um todo pensa. Mas é uma opinião de alguém que ama, vive de e devora diariamente livro após livro.

Nessa minha opinião, boas histórias moram – ou ao menos preferem morar – nos lugares mais infernais, conflituosos e agonizantes do mundo.

Boas histórias não gostam de tédio, de monotonia, de vidas calmas tocadas em lugares estáveis. Acredito que busca estabilidade é sempre a nossa mente que, míope, acredita que paz de espírito faz bem à saúde. Mas quem nos dá aquela essencial gana de viver, quem esculpe emoções usando a adrenalina das grandes adversidades, é o nosso coração – e este precisa de dificuldades para bater mais forte. É também o nosso coração que determina o nosso estado de espírito, a nossa empolgação com a vida, a nossa ansiedade por uma boa história, os nossos dramas e gargalhadas com desfechos inusitados.

A paz e a estabilidade são, por definição, previsíveis. Boas histórias, por sua vez, tem enredos (também por definição) imprevisíveis. Percebe a diferença?

Boas histórias, portanto, gostam de se originar em momentos de crise aguda, de guerra, de desafios colossais impostos a pessoas comuns. Boas histórias gostam de guetos, de discriminações, de mutilações, de desafios. Boas histórias nascem de uma intenção natural do ser humano de superar injustiças impostas a ele pelo acaso, por terceiros ou por si próprio.

Não me entendam mal: obviamente, não estou pregando aqui a favor das grandes mazelas da humanidade. O contrário talvez fosse mais verdade: estou apenas dizendo que é dessas grandes mazelas, dessas grandes adversidades, que nascem as grandes histórias de superação – e que é dessas histórias que as inspirações do mundo inteiro são construídas.

Nietzsche costumava dizer que só se pode levar uma vida plena quando se mergulha de cabeça nas dificuldades e adversidades que ela costuma nos lançar. Concordo em gênero, número e grau: uma vida sem adversidades é uma vida sem boas histórias. E se não é para cultivarmos boas histórias, para que então vivemos?

Da mesma forma, se não é para registrar boas histórias, para que escrevemos?

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O muro de Trump como símbolo perfeito dos nossos tempos

Fiquei me perguntando, dia desses, o que aconteceria (ou acontecerá?) com o mundo se o Trump realmente construir o seu muro. Sim, é óbvio que isso afetará mais a relação entre México e EUA do que entre quem quer que seja… mas será também o símbolo de uma mudança dramática na história da humanidade.

Por que? Porque mudanças são simbolizadas por marcos, por manifestações físicas de pensamentos polêmicos. O muro de Berlim, ingrato antecessor da ideia de Trump, teve esse papel: ao isolar diferentes culturas, ele simbolizou diferentes enfoques culturais e políticos e gerou toda uma pletora de conflitos e histórias. Símbolos e muros são como o pontapé inicial de uma dialética hegeliana: há a tese, cria-se uma antítese fisicamente separada dela e, depois de muita filosofia sobre divisões e uniões, chega-se em uma síntese nova.

Como humanidade, ficamos na ingrata posição de perder no curto prazo (uma vez que cismas entre povos dificilmente trazem benefícios) e de ganhar no longo prazo (uma vez que experiências, inclusive as malfadadas como creio que será a do muro, tendem a ampliar o nosso conhecimento sobre nós mesmos).

Mas o mais curioso é que símbolos, quando tangibilizados, servem apenas para oficializar pensamentos que já são generalizados. Olhe para o mundo distante: Brexit, polêmicas em torno dos imigrantes muçulmanos, fanatismo religioso, Estado Islâmico. Todos esses movimentos são fruto de uma crescente intenção de povos se juntarem em comunidades que pensem de maneira semelhante para se isolarem do resto do mundo (a quem condenam aos brados).

Olhe para o mundo próximo: as eleições para presidência no Brasil, vencidas por Dilma Rousseff, foram marcadas por discursos do ex-presidente Lula pregando o “nós contra eles” e posicionando o seu eleitorado como inimigo do “outro Brasil”, o “Brasil das elites”. Dilma pode ter sofrido o impeachment pouco tempo depois (por outros motivos), mas não se pode ignorar que foi esse discurso incendiário que conquistou os votos decisivos para que ela se consagrasse vitoriosa nas urnas.

Fora das eleições, há movimentos crescentes de separatismo, por exemplo, da região sul do Brasil – um dos quais já tem até mascote e abaixo-assinado com dezenas de milhares de apoiadores.

Aliás, nem precisamos ir tão longe: olhe o seu próprio Facebook. Seja por brigas entre esquerda e direita ou entre defensores de grafite ou da limpeza urbana, o fato é que as discussões estão cada vez mais inflamadas independentemente das suas causas.

O resumo de tudo isso: a era da informação, ao invés de nos unir enquanto povo, está nos separando em comunidades de fanáticos. O muro do Trump é, repito, apenas o símbolo mais dramático de um pensamento que, com maior ou menor força, já está presente na quase totalidade das pessoas.

Nos posts que faço aqui no Clube eu costumo olhar tudo sob a ótica da produção literária – mesmo porque isso é, afinal, um blog de literatura. Farei o mesmo, então.

Kafka foi filho de uma era de ruptura de pensamento social. Machado de Assis também. Como eles, em diferentes eras de ruptura, tivemos ainda Nietzsche, Proust, Shakespeare. Tivemos muitos, muitos gênios que produziram obras primas que questionaram tudo e, ao fazer isso, nos catapultaram para níveis intelectuais cada vez mais elevados.

A que conslusões isso nos leva?

O muro do Trump e esse segregacionismo generalizado podem ser as verdadeiras portas do inferno para sociedades de todo o mundo, abrindo caminho para que a humanidade mostre o que tem de pior. Mas, por outro lado, temos tudo para crer que já estamos testemunhando, em nosso cotidiano, lançamentos de maravilhas literárias que serão verdadeiros presentes para as futuras gerações.

Histórias, afina0516trumpwall01l, não hão de faltar nesse nosso caótico mundo de sociedades fanáticas.

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Somos todos escritores loucos?

Em geral, a vida de escritores é sempre uma espécie de caminhar pela corda bamba da sanidade mental. Alguns -como Nietzsche e Kafka, por exemplo – claramente passaram para o outro lado enquanto geraram para a humanidade algumas das maiores obras de arte já produzidas.

Outros, como Fernando Pessoa, conseguiram se manter socialmente viáveis, por assim dizer, ao criar heterônimos que pudessem seguir suas próprias vidas paralelas.

Mas todos nós, ao criar um enredo simples, mesmo que autobiográfico, conseguimos lançar ao papel uma espécie de projeção criativa completa, complexa, que inclui cenas, diálogos, amores, dores e todo um mundo que, por vezes, parece mais vivo que o real. Não seria essa a mais intensa forma de loucura?

No começo dessa semana, fizemos um post no Facebook do Clube falando algo nessa linha. Sabe o que nos chamou a atenção?

Até hoje, esse foi o post que mais teve participação dos usuários. Foram mais de 1.660 curtidas, 1.530 compartilhamentos e 40 comentários. Nunca tantas pessoas se identificaram com um post em nossa página assim.

O que isso prova? Que, de fato, a pitada de loucura que existe em todo ser humano é realmente mais forte nos escritores.

Que bom. Faz a nossa vida mais interessante :-)

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Destaque da semana: Reflexões filosóficas, de Silvério da Costa Oliveira

Se você está acompanhando a nossa página no Facebook, verá que estamos postando uma série de pensamentos de filósofos e outros mestres da literatura mundial. Mas é claro que, por trás das frases aparentemente soltas, há uma densidade impressionante de raciocínios e olhares sobre a vida, o mundo e a existência como um todo.

Como autores, todos temos quase que a responsabilidade de beber das fontes que tanto inspiraram o mundo a se transformar ao longo dos últimos séculos – e um livro que sirva de introdução à filosofia é um bom começo.

Esse é o propósito de Reflexões filosóficas, que se destacou no Clube essa semana. Veja na sinopse:

Este livro se apresenta como uma introdução à filosofia e psicologia destinada ao público universitário das referidas áreas ou de áreas afins, bem com, a qualquer um que tenha por característica o interesse informativo por filosofia, isto em virtude da linguagem empregada ser acessível e dos conteúdos se apresentarem numa forma crescente de informação, onde procura-se ir de um nível mais introdutório para um mais profundo.

Dentre os temas desenvolvidos temos: o pensamento de Sartre e sua relação com a angústia, a ética em Aristóteles e Kant, o desenvolvimento paulatino do pensamento kantiano expresso na Crítica da Razão Pura, o desenvolvimento do pensamento filosófico de Tobias Barreto e sua relação com I. Kant, o filósofo Nietzsche, a psicanálise de Sigmund Freud (apresentada de forma bem introdutória), a lógica moderna, além de textos sobre: liberalismo e educação, a comunicação no Brasil de hoje, estudo teórico sobre o sucesso literário, a morte, o poder etc.

Curtiu? Então acesse a página do livro clicando aqui, na imagem abaixo ou diretamente no link http://clubedeautores.com.br/book/143225–Reflexoes_filosoficas

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