Onde moram as boas histórias?

Darei aqui a minha opinião pessoal. Uma opinião sem nenhuma pretensão de se coroar incontestável ou mesmo de representar a forma com que o Clube de Autores como um todo pensa. Mas é uma opinião de alguém que ama, vive de e devora diariamente livro após livro.

Nessa minha opinião, boas histórias moram – ou ao menos preferem morar – nos lugares mais infernais, conflituosos e agonizantes do mundo.

Boas histórias não gostam de tédio, de monotonia, de vidas calmas tocadas em lugares estáveis. Acredito que busca estabilidade é sempre a nossa mente que, míope, acredita que paz de espírito faz bem à saúde. Mas quem nos dá aquela essencial gana de viver, quem esculpe emoções usando a adrenalina das grandes adversidades, é o nosso coração – e este precisa de dificuldades para bater mais forte. É também o nosso coração que determina o nosso estado de espírito, a nossa empolgação com a vida, a nossa ansiedade por uma boa história, os nossos dramas e gargalhadas com desfechos inusitados.

A paz e a estabilidade são, por definição, previsíveis. Boas histórias, por sua vez, tem enredos (também por definição) imprevisíveis. Percebe a diferença?

Boas histórias, portanto, gostam de se originar em momentos de crise aguda, de guerra, de desafios colossais impostos a pessoas comuns. Boas histórias gostam de guetos, de discriminações, de mutilações, de desafios. Boas histórias nascem de uma intenção natural do ser humano de superar injustiças impostas a ele pelo acaso, por terceiros ou por si próprio.

Não me entendam mal: obviamente, não estou pregando aqui a favor das grandes mazelas da humanidade. O contrário talvez fosse mais verdade: estou apenas dizendo que é dessas grandes mazelas, dessas grandes adversidades, que nascem as grandes histórias de superação – e que é dessas histórias que as inspirações do mundo inteiro são construídas.

Nietzsche costumava dizer que só se pode levar uma vida plena quando se mergulha de cabeça nas dificuldades e adversidades que ela costuma nos lançar. Concordo em gênero, número e grau: uma vida sem adversidades é uma vida sem boas histórias. E se não é para cultivarmos boas histórias, para que então vivemos?

Da mesma forma, se não é para registrar boas histórias, para que escrevemos?

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