Exercitando o ócio criativo

Certa vez, um escritor amigo meu me ensinou um exercício que achei extremente interessante: criar enredos a partir de pessoas anônimas que cruzamos nas ruas.

Olhe para a frente. Sabe aquele sujeito ou aquela mulher que você nunca viu antes na vida mas que, agora cruza seu horizonte? E se você a transformasse em protagonista de uma história qualquer agora, inventando um par romântico, uma trama carregada de tensão, um destino de crueldade singular?

Claro: pode ser que a história em si não dê em nada, que ela não seja digna sequer de entrar no papel. Mas o ponto não é esse: inventar, afinal, é sempre um bom treinamento para nossos “músculos criativos”. E, além de treinamento, convenhamos… é um exercício no mínimo divertido :)

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10 Escritores essenciais da literatura brasileira contemporânea

Percebam que, no título deste post, a palavra “contemporânea” se destaca. Pois bem: esta lista, feita pelo Homo Literatus, inclui 10 nomes e livros que, segundo ele, são essenciais.

Pode ser que você concorde ou discorde – listas, afinal, são sempre pessoais como os gostos de cada leitor. Mas fica a dica aqui para quem quiser mergulhar um pouco mais fundo nas letras produzidas aqui em nossas terras:

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Estamos cercados por histórias. Basta agarrar a que mais convier.

No post da segunda passada, comentei da inimaginável e quase inacreditável jornada dos exploradores ingleses a bordo do Endurance que, na tentativa de cruzar a Antártida, precisaram sobreviver por mais de um ano acampados sobre icebergs e enfrentando algumas das pragas mais severas da humanidade.

Na quarta, falei da verdadeira explosão de pensamentos na mente do irlandês Christopher Nolan no instante em que uma droga experimental deu a ele movimentos mínimos nos olhos e cabeça para que conseguisse se comunicar.

Foram dois exemplos extremos: um de um grupo convencional de pessoas que praticamente caçaram suas adversidades nos confins do mundo, outro de um cidadão paralisado, que tinha tudo para morrer como um vegetal, mas que decidiu imortalizar-se a partir da exposição singular do universo que existia em seu cérebro.

Entre as vidas dos exploradores do Endurance e do Nolan, estamos nós. Todos nós, os mais de 5 bilhões de humanos do planeta.

A inegável e inignorável lição que eles nos deixaram: boas histórias nos cercam por todos os lados. Para honrar as nossas vidas, basta que agarremos as que preferirmos, nos catapultarmos para dentro delas e escrevê-las com as nossas próprias canetas.

Escrevamos.

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A aventura presa no cérebro

Em 1988, o escritor Christopher Nolan venceu o prêmio Whitbread – um dos mais famosos do Reino Unido – por conta da sua autobiografia, Sob os Olhos do Relógio.

O que isso tem demais?

O autor.

Ao nascer, o irlandês Christopher Nolan passou por uma série de complicações no parto e acabou tendo um caso severo paralisia cerebral que o deixara essencialmente inerte. Ao longo de toda a sua infância, entre os anos 60 e 70, seus pais lutaram arduamente para garantir um mínimo de educação e mesmo convencer o governo de que aquele pedaço praticamente imóvel de carne esparramado sobre a cama estava, efetivamente, aprendendo.

Foi, provavelmente, uma das infâncias mais áridas que se pode sequer imaginar, traçada em meio a uma batalha diária por sobrevivência, resiliência e, sobretudo, por um milagre.

Quando Nolan fez 10 anos, o milagre finalmente veio: um novo medicamento passou a ser testado nele e permitiu que sua musculatura relaxasse o suficiente para que ele pudesse controlar pelo menos parte dos movimentos da cabeça e dos olhos.

Foi o suficiente para destrancar uma mente brilhante que vivia apriosionada pela escura pressão da incomunicabilidade.

A partir daí, seus pais criaram uma espécie de braço mecânico preso à sua cabeça que o permitia se comunicar com o mundo a seu redor, apontando letras que eventualmente formariam palavras, frases, parágrafos e… livros.

Assim, mesmo sem nenhuma possibilidade de devorar o mundo ao seu redor de forma físico-metafórica, Nolan conseguiu destrancar seu cérebro e narrar aventuras reais que se passavam dentro de si, enquanto se digladiava com as tantas adversidades impostas a si pelo destino.

Mesmo considerando que escrever era uma tarefa árdua – Nolan precisava “pinçar”, lentamente, letra a letra – ele acabou tendo uma produção inacreditável: foram 4 livros, um mais incrível que o outro, responsáveis por transportar o leitor para dentro de uma das mentes mais aprisionadas que o mundo já testemunhara.

Christopher Nolan morreu aos 43 anos, em 2009, engasgado em um pedaço de salmão.

Seus 43 anos de vida, no entanto, marcaram o mundo mais do que os 80, 90 ou 100 anos de muita gente.

Seus 43 anos de vida provaram que tempo não se mede com relógios e calendários, mas sim com histórias.

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Adversidades, aventuras, histórias

Em 1914, um grupo de exploradores ingleses decidiu lançar-se em uma missão sem paralelos: cruzar, pela primeira vez na história, toda a imensidão da Antártida, passando pelo polo sul ao longo do caminho. Seria uma viagem repleta de riscos, feita em uma época praticamente sem comunicação (o rádio estava apenas nascendo e não haveria como a tripulação se comunicar com o continente), em um barco inevitavelmente frágil para as condições e com chances pequenas de sucesso.

Para piorar, o montante pago para os marinheiros seria praticamente simbólico: quem quisesse se candidatar para a jornada o faria principalmente em nome da aventura. Veja, por exemplo, o anúncio postado nos jornais britânicos pelo chefe da expedição, o já famoso Ernest Shakleton:

Na tradução: “Procura-se homens para jornada perigosa, pagamento pequeno, frio intenso, longos meses em completa escuridão, perigo constante, jornada de volta duvidosa, honra e reconhecimento em caso de sucesso.”

Se os humanos fossem racionais, nem um único teria aparecido no endereço para entrevistas, no número 4 de Burlington Street, em Londres. Mas não somos: 5 MIL candidatos se ofereceram para as pouco mais de 25 vagas disponíveis.

O que isso prova?

Que, no fundo, o que nos move é a caça por boas histórias de vida – principalmente as que se traduzem em aventura perigosa, do tipo que capaz de absorver a plena atenção das multidões quando contadas em primeira pessoa.

No caso do Endurance – o nome do barco comandado por Shakleton – a aventura foi desastrosamente incrível: o navio afundou nos arredores da Antártida, forçou a tripulação a sobreviver por mais de um ano acampada em cima de um iceberg que, lentamente, ia se desfazendo, até que ela se lançou ao mar em pequenos barcos rumo à relativa segurança de uma ilha inóspita e, de lá, partiu em busca de socorro centenas de milhas ao norte.

A história do Endurance, imortalizada em um livro homônimo, é, até hoje, considerada uma das sagas de sobrevivência mais incríveis da história da humanidade. Eles não conseguiram cumprir a meta original da expedição. Ao contrário: sequer conseguiram pisar nas beiradas do continente antártico. Mas conseguiram cumprir, de longe, a meta efetiva: imortalizar-se em uma aventura sem precedentes, fazendo as suas vidas singularizarem-se, destoarem-se definitivamente, das dos outros bilhões de homens que perambulam nas ordinariedades do cotidiano convencional.

E aqui volto ao ponto principal do post: a sobrevivência em si chega a ser coadjuvante para a saga do Endurance. O importante, o fundamental, foi a história construída por esses bravos exploradores que enfrentaram fome, hipotermia, medo, sede e desconforto extremos em busca unicamente de uma aventura inesquecível. De um sobrenome para eles mesmos. De um legado para passarem adiante.

Valeu a pena?

Para os sobreviventes, e segundo os próprios, sim.

Para nós, que hoje podemos nos deliciar nos relatos emocionantes do impensável que eles viveram, idem.

Não há conclusão diferente que se possa chegar exceto a de que viver, ao menos no sentido filosófico da palavra – o único que realmente conta -, vale a pena mesmo apenas quando nos dispomos e enfrentar adversidades e escrever, a partir delas, as mais inspiradoras histórias.

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