Por mais revoluções na língua portuguesa

Ganhei de Natal o livro “O Remorso de Baltazar Serapião”, do escritor português Valter Hugo Mãe. 

Nunca tinha lido nada deles antes, mas o testemunho de Saramago me empurrou para as suas páginas com tamanha voracidade que o terminei em algo como três dias. Dentre o que o mestre falou sobre esta obra, destaco a frase que foi parar na contracapa: “Este livro é um tsunami no sentido total: linguístico, semântico e sintático. Deu-me a sensação de estar a assistir a uma espécie de parto da língua portuguesa.”

É óbvio que a opinião de Saramago procedia: ele era, afinal, daquelas pessoas que não opinavam: criavam fatos incontestes. O motivo? 

“O remorso de Baltazar Serapião” esconde, em um enredo assustadoramente machista e polêmico, metáforas brilhantes sobre o tempo dilacerando a nossa vida; ele brinca com a língua portuguesa com uma maestria absoluta – excluindo de toda a obra, para ficar em dois exemplos, o uso de maiúsculas e de pontos de interrogação; ele consegue situar uma história medieval em qualquer parte da história da humanidade com uma perfeição perturbadora. 

Mas foquemo-nos na questão das maiúsculas e dos pontos de interrogação: como é possível um livro inteiro ser escrito sem elas? Simples: Valter Hugo Mãe prova que histórias dependem muito mais das suas próprias cadências do que de pontuações universalmente aceitas. Aliás, fica-se tão acostumado a ler nessa língua paralela que o autor cria que, ao tomar qualquer outro livro em mãos, julga-se facilmente o uso das regras idiomáticas corretas como excessos. 

Tanto este “Remorso” quanto os outros três livros do que acabou sendo chamado de “Tetralogia da Minúsculas” (por motivos óbvios) devem ser lidos por todos, principalmente por autores. São exemplos vivos de que, embora milenar, nosso idioma ainda pode ser poeticamente trabalhado de maneira a liberar – e não aprisionar – narrativas. 

São provas de que outros mestres como Guimarães Rosa, Mário de Andrade e, claro, o próprio Saramago, não precisam estar tão isolados nessa reinvenção da língua portuguesa e que, ao contrário, ela deve ser constantemente recriada por todos os escritores para facilitar o seu próprio propósito fundamental: permitir que histórias sejam contadas. 

Se o mundo não para de girar e evoluir, afinal, porque o idioma que o expressa deveria ficar congelado no tempo?

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