Mundos em transposição, parte 2

Há algumas eras atrás, Mikhail Gorbatchov, então líder da toda poderosa União Soviética, fez uma visita de estado ao Reino Unido.

Nela, as autoridades britânicas esforçaram-se para mostrar todos os detalhes matemáticos da economia capitalista, explicando números, destilando PIBs e exalando estatísticas.

Em um dado momento, Gorbatchov pediu a palavra e disse:

“Em Moscow, colocamos as mentes mais brilhantes da União Soviética dedicadas a solucionar o problema da distribuição do pão no país. Ainda assim, nunca conseguimos eliminar ou mesmo diminuir as filas nos centros de distribuição. Por todos os lugares que andamos aqui em Londres, não vi uma única fila formada com esse fim. Gostaria de conhecer as pessoas responsáveis pela organização da distribuição de pão no Reino Unido, pois certamente temos muito a aprender com elas.”

Conta a história que seus interlocutores se entreolharam, atônitos, e tiveram dificuldades em explicar ao líder soviético que não existia nenhuma pessoa ou departamento responsável por esse tipo de organização. Ao contrário: lá, tudo funcionava justamente por ser desorganizado (ou “auto-oorganizável”).

Não, este não é um post de cunho político (apesar de parecer pelos exemplos de comunismo versus capitalismo). Nem faria sentido ser: a União Soviética se dissolveu há décadas justamente pela sua incapacidade de gerir o próprio estado e criticá-la seria chover no molhado de uma forma no mínimo desnecessária.

A questão aqui é outra: um sistema de gestão ultra-centralizado versus um sistema de gestão completamente descentralizado.

Quer um exemplo bem mais próximo da nossa realidade?

O mercado editorial tradicional segue um modelo de gestão absolutamente centralizado. Nele, uma meia dúzia de pessoas liderando uma meia dúzia de editoras efetivamente “decide” o que milhões de pessoas lerão. Essas decisões, por sua vez, são canalizadas para grupos ainda mais restritos: as poucas grandes livraras do mercado. Sim, poucas: no Brasil, por exemplo, as duas gigantes, Saraiva e Cultura, respondem juntas por cerca de 60% do total de vendas em todo o território nacional.

O resultado de tudo isso? Saraiva e Cultura estão em severas dificuldades financeiras. A Saraiva, apenas para se ter ideia, não paga as editoras das quais compra os livros para revender desde fevereiro! Essas editoras, por sua vez, vivem cambaleando entre a inadimplência do que vendem e os prejuízos do que não vendem por conta de suas apostas míopes em títulos que cismam em não se tornarem best-sellers.

Muito se disse que o mercado editorial tradicional, aqui no Brasil, se desmoronaria com a ameaça da Amazon e dos ebooks. A profecia está certa; as causas, erradas.

Ebooks deixaram faz tempo de ser uma ameaça: nenhuma das dramáticas previsões de fim do livro impresso aconteceu e, ainda que tivessem acontecido, a relevância da forma de leitura é nula (desde que livros continuem sendo lidos – como efetivamente continuam). A Amazon, por sua vez, segue sendo uma ameaça imensa aos players tradicionais – mas ela já é uma ameaça que nunca se concretiza faz tanto tempo, mas tanto tempo, que o “medo” aos poucos vai perdendo estatura frente à realidade.

Ainda assim, livrarias seguem usando o calote como método de sobrevivência, editoras tradicionais seguem falindo e a sobrevivência do modelo tradicional como um todo mostra-se nitidamente em cheque.

Por que?

Porque, da mesma forma que com o pão soviético, sistemas de distribuição centralizados simplesmente não funcionam.

No Clube de Autores, todos podem publicar seus livros gratuitamente. Quem escolhe o que é bom e o que é ruim? O leitor. E ele nem precisa fazê-lo aqui em nosso site: hoje, ele tem acesso a todas as dezenas de milhares de títulos autopublicados nas mesmas livrarias tradicionais que está habituado. Não há centralização nenhuma aqui: tudo é autogerenciável pelo próprio mercado.

Ainda somos pequenos frente ao potencial, de fato – mas já estamos crescendo ao ponto de comprovar essa tese com absoluta nitidez.

Não precisamos ficar no nosso próprio exemplo: a Estante Virtual é um outro caso perfeito. Ela é, hoje, uma das livrarias online mais relevantes do país – ainda que não tenha um único livro em estoque. Quem define os títulos que ela vai vender? O mercado.

Como plataforma, ela “apenas” interconecta centenas de sebos e pequenas livrarias no mesmo local. Com isso, claro, ela soma uma pluralidade de estoques nichados que incluem de livros fora de circulação a best-sellers e, assim, consegue atender a todos. Ou seja: sua oferta é gerida pelo mercado de maneira absolutamente orgânica, auto-regulamentada.

Reforço aqui a palavra-chave: plataforma.

Apesar de terem modelos absolutamente opostos, nem o Clube e nem a Estante operam com a orquestração da demanda: ambas as empresas deixam o mercado decidir. E, por mercado, entenda-se as duas partes mais interessadas: o leitor e o autor. Quem mais, afinal, deveria decidir por eles?

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Mundos em transposição, parte 1

“Qual o sentido de ir a uma livraria, por mais megastore que seja”, uma amigo me perguntou no final do domingo.

Ela não se referia à Internet, ressalte-se: referia-se a uma livraria física, daquelas belíssimas que decoram os shoppings e esquinas daqui de São Paulo com verdadeiras esculturas renascentistas feitas de letras e papel.

Ela continuou: “Já fui em três livrarias ontem e não achei nenhum dos dois livros que procuro. Pedi para o vendedor me indicar algo ao menos relacionado ao tema, mas ele conhecia literatura tanto quanto eu conheço física quântica.”

Sua conclusão: se estiver procurando um livro específico, mais fácil e rápido buscá-lo na Internet, em algum site tipo a Estante Virtual, que sempre tem tudo da velha literatura.E, se estiver buscando algo mais novo sobre um tema específico, melhor garimpar no Clube de Autores, que concentra tudo de novo.

Um ponto em comum entre ambos: nenhum dos dois trabalha com estoque. Ainda que com modelos diferentes, todos fazem da própria rede – seja de sebos e pequenas livrarias a autores independentes – a fonte primária de conteúdo.

É justamente aí que está o futuro. Ou melhor: é “aqui”.

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Nossa identidade em nossa desgraça

Os modernistas de 22 costumavam falar que não existia, no Brasil, uma identidade realmente particular. À época, nós admirávamos a arquitetura francesa, líamos europeus e americanos, babávamos em quadros e esculturas feitas do lado de fora das nossas fronteiras.

Sim, isso mudou bastante. Sim, hoje temos uma inegável identidade tipicamente brasileira, algo que nos define e nos segmenta do resto do mundo. Ainda bem: não há como melhorarmos como povo se não soubermos bem quem somos.

Dia desses fiquei me perguntando de onde ela – essa nossa identidade – veio.

Me perguntei isso enquanto terminava de ler o Quinze, de Rachel de Queiroz, ignorando que a resposta estava em minhas mãos.

Identidades de um povo, pensei, surgem das maneiras com que ele encara as suas próprias desgraças, da forma com que ele cisma em renascer das cinzas.

Em nosso caso, concluí – e perdoem-me se acharem essa conclusão enviesada demais – que a noção de Brasil nasceu na aridez infernal do sertão.

Não que não tivéssemos os nossos Machados de Assis antes dos nossos Guimarães Rosas – gênios sempre aparecem em qualquer ponto da história da humanidade. Mas as histórias escritas por aqui até o princípio do século XX, embora fabulosas, poderiam facilmente ter se passado em Paris, em Londres, em Nova York. Até então, o Brasil não era um lugar – era um conjunto de coordenadas geográficas.

Não era o caso de Chico Bento e de Conceição, protagonistas do Quinze, que sofreram a fome e a miséria em uma das maiores secas que o Brasil vivera. Não era o caso de Paulo Honório, que impôs a sua própria lei em São Bernardo quando não havia nenhuma que o conviesse. Não era o caso de Baleia, cadelinha que assassinada pelo próprio dono em Vidas Secas. Não era o caso de Riobaldo, jagunço desafiando os perigos da vida com oportunismo e coragem.

Em todos esses personagens havia fé, perseverança, senso próprio de justiça contrariando ambientes corruptos, perigosos, difíceis. Para mim – e não há quem me convença do contrário – o Brasil que conhecemos nasceu no sertão.

Ele cresceu a partir daí: se expôs nas selvas do Hatoum, nas modernidades de Clarice Lispector, na boemia largada de Jorge Amado. Cresceu e se tornou o que é hoje.

Mas a grande questão sobre identidades nacionais não é apenas o seu passado – é o seu futuro.

Se o Brasil nasceu do sertão, onde ele nascerá de novo? Onde a Fenix da nossa identidade renascerá, em que cantos estarão despejadas as cinzas das nossas novas desgraças?

Nas políticas populistas que nos dilaceraram? Nas nossas belas e destroçadas capitais da beleza, como o Rio ou Salvador? Na convulsões desesperadas da urbe paulistana? Ou em nossas terras sem lei, onde escravos ainda suam e índios tem as mãos decepadas por discordarem do homem branco?

Desgraças, infelizmente, não nos faltam aqui em nossas terras.

Que elas minguem rapidamente – é o mínimo que podemos desejar.

Mas que, no caminho, nos ensinem mais sobre quem somos.

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Celebre-se: escreva a sua história

Se você escreveu um livro e o publicou, não esqueça de celebrar-se.

Não digo aqui para se abraçar e se beijar, claro – embora isso também não seja um mau conselho dado que escrever um livro é um marco incrível. Mas digo para organizar o seu próprio evento, o seu lançamento.

O motivo? São poucos os momentos em que você conseguirá reunir tantos interessados – incluindo família e amigos – com o objetivo de dar ignição às suas vendas.

Em um lançamento, dezenas ou centenas de pessoas – dependendo das suas redes sociais (virtuais ou não) se reunirão para comprar um pedaço da sua mente, para garantir que olhos percorrerão os papeis que escreveu, para espalhar a sua palavra.

Daí, muita coisa pode acontecer. Pode ser que seu livro viralize e alcance novos mundos; pode ser que você seja catapultado para os holofotes literários; ou pode ser que você viva o auge da vida do seu livro ali mesmo, naquele evento.

Mas, seja como for, não há como perder: se é no livro que uma história se escreve, é também no seu lançamento que o autor vira protagonista.

Isso sem contar, claro, que as opções de lugares são imensas, em qualquer cidade do país. Qual livraria não aceita negociar ou mesmo dar espaço, afinal, para que autores levem hordas de leitores dispostos a comprar livros em seus domínios? Normalmente, é uma questão de ir até a sua preferida e negociar uma data. Simples assim.

Tem um livro publicado aqui no Clube? Então não perca tempo: organize já seu evento de lançamento. Escreva melhor a sua história.

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Livrarias devem perder para autores?

Virou moda dizer por aí que as redes sociais afastaram as pessoas, que todos conversam mais com os celulares que com os amigos etc. e tal. Nunca concordei com isso.

Primeiro, porque ninguém “conversa com o celular”: conversa-se “através” do celular com um, dois, três, n amigos. E, segundo, porque foram justamente as redes que possibilitaram que nosso círculo de amigos, íntimos ou não, aumentasse exponencialmente. Na pior das hipóteses, isso dá a todos a inédita oportunidade de escolher com quem queremos aprofundar mais os nossos laços.

Mas não é exatamente esse o assunto do post. As redes trouxeram um outro fenômeno que, só agora, depois que lancei meu novo livro, me toquei: a aproximação impressionante de autores e leitores.

Me explico melhor. Até pouco tempo, um leitor interessado em um livro tinha a opção mais óbvia na mão: comprá-lo em uma livraria (fosse física ou online). Livros, afinal, se vendem em livrarias… certo?

Não necessariamente.

Para quê comprar em uma loja qualquer algo que você pode comprar diretamente do produtor (no caso, o autor), com quem você pode iniciar um relacionamento a qualquer momento via Facebook ou Instagram?

Para o leitor, não é uma experiência melhor falar diretamente com o escritor e conseguir dele o livro desejado com direito a autógrafo e tudo?

Sim, é.

E esse tem se transformado em um comportamento comercial cada vez mais nítido, como eu mesmo pude testemunhar nos últimos meses.

Comprovei isso com outros autores também e todos dizem a mesma coisa: seus livros até podem estar nas maiores livrarias do país, mas isso não impede levas semanais ou mesmo diárias de interessados aparecendo em seus Instagrams para pedir cópias autografadas.

Ainda não temos o ferramental perfeito para garantir praticidade para os autores, que tendem a se transformar em lojas online de suas próprias criações… mas chegaremos lá rapidamente.

O que isso quer dizer? Que livrarias, grandes ou pequenas, terão um concorrente muito mais forte agora: os próprios produtores dos livros que elas vendem.

Há uma nova revolução chegando no universo literário.

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