Sobre ser e existir, parte 1

O Sr. Biswas era um indo-caribenho azarado, zangado, sempre às turras com o próprio destino que o catapultara para dentro de uma família cuja característica mais marcante era a capacidade de oprimir qualquer traço de independência individual. Passara a sua vida em busca do seu próprio lugar e experimentara de tudo: fora pintor de sinais, dono de uma pequena mercearia, feitor em uma plantação de cana de açúcar, jornalista. Mas fora, sobretudo, protagonista de uma trama extremamente bem elaborada sobre a busca da autodescoberta em meio à abafada ilha de Trinidad dos anos 40.

Ruth Swain, por sua vez, já era mais otimista – embora suas condições fossem para lá de tenebrosas. Abraçando uma doença gravíssima desde a pre-adolescência, ela cresceu vendo a chuva da Irlanda moldar histórias e destinos a partir da cama do seu quarto. Remoeu as tragédias familiares, voou até o passado longínquo, caminhou nos passos do pai, lamentou a morte do irmão, entendeu que cada um deles existe apenas porque suas histórias foram contadas.

Anos antes, da então quase macabra cidade de Praga, um Gregor Samsa atônito acordou para se ver metamorfoseado em uma barata. Muitos dos humanos modernos certamente entrariam em um pânico existencial incontrolável – mas Gregor passou seu tempo de inseto remoendo aquelas pequenas e sufocantes necessidades cotidianas como contas a pagar, família a sustentar, emprego a manter.

Mas o que há de semelhante entre um indo-caribenho da década de 40, uma irlandesa da década 80 e um tcheco do começo do século XX?

Em tese, as suas inexistências. O primeiro, Sr. Biswas, é protagonista da obra prima de V. S. Naipaul (Uma Casa para o Sr. Biswas); Ruth Swain, da maravilhoso A História da Chuva, de Niall Williams; e Gregor Samsa, claro, do grande mestre Franz Kafka.

Mas, embora inexistentes, suas histórias chegaram a mais olhos e ouvidos, ajudaram a formar mais pensamentos e mentes, do que muitos dos seres humanos “reais” que viveram ruminando seus tempos na terra nesse mesmo período. Quantos foram os Josés, as Marias, as Martas e os Antônios que nasceram, cresceram e morreram deixando impressões tão fortes no mundo quanto Biswas, Swain e Samsa? Pouquíssimos, eu arriscaria dizer.

E por isso a inexistência dos personagens é apenas uma tese vazia, ôca, aceitável apenas perante os olhos toscos dos que desconhecem qualquer capacidade mínima de percepção sobre a vida, a realidade e, portanto, a existência.

Se existir é ter os contornos reais necessários para mudar o mundo a partir de impactos causados, então tanto esses quanto quaisquer outros personagens são tão reais quanto qualquer outra pessoa de carne e osso.

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Hoje há história sendo feita em nossa frente

Por favor, que ninguém encare este post como político e partidário: não é o caso.

Mas hoje, dia 24 de janeiro, temos um ex-presidente sendo julgado em segunda instância por corrupção, podendo inclusive sair preso.

Não pretendo, aqui, fazer coro para um lado ou para outro: acredito que todos já temos uma opinião formada e na torcida pelo desfecho que mais agrada as nossas próprias consciências.

O ponto aqui é outro: hoje, aconteça o que acontecer, há história sendo feita. Hoje, pela primeira vez, o Brasil terá um ex-presidente oficialmente liberado ou condenado, sob urros irados e aplausos incandescidos.

Nós, escritores, nos habituamos a encontrar enredos nas salas mais escuras das nossas próprias imaginações: inventamos mundos como quem troca de camisa. É o que mais gostamos de fazer, afinal.

Mas são raras as vezes em que enredos fortes, indiscutíveis, se desdobram perante nossos olhos. São raras – mas hoje é uma dessas ocasiões.

Assim, quer você torça para um ou para outro desfecho, guarde um pouco de energia para celebrar o simples fato de que está testemunhando, em primeira mão, um dos dias realmente decisivos da história do nosso país. E isso, para um escritor, certamente vale muito.

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A diferença entre a verdade e o real

O livro no qual eu estou trabalhando parte de uma série de biografias. São histórias verdadeiras, vividas por personagens verdadeiros entre 1911 e 2017 – e captadas a partir de todo um monumental esforço envolvendo pesquisas, entrevistas e investigações.

Esse trabalho foi, de certa forma, revelador para mim: me ensinou a diferença entre o real e a verdade.

Explico-me: no final, toda a soma das investigações geraram uma linha de tempo. Uma linha de tempo detalhada e recheada de fotos e relatos, indubitavelmente. Mas, ainda assim, uma linha de tempo que cabe em umas duas ou três páginas.

Linhas do tempo, concluí, são as verdades – os fatos inquestionáveis, documentados, indiscutíveis. Mas eles não são o real.

E não o são porque o real é sempre, sempre, uma história. É o que acontece entre um fato e outro em uma linha de tempo, é a cola entre os fatos, o conjunto de emoções, sensações e conflitos que geraram os marcos.

O problema disso em biografias? Por mais que verdades sejam quase sempre fartas e documentadas, o real sempre depende muito mais de interpretações e relatos que, na medida em que o tempo passa, vão ficando cada vez mais rarefeitos.

E é aqui que entra o papel do biógrafo: usar o seu poder de construção de narrativas e a sua capacidade de dedução para criar colas e transformar verdades no real, na história que efetivamente entrará pelas pálpebras das pessoas e se imortalizará como “o que realmente aconteceu”. Porque, queiramos ou não, não se pode negar uma coisa: o que fica na eternidade, o que é entendido como o real, nunca é um punhado de dados e datas: é a história melhor contada – aquela carregada de tramas e dramas, de tons muito mais cinzas do que pretos no branco. De tons que tendem a sair muito mais da imaginação do escritor do que de qualquer minuciosa análise do passado.

Voltando ao ponto original do post: qual a diferença entre a verdade e o real? A verdade, os dados indiscutíveis, pontuais, factuais, são a única coisa que efetivamente se pode provar que aconteceu; mas o real, a história que une os fatos e os cola em uma narrativa única, depende muito mais do contador da história do que de sua cronologia – e, portanto, embora estejam naturalmente sujeitas a vieses, é o que eterniza-se como o que “realmente aconteceu”.

Fiz um post dia desses falando que “somos as nossas próprias histórias”. Retifico-me: na verdade, somos as histórias que contam sobre nós.

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11 livros de “países de merda”

Caso vocês queiram beber um pouco da riquíssima cultura dos países que o [complete com seu palavrão preferido] Trump chamou de “shithole” (e que me permitirei aqui traduzir como “países de merda”), o ElectricLit publicou a seguinte lista (que compartilho abaixo).

Infelizmente, a maioria dos títulos está disponível apenas em inglês – mas, se puder e conseguir, vale MUITO a pena debruçar-se sobre eles.

  1. The Art of Death, de Edwidge Danticat (Haiti)
  2. Aqui estão os sonhadores, de Imbolo Mbue (Camarões)
  3. Americanah, de Chimamanda Ngozie Adichie (Nigéria)
  4. Carrying knowledge up a palm tree, de Taban Io Lyong (Uganda)
  5. O Caminho de Casa, de Yaa Gyasi (Gana)
  6. Precisamos de novos nomes, de NoViolet Bulawayo (Zimbabwe)
  7. Teaching my mother how to give birth, de Warsan Shire (Somália)
  8. Under the Udala Trees, de Chinelo Okparanta (Nigéria)
  9. Asco, de Horacio Castellanos Moya (El Salvador)
  10. Concerto Al-Quds, de Adonis (Síria)
  11. Kintu, de Jennifer NAnsubuga Makumbi (Uganda)

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