Teremos, um dia, uma obra prima global?

Procuro sempre guiar o meu hábito de leitura pelos extremos: quando leio autores daqui mesmo, do Clube, ou outros brasileiros como Guimarães Rosa ou Graciliano Ramos, equilibro-me com um Murakami, um Pamuk ou um Tosltoy. São espécies absolutamente diferentes de literatura – espécies que beiram a incompatibilidade criativa. 

Aqui, no ocidente, tendemos a ser mais sucintos e mais mergulhados nas histórias do que nas formas. Não que as formas sejam desprezadas – mas elas existem mais para embalar alguma mensagem mais densa e disruptiva. 

Do lado de lá, tudo muda: a forma é protagonista. Para ficar em um exemplo: Vermelho, de Pamuk, é um livro construído nos mais delicados detalhes, chegando ao ponto de ter como narradores um cavalo, a cor preta, uma árvore. Os pontos de vista das coisas se entrelaçando em um enredo é algo brilhante por si só. 

Essa minha viagem constante pelas fronteiras da literatura tem me feito me perguntar algo: será que, um dia, teremos uma espécie de obra prima que una essas duas características como nenhuma outra? Será que, um dia, teremos algum livro composto com o detalhismo do hemisfério de lá somado à brutalidade genial do hemisfério de cá? 

Se isso ocorrer, arrisco-me a palpitar, será por agora: em nenhum outro tempo tantas ondas de imigração se sucederam, resultado de guerras e misérias, enevoando as fronteiras entre ocidente e oriente. Quanto menos fronteira, claro, mais união cultural se pode esperar.

Se isso ocorrer, arrisco-me a palpitar, será também por aqui, no universo da autopublicação – dificilmente um editor tradicional, antiquado, avesso a inovações, conseguirá sequer entender o poder de uma literatura universal.

Dos meus dois lados de cá – o do Clube de Autores e o de um leitor qualquer – fico na torcida para que esse dia em que uma obra prima universal, uma obra que una o melhor dos dois mundos do nosso mundo, seja logo composta. 

 

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Menos debate, mais livros

Recentemente, a timeline do meu Facebook tem sido tomada por eventos “mercadológico-literários”. Todos tem a mesma pauta: discutir o futuro do mercado, ebooks versus impressos (ainda), o papel de editores, para onde vamos etc. e tal.

Cansei de todos esses tipos de evento.

Para mim, esse negócio de prever o futuro é relativamente simples: basta olhar o presente e tirar dele tudo o que não faz sentido.

E o que não faz sentido?

Esses tipos de debate em si, como se qualquer conclusão que saísse deles fosse efetivamente mudar alguma coisa.

Qual o futuro do livro? O livro.

Simples assim.

As velhas editoras em seus modelos de distribuição arcaicos, cobrando fortunas justamente dos autores para entregar o que já se pode conseguir de graça, fazem sentido? Não, claro que não. Então devem eventualmente desaparecer.

Os profissionais do livro, como capistas, diagramadores, revisores etc., continuam sendo necessários? Óbvio que sim. Então devem não apenas continuar existindo, como também crescer enormemente pelas possibilidades de negócio que a Internet tem aberto a todos. Um parêntese aqui: só o Profissionais do Livro, que lançamos há alguns anos e nunca fizemos nenhuma divulgação extensiva na mídia, já tem quase quatro MIL profissionais vendendo e entregando seus serviços. Quer prova maior de mercado?

O futuro do livro é impresso ou digital? Sinceramente, isso importa? O importante não é apenas que as pessoas leiam (ou escutem, no caso de audiolivros)? E da maneira que melhor convier a cada um?

As livrarias tradicionais tendem a desaparecer? Bom… a partir do momento que você vai a uma livraria física e nunca encontra o livro que você procura – algo cada vez mais comum em um mundo com cada vez mais livros e menos espaços em vitrines – me parecem que, no mínimo, elas precisarão mudar.

Vejam… não estou tecendo nenhuma conclusão complexa, sofisticada, fruto de horas e horas de reflexão no alto de uma montanha no Tibet: estou apenas escrevendo o que parece o mais óbvio e ululante.

O que também é óbvio? Se há como se publicar gratuitamente, se há redes sociais para se construir seus próprios públicos, se há como distribuir os seus livros nas maiores livrarias do país sem pagar nada… então para que perder tempo discutindo o sexo dos anjos? Não é mais proveitoso sentar, escrever, publicar, divulgar e vender?

Não é para isso que todos estamos aqui, afinal? Para contar as nossas histórias para o mundo?

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Há como escrever biografias reais?

Sim, eu sei que a pergunta é difícil – e já peço desculpas aos biógrafos que aqui me lêem.

Mas, recentemente, estou mergulhado de cabeça na tarefa de escrever a biografia de um atleta sul africano e heróis de guerra, um tal de Phil Masterton-Smith.

Mergulhado é pouco: já conversei com a irmã de 94 anos dele diversas vezes, já fiz amizade com sobrinhas e familiares, já bati papo com colegas de regimento, já capturei documentos oficiais da Segunda Guerra, já até me planejei para repetir um dos seus feitos, pedalar 1700km pela África em 10 dias e correr uma ultramaratona de 89km no dia 11.

E a história, modéstia à parte, está mesmo tomando uma forma belíssima. Mas sabe onde essa dúvida do título me bateu?

Nas partes entre datas e fatos documentados. Biografias, concluí, são sempre compostas de três partes: os inegáveis fatos, os dedutíveis pensamentos e as filosofias de vida quase sempre obscuras, íntimas demais para se fazerem realmente sabidas.

O que Phil, por exemplo, estava pensando antes de embarcar em um ou outro caminho de sua vida? O que ele buscava, realmente? E do que era composta aquela “matéria negra” tão vasta, tão maior, que circundava cada decisão sua.

No meu caso – como no caso de qualquer biógrafo – não há como saber.

Há, no entanto, como projetar, como encaixar filosofias entre ações, fatos e dados do biografado. A grande questão é que, no fundo, essas filosofias partem invariavelmente de uma única pessoa: do autor.

Assim, um biografado não é apenas uma pessoa real, que viveu sua vida e fez suas coisas: ele é também, ainda que em parte, um personagem de ficção, parido e criado pela mente do seu autor.

Volto, portanto, à pergunta do título: há como escrever biografias reais? Minha conclusão: não.

Biografias, no final, são sempre peças de ficção baseadas em fatos verdadeiros.

Mas a história da humanidade inteira não é também escrita exatamente desta forma?

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