Somos todos contadores de histórias

Aprendi uma coisa importante ao lidar tanto com escritores: no final das contas, todos nós somos contadores de história. Reformulo: a única coisa que nos diferencia de um macaco, ao menos mentalmente falando, é a nossa capacidade de contar histórias aos nossos pares – seja relatando fatos verídicos ou romanceando-os para que se tornem mais sedutores.

Isso chega a ser óbvio, aliás. O que fazemos ao relatar nosso dia para a mulher ou o marido quando chegamos em casa? Contamos histórias do passado recente. O que fazemos quando estamos vendendo um serviço ou um produto? Contamos uma história que permita ao nosso interlocutor enxergar que nós somos o caminho para a realização de algum sonho seu, qualquer que seja.

O que fazemos quando estamos batendo papos com amigos? Trocamos histórias.

Quando queremos seduzir alguém? Criamos histórias.

Quando queremos nos livrar de problemas inesperados? Inventamos histórias.

Em cada um desses casos, a nossa chance de sucesso será maior se a nossa capacidade de contar uma boa história for grande, se soubermos prender a atenção, se dominarmos a arte de articular pensamentos e interpretar olhares, gerando mais expectativa a cada palavra cantada.

E isso também significa que buscar inspirações nos grandes contadores de história do mundo – os Saramagos e Kafkas, os Michaelangelos e Rodins, os Da Vincis e Portinaris – é quase uma obrigação para uma espécie de que diferencia das outras por saber relatar bem o que imagina.

Cultura, no seu sentido mais clássico, sempre continuará sendo a melhor ferramenta de sobrevivência da raça humana.

Ou, como bem colocou um dos maiores gênios da humanidade, o recém falecido Umberto Eco: “Quem não lê, aos 70 anos terá vivido só uma vida. Quem lê, terá vivido 5 mil anos. A leitura é uma imortalidade de trás para frente”

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O muro de Trump como símbolo perfeito dos nossos tempos

Fiquei me perguntando, dia desses, o que aconteceria (ou acontecerá?) com o mundo se o Trump realmente construir o seu muro. Sim, é óbvio que isso afetará mais a relação entre México e EUA do que entre quem quer que seja… mas será também o símbolo de uma mudança dramática na história da humanidade.

Por que? Porque mudanças são simbolizadas por marcos, por manifestações físicas de pensamentos polêmicos. O muro de Berlim, ingrato antecessor da ideia de Trump, teve esse papel: ao isolar diferentes culturas, ele simbolizou diferentes enfoques culturais e políticos e gerou toda uma pletora de conflitos e histórias. Símbolos e muros são como o pontapé inicial de uma dialética hegeliana: há a tese, cria-se uma antítese fisicamente separada dela e, depois de muita filosofia sobre divisões e uniões, chega-se em uma síntese nova.

Como humanidade, ficamos na ingrata posição de perder no curto prazo (uma vez que cismas entre povos dificilmente trazem benefícios) e de ganhar no longo prazo (uma vez que experiências, inclusive as malfadadas como creio que será a do muro, tendem a ampliar o nosso conhecimento sobre nós mesmos).

Mas o mais curioso é que símbolos, quando tangibilizados, servem apenas para oficializar pensamentos que já são generalizados. Olhe para o mundo distante: Brexit, polêmicas em torno dos imigrantes muçulmanos, fanatismo religioso, Estado Islâmico. Todos esses movimentos são fruto de uma crescente intenção de povos se juntarem em comunidades que pensem de maneira semelhante para se isolarem do resto do mundo (a quem condenam aos brados).

Olhe para o mundo próximo: as eleições para presidência no Brasil, vencidas por Dilma Rousseff, foram marcadas por discursos do ex-presidente Lula pregando o “nós contra eles” e posicionando o seu eleitorado como inimigo do “outro Brasil”, o “Brasil das elites”. Dilma pode ter sofrido o impeachment pouco tempo depois (por outros motivos), mas não se pode ignorar que foi esse discurso incendiário que conquistou os votos decisivos para que ela se consagrasse vitoriosa nas urnas.

Fora das eleições, há movimentos crescentes de separatismo, por exemplo, da região sul do Brasil – um dos quais já tem até mascote e abaixo-assinado com dezenas de milhares de apoiadores.

Aliás, nem precisamos ir tão longe: olhe o seu próprio Facebook. Seja por brigas entre esquerda e direita ou entre defensores de grafite ou da limpeza urbana, o fato é que as discussões estão cada vez mais inflamadas independentemente das suas causas.

O resumo de tudo isso: a era da informação, ao invés de nos unir enquanto povo, está nos separando em comunidades de fanáticos. O muro do Trump é, repito, apenas o símbolo mais dramático de um pensamento que, com maior ou menor força, já está presente na quase totalidade das pessoas.

Nos posts que faço aqui no Clube eu costumo olhar tudo sob a ótica da produção literária – mesmo porque isso é, afinal, um blog de literatura. Farei o mesmo, então.

Kafka foi filho de uma era de ruptura de pensamento social. Machado de Assis também. Como eles, em diferentes eras de ruptura, tivemos ainda Nietzsche, Proust, Shakespeare. Tivemos muitos, muitos gênios que produziram obras primas que questionaram tudo e, ao fazer isso, nos catapultaram para níveis intelectuais cada vez mais elevados.

A que conslusões isso nos leva?

O muro do Trump e esse segregacionismo generalizado podem ser as verdadeiras portas do inferno para sociedades de todo o mundo, abrindo caminho para que a humanidade mostre o que tem de pior. Mas, por outro lado, temos tudo para crer que já estamos testemunhando, em nosso cotidiano, lançamentos de maravilhas literárias que serão verdadeiros presentes para as futuras gerações.

Histórias, afina0516trumpwall01l, não hão de faltar nesse nosso caótico mundo de sociedades fanáticas.

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Uma nova forma de história?

Dizem que um livro ou filme depende muito mais do seu leitor ou espectador do que do criador.

Concordo. A interpretação é essencialmente algo individual, dependente muito mais do histórico de quem absorve o conhecimento do que de quem o compartilha.

Em tempos que tem na palavra “compartilhamento” algo muito mais literal, no entanto, o próprio conceito de se contar histórias muda.

E se, ao invés de ver um filme, pudéssemos vivê-lo, caminhando entre seus personagens e cenas? Nesse caso, cada espectador teria invariavelmente uma experiência única: veríamos apenas na direção que nossas pupilas estivessem apontando, ignorando o que estivesse se passando atrás ou mesmo ao nosso lado.

Vi uma experiência desse conceito recentemente em um filme 360 graus sobre tubarões feito com uma GoPro por Jeb Corliss.

Recomendo fortemente a todos que cliquem no link abaixo: é uma maneira simplesmente diferente de se contar histórias.

Dica: esse vídeo funcionará apenas se visto a partir de um IPhone.

Dica 2: quando ele começar, gire o IPhone para todos os lados para viver melhor a experiência.

https://www.facebook.com/gopro/videos/10153908208786919/ 

https://www.facebook.com/gopro/videos/10153908208786919/

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Sentindo o próprio derrame

Já imaginou se você pudesse perceber, conscientemente, todas as suas funções cerebrais se fecharem uma a uma durante um derrame?

Eu sou da crença firme de que a maior fonte de inspiração de qualquer ser humano é a sua própria vida – incluindo um entendimento mais aprofundado do seu próprio corpo. E, claro, na medida em que passamos por experiências dramáticas, vamos somando mais e mais capacidade de expressão.

Essa palestra que achei fala muito disso a partir de uma experiência real – e é absolutamente inspiradora.

E, afinal, se somos uma comunidade de contadores de história, ouvir histórias impactantes é no mínimo parte do que mais amamos fazer :-)

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