Como ter ideias para escrever um livro

Quer escrever um livro e não sabe por onde começar? Que tal conferir estas dicas aqui?

O Clube de Autores foi criado sob o princípio de que todo mundo tem uma história para compartilhar. Vivemos e morremos por este princípio que, até hoje, se mostrou absolutamente real. 

Mas isso não significa, claro, que todos estejam motivados, inspirados e prontos para passar suas crenças e visões de mundo mais profundas para o papel. E essa passagem, obviamente, é chave. 

A grande questão que aflora é: como instigar a mente a comandar os dedos para metamorfosear pensamentos em letras, palavras, frases, capítulos e, em suma, em uma ou mais histórias? 

Até os grandes mestres têm suas técnicas inspiracionais

Não há uma resposta mágica, uma espécie de receita padronizada para isso: escrever sempre foi, é e sempre será algo extremamente pessoal. Saramago, por exemplo, lançava perguntas hipotéticas ao universo e transformava suas respostas em enredos. Foi hipotetizando sobre “o que aconteceria se a morte tirasse férias”, por exemplo, que ele concebeu “As Intermitências da Morte”, uma de suas obras primas. 

Khaled Husseini, autor do best-seller “O Caçador de Pipas”, diz se inspirar vendo o noticiário. Foi, aliás, uma notícia na TV sobre competições de pipas serem proibidas pelo Talibã que inspirou o seu livro mais famoso. 

E, claro, entre lançar perguntas surreais ao cosmo e assistir ao Jornal Nacional certamente há todo um abismo de ideias e inspirações. Longe de querer sintetizar tudo em um compilado monótono, como se genialidades nascessem a torto e à direita, este post tem um objetivo que se situa entre a mera curiosidade e um empurrãozinho aos que estiverem sofrendo de bloqueio criativo: uma lista com algumas das técnicas mais utilizadas por autores de todo o mundo e através dos tempos para se destrancar a palavra escrita de dentro dos seus cérebros. 

Mas não nos atenhamos unicamente a elas, claro. Uma vez escrita, toda história tem um caminho loooongo pela frente, até se transformar em livro. Nesse ponto, já indico de imediato este post aqui com dicas importantes sobre o processo de escrita em si.

Mas voltemos alguns passos, então, e mergulhemos em algumas dicas que podem ser bem úteis para fazer vontades se metamorfosearem em livros. 

10 dicas importantes para se ter ideias que se transformem em livros

Leia. Muito. 

A maior fonte de inspiração para se escrever um livro costuma ser um outro livro. Um, não: vários. Quanto mais intimidade você tiver com obras primas de gênios como Murakami, Rulfo, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Mia Couto, Clarice Lispector e outros tantos, mais intimidade você terá com o próprio conceito de narrativa. Deixar-se ser envolvido por estilos literários que transcendem e transformam o próprio conceito de poesia costuma mexer fundo no coração – mais especificamente na parte dele que mais importa, naquele ponto escondido de onde nascem todas as emoções. Faça, então, o óbvio: vá a uma livraria. Ou a esta lista daqui, com os 10 livros independentes que mais estão dando o que falar.

Tenha sempre um caderno de anotações à mão – e use-o sem economia.

Não, não é necessário ser exatamente um caderno: pode ser um tablet ou até mesmo o seu celular. O importante, mesmo, é que você tenha o hábito de registrar imediatamente qualquer sinal de ideia que – quem sabe? – tenha algum potencial de amadurecer em forma de livro. Pode ser uma observação casual do cotidiano, o registro de um sonho, uma frase que achou bonita ou qualquer coisa. Simplesmente escreva, registre, anote. Nunca se sabe exatamente o que destranca ideias do cérebro. 

Cace arte – e recrie a história por trás de cada peça que achar.

Olhe em volta. Onde quer que você viva, são imensas as chances de estar cercado por obras de arte. Sejam esculturas, telas, prédios ou casarões, grafites ou qualquer outra manifestação artística, é relativamente fácil se deparar com algo capaz de te extrair do lugar-comum. Aprenda a perceber a arte e, principalmente, a deixar a curiosidade dominar seu olhar. Toda obra, afinal, tem uma história por trás –  e é nessa história que reside a sua maior densidade. Foi a um museu e se encantou com uma peça específica? Pesquise-a, ainda que com o próprio celular navegando na Wikipedia. Quem foi o autor? Em que período ela foi feita? Por que motivo? O que deveria representar? Quem encomendou? O que ela deveria representar? 

Para cada peça que olhar, brinque de engenheiro de obra pronta e tente imaginar toda a história por trás dela, tanto emocional quanto cronologicamente. Obras de arte mais plásticas (como quadros ou esculturas) costumam ser uma espécie de capítulo final de um livro cujos capítulos iniciais podem ser criados por cada espectador. E isso permite um tipo de exercício criativo fenomenal. 

Aprenda a provocar emoções com as palavras.

Escritores são, essencialmente, artesãos de palavras. Nesse sentido, cada frase pode ser pensada, esculpida e retrabalhada de maneira a gerar mais impacto em seu ouvinte ou leitor. Aprenda a brincar com palavras, a substituir as monótonas colocações do nosso cotidiano com termos buscados nos mais bem guardados baús do nosso belíssimo idioma. 

Livros, afinal, são ideias traduzidas em um encadeamento poético de palavras. Quanto mais você dominar o seu idioma, melhor conseguirá destravar conceitos e deixar histórias fluírem soltas. 

Decida o gênero que quer escrever.

Drama? Filosofia? Comédia? Terror? Ficção científica? Até é possível mesclar pitadas de um gênero com outro mas, no geral, todo livro costuma se enquadrar em um perfil mais geral. E isso não é ruim. 

Ao contrário: quanto mais claro estiver para si mesmo o gênero que você deseja escrever, mais fácil será buscar referências e escrevê-lo. 

Não tente imitar alguns para agradar a todos.

Um dos grandes erros que autores costumam cometer é tentar construir histórias que agradem ao que eles entendem como “massa de leitores”. “Paulo Coelho é um best-seller? Então tentarei escrever igual a ele!”. Poucas ideias podem ser piores que essa – até porque um livro é, por excelência, um espelho do seu autor. Quanto mais rápido o autor entender que suas chances de sucesso são maiores na medida em que ele se entregar ao seu próprio estilo, melhor. Ser você mesmo é uma garantia de sucesso? Infelizmente, não – o mercado literário é, possivelmente, o mais concorrido do mundo. Mas tentar ser outra pessoa é uma garantia de fracasso. 

Teste sua história.

Pensou em algo que pode ser um bom começo ou uma boa base para um livro? Teste. 

Crie uma espécie de sinopse mental e compartilhe-a com algum amigo ou leitor em potencial. Perceba a sua reação, esforçando-se para separar aprovações educadas de entusiasmos sinceros. Nem sempre o que nos parece uma boa ideia, afinal, tem potencial concreto para se transformar em um bom livro, e testar a capacidade de retenção de atenção é sempre um caminho aconselhável. 

Não se veja como um gênio incompreendido.

Depois de testar a sua história uma, duas ou três vezes e receber olhares mais reprovadores, é comum que o escritor busque refúgio ou alívio no pensamento de que seu texto está perfeito, mas além do alcance das pessoas. Esqueça isso. 

Claro: nem todo livro funcionará para todo mundo, mas se você escolheu bem os “críticos” para quem contou ou mostrou a sua tese (ou sinopse mental, como colocamos na dica acima), então confie nas opiniões que ouvir. Em última instância, force-se a acreditar que não existem gênios incompreendidos: existem escritores que não conseguiram concatenar suas ideias direito. Quanto mais você colocar a culpa nos outros, afinal, menos conseguirá mudar para evoluir. 

Dedique-se a uma primeira frase.

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.” Foi assim que Machado de Assis abriu a sua obra prima, Memórias Póstumas de Brás Cubas – com uma primeira frase que praticamente cola o olhar do leitor ao livro e o impele a devorar cada uma de suas próximas páginas. 

Não se costuma dizer que a primeira impressão é a que fica? Pois bem: em um livro, uma primeira frase bem elaborada tem o potencial de transformar a experiência do leitor – e de atiçar a imaginação do autor em níveis incríveis. 

Deixe o texto ganhar vida própria; depois, dedique-se a podá-lo. 

Em um determinado momento, suas mãos parecerão ter vida própria e sairão escrevendo a uma velocidade maior que a do seu próprio cérebro. Não se censure aqui: deixe o texto crescer por conta própria, tomar os caminhos que preferir, dominar o papel com toda a coragem de um adolescente descobrindo o mundo. 

Mas tenha claro para si que o que quer que resulte daí não será o seu trabalho final. Uma vez escrita essa primeira versão do livro, transforme-se em carrasco de si mesmo e dedique-se a ler e a reler, a cortar trechos desnecessários, a organizar eventuais caos incompreensíveis e a ceifar capítulos inteiros com a frieza de um legista.  O mexicano Juan Rulfo, aliás, costumava dizer que escrever era a parte mais rápida e fácil de um livro: o trabalho mesmo estava no passo seguinte, quando ele começava a aparar as arestas de cada uma das suas próprias frases. 

Foi assim que ele deu ao mundo Pedro Páramo, um dos livros mais celebrados da história. 

Escreveu seu livro? E agora?

Passou por tudo isso? Seu livro está já escrito e pronto para ser lançado? 

Parabéns: todos têm uma história para compartilhar mas, se dúvidas, são poucos os que realmente conseguem tirá-la da cabeça e colocá-la no papel. 

Antes de publicá-la, no entanto, recomendamos que acesse este checklist aqui e veja se tudo está perfeito. 

Se estiver, fantástico: publique aqui no Clube de Autores gratuitamente, nos formatos impresso e digital, e esteja presente nas maiores livrarias do país e do mundo! Quer saber como? Acesse este link aqui, com o passo-a-passo para você lançar o seu livro, ou este aqui, que descreve o modelo de funcionamento do Clube de Autores.

 

 

 

 

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Que ferramenta você deve utilizar para escrever seu livro?

Costumamos acreditar que livros são peças complexas, de um tipo de sofisticação além do alcance para meros mortais.

Vale desconstruir essa crença.

A complexidade e sofisticação de um livro – que, sim, obviamente existe – não está no formato, no acabamento: está no conteúdo.

Não que o acabamento não precise ser bem feito: livros sem uma boa capa, uma revisão bem feita e uma diagramação interessante tem chances muito, muito maiores de não performarem bem. Mas perceba que tudo isso – capa, diagramação, revisão – é um conjunto de serviços autorais que, da mesma maneira que o conteúdo do livro, depende muito mais do artista, do autor.

Sim, preste muita atenção a isso na seleção de um time perfeito para garantir um bom acabamento ao seu livro. Mas nada disso – absolutamente nada disso – tem a ver com ferramenta.

Que ferramenta você deve utilizar para escrever? Word, notepad ou qualquer outra que preferir.

Para fazer uma capa, caso seja você mesmo o capista? A que se sentir mais confortável.

Ou seja: não se prenda a ferramentas. Prenda-se ao resultado final delas, quaisquer que sejam.

Nesse sentido, vale conferir esse post aqui sobre como escrever um livro (e navegar também por outros posts e materiais ligados a ele).

De toda forma, o importante é: concentre-se no resultado final. É o resultado que deve importar, que deve ser próximo da perfeição. Os meios para chegar nele, as ferramentas, são essencialmente irrelevantes.

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Como escrever um livro?

Tem uma história para contar? Parabéns: o primeiro passo está dado.

Livros são, antes de mais nada, registros de histórias relevantes. 

Podem ser ficção, não ficção, manuais técnicos ou qualquer gênero existente: seja como for, livros são compilados estruturados de conhecimento.

Mas há algo nessa frase acima que deve ser relido: a palavra “estruturados”.

Todos, afinal temos alguma história para contar sobre alguma coisa qualquer que vivemos ou imaginamos – mas isso não significa que todos consigamos efetivamente escrever um livro de sucesso (qualquer que seja a medida de sucesso considerada) com base nessa história.

É preciso, antes de mais nada, estruturar a história, dar a ela a cadência necessária para que capte não só o entendimento do leitor, mas também – e talvez principalmente – o seu desejo em continuar lendo-a.

Assim, se você tiver uma história para contar, ótimo: já é o primeiro passo para escrever um livro. Só não se esqueça que a estrada será longa e que ainda haverá muitos passos a serem dados – muitos dos quais serão explorados aqui, neste guia, com o único objetivo de auxiliá-lo por esta inenarrável aventura que é criar mundos.

Regra # 1: Domine o seu idioma

Há uma diferença muito pouco sutil entre a história falada e a história escrita: a fala carrega tons e entonações que dificilmente podem ser replicadas pela escrita. Por este mesmo motivo, histórias faladas permitem mais liberdades com o nosso idioma, são mais soltas, mais “musicais”.

Na história escrita, tudo muda: nela, a entonação é dada pelo leitor, não pelo narrador.

A posição de uma vírgula pode quebrar todo o ritmo da frase ou mesmo alterar o seu sentido; a falta de vírgulas pode deixar o leitor com absoluta falta de ar, asfixiando a história inteira; tempos verbais errados (como usar o ‘quer que eu faço isso?’ ao invés de ‘quer que eu faça isso?’) podem assassinar a imagem do autor perante o leitor – imagem que sempre deve ser mantida no mais alto patamar pelo bem do enredo.

A história escrita depende, por óbvio, da escrita, e quanto mais mambembe, quanto mais desconectada do nosso idioma, ela for, mais difícil será cativar uma base interessante de leitores. Vemos isso no cotidiano do Clube de Autores: se há um ponto comum na imensa maioria dos livros mais vendidos aqui é que eles passaram por uma revisão profissional antes de chegarem às prateleiras.

Temos um idioma que, embora belíssimo, é carregado de sutilezas e de minuciosas regrinhas para tudo. É difícil, muito difícil, dominar todos os detalhes do português – mas usar isso como desculpa para não se aprofundar no básico não ajuda o autor em nada. Quer viver da escrita? Estude seu idioma.

Histórias bem escritas, afinal, são também histórias mais lidas, como se pode concluir por obviedade.

E bons livros têm os seus enredos bem escritos, não cuspidos de qualquer maneira em folhas em branco.

Regra # 2: Não ignore o mar de referências à sua volta

É impossível escrever bem se você não lê bem. Aliás, isso não deveria sequer ser uma questão: é um privilégio inenarrável termos, hoje, a possibilidade de ler tanto por tão pouco. Temos, ao alcance de todos, gênios como Guimarães Rosa, Mia Couto, Tolstoi. Mestres que praticamente refundaram idiomas inteiros e criaram modelos de expressão literária absolutamente revolucionários.

Como sequer querer multiplicar leitores sem antes entender como esses grandes mestres dos nossos e de outros tempos o fizeram? Ou, refazendo a pergunta: para quê desperdiçar essa base tão gigantesca de conhecimento que está ali, ao nosso alcance?

E isso porque estamos falando aqui apenas dos mestres já consagrados.

Há outros: há os escritores independentes que apenas agora começam a criar os seus públicos. E por que eles são fundamentais? Porque a literatura do futuro está sendo desenhada justamente por eles.

Há como ser um escritor incrível sem ser um leitor ávido? É possível, claro, mas não provável. E decididamente não é um caminho que pareça muito inteligente.

Quer um lugar ao sol junto aos mestres da literatura? Comece pelo caminho mais fácil e óbvio: aprenda com eles.

Faça uma lista de histórias e livros que te interessem e mergulhe neles. Leia não com um olhar leigo, mas sim como um explorador desbravando um novo universo: atente-se à cadência das frases, às palavras, às referências utilizadas, à maneira com que o autor brinca com o tempo e apresenta protagonistas e antagonistas, a toda a construção da trama.

Aliás, ao invés de apenas ler, estude as obras que considerar referências importantes para você.

Não que você precise seguir uma espécie de receita de bolo – escrever sempre dependerá de um estilo essencialmente individual. Mas o simples fato de você estudar os seus próprios mestres o fará ampliar, decisivamente, os limites da sua própria capacidade criativa.

Regra # 3: Entenda (e abrace) o zeitgeist

Zeitgeist é uma palavra alemã que significa “espírito do tempo”. Sua aplicação prática: entender qual o conjunto de valores que está efetivamente movendo uma sociedade em um dado momento para que se consiga tomar proveito disso.

O “tomar proveito”, nesse caso, significa surfar a onda de uma comoção popular já formada e, portanto, deixando algo que se queira vender (seja um produto ou uma história) com uma vantagem fundamental. E, apesar do conceito parecer recém saído das páginas de um livro de marketing, ele já era essencial há séculos.

Tome Shakespeare, por exemplo.

Todas, absolutamente todas as suas grandes peças tiveram os seus enredos baseados em fatos que estavam mexendo com o imaginário popular. Othello foi escrito quando Elisabeth I expulsava os mouros de Londres; o Rei Lear se baseou em um caso jurídico real que se transformara na grande fofoca do reino; MacBeth foi feita para celebrar, por meio de metáforas, a linhagem do monarca James I, para quem a peça foi escrita.

A receita de Shakespeare sempre foi simples (o que, ressalvo, não subtrai em nada a sua genialidade): entender o que estava movendo o povo e criar uma peça que metaforizasse o momento para angariar um tipo mais entusiasmado de atenção.

O bardo, no entanto, viveu em um tempo de poucas imensas mudanças sociais – o oposto do nosso.

Nossos tempos são mais agitados: há pequenas revoluções, por assim dizer, acontecendo a cada par de dias. Olhe para a política brasileira: não há uma só semana em que tudo não esteja na iminência de uma ruptura completa.

Olhe a política americana: não dá para dizer que a gestão Trump, com todas as suas promessas xenófobas e radicais, tenha pacificado o planeta.

Olhe para os refugiados do Oriente Médio, para a falta de preparo da Europa em recebê-los e para o absoluto caos gerado por causa disso. Olhe para o Brexit.

Olhe ao seu redor.

O mundo tende a ser um lugar muito, mas muito mais tenso do que o que já foi em qualquer ponto do passado pós revolução industrial.

E por que isso tem alguma relevância em um guia para escritores?

Porque, se nos permite a frieza, nunca um mundo entregou tantos zeitgeists e tanta inspiração para histórias.

Esse lugar quente, feito de cataclismas semanais e de radicalismos diários, é uma espécie de paraíso para mover mentes e corações e gerar clássicos talvez muito mais intensos que os da Inglaterra Shakespeariana.

Para quem está do lado de cá das prateleiras, apenas acompanhando a literatura moderna enquanto ela se forma, é um tempo que se pode traduzir no mais puro entusiasmo.

Para quem está do lado daí, escrevendo, torna-se cada vez mais imperativo saber como aproveitar bem esse nosso mundo tão inclinado a se revolucionar.

O resumo dessa regra? Busque banhar o seu enredo, de todas as formas possíveis, nos grandes temas que estiverem movendo a opinião social do seu público leitor. Acredite: só isso já servirá como um poderoso convite para que eles se entreguem de corpo e alma às suas páginas.

Regra # 4: Faça uma linha do tempo

Marguerite Duras costumava dizer que, para um escritor, escrever é um ato tão involuntário quanto respirar.

E, de fato, às vezes a maior dificuldade que encontramos é justamente evitar que ideias se transformem em frases, que frases se transformem em parágrafos e que parágrafos se transformem em capítulos com uma força tão tsunâmica que, em pouco tempo, a narrativa inteira acabe se perdendo no caos.

Não que esse caos seja de todo danoso: a livre escrita é uma ferramenta poderosa para ajudar o autor até a descobrir mais sobre a sua própria obra.

Há, no entanto, que se inserir um pouco de estrutura para evitarque a obra se perca – a começar por uma linha de tempo.

Um livro não precisa, necessariamente, seguir uma narrativa linear, partindo sempre no sentido passado-futuro. Na sua obra prima “Ghana Must Go”, a autora Taiye Selasi passeia pelas vidas de gerações de seus personagens sem nenhum tipo de receio, forçando o próprio leitor a encaixá-los cronologicamente na história.

Para a autora, no entanto, essa cronologia já estava mais que definida. Caso contrário ela facilmente se perderia e um livro fabuloso se transformaria em uma confusão incompreensível.

A lição que isso dá para escritores? Se você já tiver a sua história mais ou menos concebida, pegue um pedaço de papel e desenhe a sua cronologia.

Partindo do passado para o presente ou o futuro, anote os fatos, registre causas e consequências, insira personagens e genealogias onde achar necessário.

Este será o esqueleto da sua obra, uma espécie de linha mestra à qual você sempre poderá recorrer em caso de necessidade.

A partir daí você até poderá, para o bem do seu estilo narrativo, começar pelo final, voltar ao passado, saltar até o presente e brincar pela cronologia o quanto quiser. Mas, quando tiver dúvida sobre algum fato qualquer, sobre que antagonista impactou que protagonista por que motivo e em que momento, bastará recorrer à sua linha do tempo.

Esta será a sua estrutura perene, sagrada.

Regra # 5: Crie personalidades, não personagens

Se você já leu a obra prima Cem Anos de Solidão, do vencedor do Nobel de Literatura Gabriel García Marquez, certamente foi impactado pela árvore genealógica da família Buendía que, por gerações e gerações de nomes praticamente idênticos, chegam a confundir o leitor quanto a quem fez o que, quando e onde.

Mas… se há tanta confusão, como foi, exatamente, que esse livro se transformou em um dos maiores clássicos da história da literatura mundial?

Simples: cada um dos personagens tem uma história própria, uma personalidade marcante e absolutamente singular.

Mais do que nomes riscados em uma folha, os personagens de García Marquez têm os seus próprios medos, traumas, angústias, esperanças, ímpetos. Todos são fruto de suas sociedades, de seus tempos e de suas ambições, o que dá ao romance uma credibilidade formidável.

Mais do que isso: as personalidades são tão vivas que o leitor costuma não apenas se identificar, mas se apaixonar pela saga dos Buendías, criando um tipo de laço que costuma existir apenas aqui fora, na vida real.

O que se aprende com isso?

Que personagens precisam ser mais que nomes jogados no meio de uma história.

Quando for criar os seus, assegure-se de dar a eles uma história que inclua tudo, de medos a motivações.

Mesmo que parte dos traços de personalidade não encontrem espaço na narrativa em si, mantenha-os anotados para evitar que um determinado personagem aja de maneira incoerente com quem ele realmente for.

Regra # 6: Pesquise e crie mundos tangíveis, não cenários artificialescos

Seu livro, naturalmente, se passa em algum lugar – seja ele real ou imaginário. E mesmo que ele seja imaginário, sua imaginação certamente se baseou em algum (ou alguns) lugares reais, com auras e climas próprios.

Da mesma forma, seu livro também se passou em algum tempo. Seja na antiguidade clássica ou em um futuro distópico, o fato é que o tempo da sua narrativa certamente foi moldado e abalado por acontecimentos que fizeram todos, de personagens a cenários, chegarem onde chegaram.

Se estiver trabalhando em um romance sobre a ditadura militar brasileira, terá um enredo provavelmente abalado por um zeitgeist de medo, censura, guerra fria.

Se estiver concebendo uma história de amor nascida nos confins dos sertões nordestinos, terá um ambiente forjado pela lei do mais forte e pela escassez absoluta.

Se estiver historiando a vida do Rio de Janeiro no período imperial, perambulará sobre uma sociedade perdida entre os impulsos da modernização e o conservadorismo distópico característico de um reino europeu nos trópicos latinos.

Seja qual for o tempo e o espaço do seu romance, pesquise tudo o que conseguir.

Quais foram os personagens reais que marcaram época? Quais os fatos que movimentaram a opinião social? Quais os costumes? Quais as situações políticas? Quais os níveis de caos abalando os mundos em que suas histórias se passarão?

Da mesma forma que você deve criar personalidades ao invés de personagens, aqui é importante criar mundos próximos do que a imaginação do leitor possa entender como reais, críveis.

Regra # 7: Deixe as mãos guiarem o enredo

Se você tem uma linha de tempo, cenários críveis, personagens densos e um zeitgeist amarrando a tudo e a todos em uma mesma teia aderente, então resta a parte efetivamente divertida: escrever.

E aqui a regra é a mais simples de todas: dê espaço para que suas mãos, provavelmente já agoniadas, se derramem pelo teclado.

Nem sempre saberemos ao certo por onde começar, claro – mas, dado todo o material já colecionado sobre a história, aqui é o momento de deixar as mãos decidirem.

Busque apenas ficar a sós com o teclado e com suas anotações em algum ambiente propício à concentração e pronto. Comece.

Deixe vir uma palavra aqui, outra ali… Deixe surgir o eventual arrependimento, apagando frases inteiras e produzindo novas.

Na dúvida, recorra à suas anotações sobre a história. Se necessário, ajuste-as um pouco. Ou muito.

Mas siga.

Olhe em frente, testemunhando em primeira mão pessoas se metamorfoseando em personagens. Na imaginação, nomes passarão a se colar a faces, passados a rugas, futuros a olhares.

Encontros e desencontros inventados, e não por isso menos reais, povoarão o imaginário do escritor que ficará dali, de uma mesa discreta, arquitetando os destinos do mundo.

E que mundo, acrescente-se. Bem melhor que o de carne-e-osso, feito apenas do que vemos e não do que pensamos. O mundo de quem observa escrevendo inclui tantos pensamentos e inconscientes alheios que faz da realidade algo tão tedioso quanto uma samambaia dormindo no canto de uma sala escura.

Enquanto isso, o teclado metralha. Frases desconexas vão ganhando sentido, parágrafos vão se erguendo como que por mágica, capítulos vão se formando como cidades inteiras. Mundos inteiros vão nascendo, feitos para o deleite do seu Criador que constrói, destrói, cria e mata.

É, afinal, hora de escrever.

É hora de olhar ao redor e de voltar a imaginar as imaginações dos que passam crus, inocentes, aguardando sem saber os seus destinos serem esculpidos.

É hora de ignorar uma realidade para criar outra.

É hora de ser escritor.

Cuidados importantes

Não seja um mero relator de fatos

Qual livro é mais fidedigno: Os Sertões, de Euclides da Cunha, ou Guerra do Fim do Mundo, de Vargas Llosa?

Já começamos aqui pedindo desculpas se ofendemos qualquer um com o nosso próprio gosto literário. Não negamos, nem poderíamos negar, a poderosíssima importância histórica dos Sertões: sem ele, todo um tempo-espaço do nosso país seria desconhecido.

Mas, entre as páginas e mais páginas de dados históricos, há uma narrativa chata, insuportável, daquelas que faz o leitor questionar seriamente a sua própria sanidade caso pense em prosseguir até a última página. Os Sertões é tão linearmente verdadeiro que ele ultrapassa as fronteiras da chatice aceitável.

Mude, agora, de livro: vá para A Guerra do Fim do Mundo.

A história é a mesma: a Canudos de Antônio Conselheiro; a narrativa, por outro lado, é extremamente diferente.

Sim, há dados históricos e personagens inquestionavelmente verdadeiros. Mas há também pequenas corruptelas – como o fictício Barão de Canabrava, representando o Brasil velho e que, na vida real, provavelmente era o Barão de Jeremoabo.

Há cenas que poderiam facilmente ter existido – como diálogos entre soldados e jagunços – mas que dificilmente teriam sido exatamente aquelas, proferidos exatamente por aquelas pessoas. São alguns dos melhores diálogos de uma obra prima digna do Prêmio Nobel, acrescento.

Há realidade, sem dúvidas, algo comprovado por séries de referências históricas encontradas nos próprios Sertões de Euclides da Cunha. Mas, para aqueles momentos em que a realidade fica chata ou obscura demais, há a ficção com sua pulsação mais forte, mais densa, mais intensa.

O que, no fim, importa mais?

Uma realidade tão enfadonha quanto todas as realidades que existem, ainda que de uma densidade aterrorizante como a de Canudos do fim do século XIX, ou uma visão romanceada e, portanto, mais emocionante, dela?

A pergunta foi retórica: a verdade mais verdadeira, aquela que pode ser esticada em uma simples linha de tempo, é apenas um livro mal escrito.

A verdade que fica para a posteridade, afinal, é sempre a versão mais bem contada da história.

Veja: não estamos pregando aqui a ficcionalização de realidades. Estamos apenas reforçando que, com o objetivo de gerar mais aderência à sua obra, não se negue a lançar mão de uma imaginação… digamos… ponderada.

Observe com cautela a Lei de Tchehov

Tchekhov dizia que, se um revólver aparecesse em uma cena qualquer de uma história, é porque ele eventualmente seria disparado.

Histórias, ao menos sob a ótica do mestre russo, não tinham espaço para elementos supérfluos, para desnecessidades. Nas histórias, tudo devia ser calculado, medido, intercalado em uma relação simbiótica de causas e consequências.

Tudo devia ser construído para conduzir a concentração do leitor pela imaginação do autor: qualquer possível desvio, qualquer brecha deixada por descuido poderia soprar a imaginação do leitor para longe, fazendo-o criar versões paralelas repletas de “se’s” e costurar hipóteses que seriam, em essência, estradas abertas para a total perda de interesse no enredo real.

Tchekhov morreu em 1904.

Anos depois, um outro mestre da literatura, o japonês Haruki Murakami, publicou a sua obra prima 1Q84 – uma espécie de thriller psicometafísico tão impressionante que as suas 1.500 páginas terminam quase que em um susto só, deixando um surpreendente gosto de “quero mais”.

Em um ponto específico da história, um personagem entrega um revólver para uma amiga mencionando a “Lei de Tchekhov” e, portanto, profetizando que ela eventualmente atiraria em alguém. Ela teria que atirar, afinal.

E, no livro, há oportunidades para isso. Inúmeras.

A personagem, Aomami, chega a um ponto em que a arma vira quase uma extensão de seu próprio corpo. Mas… o livro chega ao fim e o revólver nunca cumpre o papel para o qual foi criado.

Alguns podem argumentar que, talvez, o papel do revólver tenha sido justamente esse: o de representar algo, de agregar alguma sensação de segurança para guiar a personagem pelo sempre tenso enredo. Talvez a sua própria existência tenha sido uma espécie de fim em si mesmo.

O fato, todavia, é que tanto na arte quanto na vida, histórias são invariavelmente resultados dos seus tempos.

Na Rússia do final do século XIX – a mesma de Tolstoi e Gorki, diga-se de passagem – a vida real era tão rústica e prática que uma arma não disparada simplesmente não faria sentido em nenhuma história: geraria estranheza, angústia, incômodo. No passado, tudo tinha um motivo de ser, um destino a ser cumprido – e a arte, enquanto mímica da vida, não poderia ser diferente.

Hoje, nossos tempos são outros.

Hoje, lemos livros enquanto prestamos atenção na estação de metrô que devemos saltar, assistimos à televisão enquanto navegamos no Facebook e escrevemos as nossas histórias enquanto absorvemos as críticas feitas em tempo real sobre seus trechos inacabados.

O autor de hoje é tão multitarefa quanto seu leitor: vive escolhendo, a cada piscar de olhos, a que deve prestar atenção e o que deve ignorar. Hoje, portanto, todos estamos acostumados não a uma, mas a toda uma coleção de “desnecessidades” supérfluas nos cenários das nossas vidas reais. Nossas vidas reais, arriscaríamos dizer, são muito mais recheadas de coisas supérfluas do que de elementos que realmente fazem parte dos nossos destinos.

O próprio conceito de destino mudou: de algo pre-determinado e imutável ele se metamorfoseou em algo essencialmente volúvel, dependente das pequenas escolhas nossas de cada dia.

No mundo de Tchekhov, um revólver não faria sentido se não fosse disparado. Era a finalidade que definia o ser, o objeto.

No mundo de Murakami, no nosso mundo atual, basta que um revólver exista para que sua função seja cumprida. O objeto em si é também a sua própria finalidade.

E isso muda toda a forma com que interpretamos as grandes obras dos nossos tempos de uma maneira revolucionária, somando sutilezas nos enredos que tendem a acrescentar muito mais sentido a cada capítulo, a emprestar muito mais realidade à ficção.

Para quem costuma achar que a “boa literatura” já estava morta (algo infelizmente corroborado por fatos como Bob Dylan receber o Nobel ou José Sarney ser membro da Academia Brasileira de Letras), é bom despir-se de preconceitos e ler novos livros com novos olhos.

As obras primas de hoje são muito mais complexas, sutis e densas que as do passado: os novos autores estão revolucionando a literatura como em nenhum outro tempo da nossa história.

O que isso tudo importa para você, escritor?

Simples: seja simples, mas não simplório, na construção de seus cenários e de suas tramas. Se quiser, acrescente objetos que sirvam apenas para agregar valor ao contexto – mas cuidado para não deixar o seu leitor perdido, com uma interrogação presa na mente.

Você não precisa seguir à risca a Lei de Tchekhov – mas isso não significa que precise também desprezá-la completamente.

Dicas de George Orwell sobre como escrever bem

Já que tanto falamos sobre mestres e referências, por que não abrir uma seção de dicas partidas exatamente de um deles?

George Orwell é, provavelmente, um dos escritores mais lidos do mundo. Autor de A Revolução dos Bichos e 1984, ambos com uma concepção distópica de sociedades “pseudo-comunistas”, ele cativou leitores por todo o planeta.

Boas ideias para livros, no entanto, são apenas parte da fórmula de sucesso de qualquer escritor. Além disso – e de outros ingredientes como, por exemplo, pitadas de sorte e competência em autopromoção – há que se escrever bem. Claro.

E não é que Orwell criou uma espécie de manual para se escrever bem? Veja as suas seis regras abaixo:

  1. Nunca use uma palavra longa quando uma curta resolver
  2. Se for possível cortar uma palavra de um texto, corte
  3. Nunca use a voz passiva quando puder usar a voz ativa
  4. Nunca use metáforas ou comparações que já forem “lugar-comum” (e que, portanto, você já tiver visto inúmeras vezes)
  5. Nunca use um termo em inglês ou em jargão científico quando conseguir substituir por algo mais corriqueiro, simples de ser entendido
  6. Se necessário, quebre qualquer uma dessas regras para evitar dizer algo que soe tosco

Tudo bem que não há um livro de receitas para se escrever livros – mas não custa nada beber um pouco da sabedoria dos que já trilharam, com sucesso, o caminho que estamos buscando. Não é verdade?

Livro escrito é livro pronto?

Não: um original escrito deve ser considerado como um rascunho do que o seu livro realmente será.

Há ainda outros pontos que precisam ser endereçados antes dele ser efetivamente lançado, incluindo leitura crítica, revisão ortográfica e gramatical, capa e diagramação, ISBN etc.

Aliás, temos um post bem completo sobre como fazer o registro do ISBN, sendo esse um processo que costuma ser um pouco mais burocrático, e outro aqui com todas as etapas de lançamento de um livro.

Mas esse é um segundo passo, dado apenas depois que seu livro estiver devidamente escrito e que você se sentir razoavelmente confortável com o resultado.

Quer mais informações sobre como lançar um livro? Fizemos um post aqui no blog do Clube de Autores que certamente poderá ajudá-lo. Acesse, leia e tenha uma boa sorte com seu livro!

 

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50 dicas para escrever mais e melhor

Todos nós, escritores, sempre queremos escrever mais e melhor. Não importa a nossa “qualidade percebida”, por assim dizer: a não ser que tenhamos o mesmo senso psicótico de auto-excelência que o Nietzsche, melhorar é sempre uma busca constante.

Não é à toa que tivemos um interesse tão grande nas palestras online que estamos planejando por aqui, afinal. Mas nem tudo precisa ser resolvido com um evento em tempo real: a própria Internet já é uma base infinita de inspiração somada a um mar com dicas que variam das mais supérfluas às mais densas.

Pesquisando um pouco, achamos esse post no site Ficção em Tópicos com 50 dias para se escrever mais e melhor. Vale conferir clicando aqui ou no link http://ficcao.emtopicos.com/escrever/dicas-escrever-melhor-historias/!

Quem sabe algumas delas não ajudam você a apurar melhor o seu próximo conto ou livro?

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Vídeo aulas: como escrever um romance

Referências nunca fazem mal… certo? Afinal, quanto mais nos aprofundarmos em um tema, mais vamos colecionando experiências, opiniões e repertório para dominá-lo e alcançar eventuais metas que temos relacionadas a ele.

Isso se aplica também a praticamente todos os que estão lendo este post: escritores. Garimpamos na Web alguns conteúdos feitos especificamente para autores e descobrimos uma vídeo aula aberta no Youtube que vale a pena.

São cinco episódios (o sexto, aparentemente, não chegou a ser publicado). Confira:

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