Não há literatura sem liberdade de expressão

Sim, este é um post de cunho essencialmente político. Mas não é um post defendendo esquerda ou direita: é um post, a bem da verdade, atacando os extremos dos dois lados.

Semana passada aconteceu um troço no mínimo esquisito que vou pontuar aqui, da maneira mais didática possível, para evitar mal entendidos:

  1. Uma empresa privada alugou 5 salas de cinema, no Cinemark, para exibir um filme chamado “1964: O Brasil entre Armas e Livros”. Não era – e essa informação é importantíssima – uma exibição normal, aberta ao público, como um filme convencional: eram cinco sessões fechadas de cinema para convidados.
  2. A Cinemark, como qualquer empresa privada, tem o direito de escolher o que pode ou não ser passado em suas salas. No caso de eventos fechados, ela tem como regra que nenhuma sala pode ser alugada para eventos que possam ser considerados políticos.
  3. Por um erro que eles próprios admitiram, o filme – que tem um posicionamento político que pende à direita – acabou sendo liberado e exibido.
  4. Isto feito, eles liberaram um comunicado assumindo o erro e dizendo que eles não voltariam a alugar a sala para eventos do gênero.

Foi o caos.

Primeiro: com a notícia de que o filme havia sido exibido, a esquerda conclamou um boicote à Cinemark que tomou proporções tão grande nas redes sociais que o #BoicoteCinemark virou o tema mais comentado no Twitter do mundo todo.

Segundo: com o comunicado da Cinemark, a direita se disse censurada e aumentou ainda mais o movimento do boicote.

Por que isso importa para nós? 

Porque nós lidamos com cultura. Não há, em nenhum lugar do mundo e da história, situação em que a cultura ganhe com a censura ou com as fake news. Censura e fake news conclamados e viralizados por todo um povo transforma a sociedade de vítima em algoz do seu próprio destino.

A esquerda pediu um boicote à Cinemark porque ela exibiu um filme de direita, pro-golpe de 64? Não é possível que ninguém consiga perceber a ironia aqui: pede-se a censura a uma empresa por ela não ter censurado um conteúdo considerado errado. Não foi pela liberdade de expressão que tantos morreram nos porões da ditadura brasileira? Honremos os nossos heróis, portanto, brigando não pela censura, mas sim pela liberdade. Direita, esquerda, centro: todos devem poder ter a sua voz. Não gosta dela? Não ouça. É assim que sociedades funcionam.

A direita pediu um boicote porque a Cinemark censurou um filme? Fora o fato de que empresas privadas não são governo e não têm poder de censura – mas têm o de escolha dos próprios produtos – o filme foi exibido. Ou seja: contra o que, exatamente, a direita extrema bradou? Porque veja: o filme foi exibido em sessões fechadas exatamente como acordado com a empresa que as alugou. Ele não saiu da grade de exibição da empresa pelo simples fato de que ele nunca esteve lá.

Ou seja: enquanto a esquerda pedia censura sem se dar conta da posição irônica em que estava, a direita espalhava fake news sem sequer se dar ao trabalho de entender o que estava acontecendo à sua volta.

Irreal essa situação, exemplo perfeito do caos quase hormonal em que a nossa sociedade se transformou.

Aqui, no Clube de Autores, temos livros de direita e de esquerda. Todos são bem-vindos. 

Eu, pessoalmente, tenho as minhas próprias opiniões políticas – assim como você também certamente tem as suas. Isso significa que as minhas opiniões (ou as suas) devam ditar que livros devam ser publicados? É óbvio que não.

Não há liberdade de expressão de mão única. Não há liberdade de expressão sem que aceitemos que outros possam ter opiniões diferentes das nossas – e que esses outros tenham tanto direito de expressá-las quanto nós.

Assim, entendamos todo esse imbróglio do mundo do cinema como uma espécie de abismo para o qual estamos rapidamente caminhando. Reflitamos sobre isso, aumentemos a tolerância e sigamos vivendo como sempre pregamos que a vida deveria ser: livre e pacífica.

Por que senão o próximo passo será alguém começar a exigir que livros sejam queimados. E aí teremos realmente chegado ao fim.

 

 

 

 

 

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