Zeitgeist e a inspiração que nasce dos tumultos de nossos tempos

Zeitgeist é uma palavra alemã que significa “espírito do tempo”. Sua aplicação prática: entender qual o conjunto de valores que está efetivamente movendo uma sociedade em um dado momento para que se consiga tomar proveito disso.

O “tomar proveito”, nesse caso, significa surfar a onda de uma comoção popular já formada e, portanto, deixando algo que se queira vender (seja um produto ou uma história) com uma vantagem fundamental. E, apesar do conceito parecer recém saído das páginas de um livro de marketing, ele já era essencial há séculos.

Tome Shakespeare, por exemplo.

Todas, absolutamente todas as suas grandes peças tiveram os seus enredos baseados em fatos que estavam mexendo com o imaginário popular. Othello foi escrito quando Elisabeth I expulsava os mouros de Londres; o Rei Lear se baseou em um caso jurídico real que se transformara na grande fofoca do reino; MacBeth foi feita para celebrar, por meio de metáforas, a linhagem do monarca James I , para quem a peça foi escrita.

A receita de Shakespeare sempre foi simples (o que, ressalvo, não subtrai em nada a sua genialidade): entender o que estava movendo o povo e criar uma peça que metaforizasse o momento para angariar um tipo mais entusiasmado de atenção.

O bardo, no entanto, viveu em um tempo de poucas imensas mudanças sociais – o oposto do nosso.

Nossos tempos são mais agitados: há pequenas revoluções, por assim dizer, acontecendo a cada par de dias. Olhe para a política brasileira: não há uma só semana em que tudo não esteja na iminência de uma ruptura completa.

Olhe a política americana: não dá para dizer que a eleição de Trump, com todas as suas promessas xenófobas e radicais, vá pacificar o planeta.

Olhe para os refugiados do Oriente Médio, para a falta de preparo da Europa em recebê-los e para o absoluto caos gerado por causa disso. Olhe para o Brexit.

Olhe ao seu redor.

O mundo tende a ser um lugar muito, mas muito mais tenso do que o que já foi em qualquer ponto do passado pós revolução industrial.

E por que isso tem alguma relevância em um blog que gira em torno de escritores?

Porque, se me permitem a frieza, nunca um mundo entregou tanto zeitgeist e tanta inspiração para histórias.

Esse lugar quente, feito de cataclismas semanais e de radicalismos diários, é uma espécie de paraíso para mover mentes e corações e gerar clássicos talvez muito mais intensos que os da Inglaterra Shakespeariana.

Para quem está do lado de cá da tela, apenas acompanhando a literatura moderna enquanto ela se forma, é um tempo que se pode traduzir no mais puro entusiasmo.

Para quem está do lado daí, torna-se cada vez mais imperativo saber como aproveitar bem esse nosso mundo tão inclinado a se revolucionar.

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Shakespeare, a linguagem e o enredo

No final do século XVI, Shakespeare era encenado em um teatro iluminado pelo sol e totalmente desprovido de qualquer noção mínima de higiene. 

Os espectadores, quase todos analfabetos, se enfileiravam por bancos desconfortáveis. Quando sentiam vontade de ir ao banheiro, urinavam e defecavam ali mesmo, sem sequer se levantar, o que dava ao ar um toque assombrosamente fétido. Enquanto Hamlet definhava a partir do próprio sofrimento, uma plateia de miseráveis desdentados se encantava, chorava e gargalhava com falas que, curiosamente, capturavam seus corações embrutecidos pelo clima da Inglaterra jacobiana. 

Mas… como? 

Como uma literatura que hoje é tida como altamente intelectual conseguia ser tão entendida e louvada por analfabetos sujos e mal educados? 

Não tenho uma resposta definitiva para isso… mas tenho um palpite. O segredo talvez não esteja nos enredos sinuosos de Shakespeare e de seus pares imortais e sim na linguagem. 

Explico-me. 

MacBeth nunca foi uma criação a partir do ar. Ao contrário, foi a adaptação da história de um rei escocês real feita para agradar o rei James I, para quem a peça foi escrita. Quase tudo, até as bruxas, foi inserido na trama para agradar ao monarca. 

Rei Lear também foi adaptado a partir da história real de um monarca que viveu 800 anos antes de Cristo – mas não foi isso que agarrou o imaginário instantâneo do público. Ao contrário, foi algo muito mais próximo: uma disputa judicial entre o velho ex-secretário da Rainha Elisabeth I e suas três filhas que virou o grande assunto (ou fofoca) das ruas inglesas. Essa disputa, curiosamente, era muito parecida com a história do Rei Lear, que acabou sendo usada para representar a realidade. 

Há inúmeros exemplos nessa mesma linha, de histórias simples que se imortalizaram como as maiores obras de arte da humanidade. O motivo? 

Se os enredos esbarram no lugar-comum, no equivalente a uma novela ancestral contada para uma audiência com limitadíssima capacidade intelectual, o que fez dos clássicos, clássicos? O que fez MacBeth, Lear e Hamlet, além de tantos outros, sobreviverem aos séculos? 

A linguagem. 

Há trechos de cada uma das peças de Shakespeare que se tornaram universais pela maneira com que foram compostos. 

“A vida é uma história contada por um idiota, repleta de som e fúria, que não significa absolutamente nada.” (MacBeth)

“Ótima escapatória para o homem, esse mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas pela sua natureza de bode.” (Rei Lear)

Frases como essas inundam cada uma das peças de Shakespeare. 

Frases como essas inundam, aliás, cada um dos grandes clássicos da história da humanidade, condensando em palavras cuidadosamente escolhidas o óbvio da alma humana. 

E é isso que faz uma grande história. São pensamentos assim, expressados na mais sofisticada simplicidade, que transformam obras literárias em obras de arte. 

O resto, a trama em si, o enredo, é apenas mobília: fundamental para a história e irrelevante para a sua imortalidade. 

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Livros são mesmo caros?

Há um mantra que o brasileiro costuma repetir sem parar como uma espécie de justificativa para seu baixo hábito de leitura: “livro é caro no Brasil”.

Vamos lá: um livro, hoje, tem um ticket médio de cerca de R$ 35. Por R$ 35, possivelmente acrescido de frete (caso a compra seja via Internet), compra-se um bem que pode durar um mês inteiro, que certamente o fará crescer intelectualmente e que trabalhará o seu cérebro como nenhum outro bem comercializável. Por R$ 35, em média, pode-se mergulhar na mitologia grega, conhecer países distantes, voar por outros universos e questionar as próprias leis da física. Tudo isso, claro, gerando uma sequência de sinapses que alimentarão o nosso órgão mais relevante, o cérebro, por um bom tempo.

E tudo isso por R$ 35. Uma barganha.

Façamos então uma comparação básica: em uma cidade como São Paulo, uma ida ao Cinema custa algo como R$ 100 (quase três vezes mais que um livro). Ainda assim, o brasileiro vai, em média, 8 vezes por ano ao cinema – mas lê pouco mais de 2 livros no mesmo período.

Veja: não quero criticar o cinema com isso. É um outro tipo de entretenimento que também enriquece o espectador e alimenta o cérebro. Mas é esse abismo entre as duas opções que causa estranheza. Afinal, se preço fosse realmente um impeditivo, ele também seria aplicável à telona.

O brasileiro não lê pouco porque o livro é caro: ele lê pouco porque não quer ler mais, seja por falta de interesse ou por excesso de preguiça.

Como leitor ávido, munido da certeza de que não há sociedade que evolua sem o hábito da leitura, torço para que essa realidade mude (como, verdade seja dita, já está mudando).

Mas, dizem, o primeiro passo de qualquer mudança é reconhecer onde está o problema real e parar de atacar inimigos fictícios.

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Black Friday com desconto de até 40% em todos os impressos do Clube!

Pelo quarto ano consecutivo, o Clube de Autores participa do Black Friday inserindo no nosso calendário a maior promoção do ano(e a maior que já fizemos até hoje): até 40% de desconto nos impressos!

Quando? De hoje, 21/11, até a segunda, 28/11 (incluindo aí a sexta, 25, a “Black Friday oficial”). Quer aproveitar?

Vamos às regras:

1) Todas as obras impressas publicadas no Clube já estão incluídas na promoção;

2) Os descontos variam de acordo com a paginação de cada obra (sendo, portanto, diferente para cada uma);

3) Os descontos não abrangem os direitos autorais. Ou seja: independentemente do montante cortado no preço, os direitos autorais permanecem rigorosamente os mesmos e os autores não serão prejudicados em nenhum aspecto. Caso queiram ampliar as quedas de preço no período mexendo nos direitos autorais, os próprios autores deverão fazê-lo indo a Sua Conta > Livros Publicados, clicando em “gerenciar” e em “editar direito autoral”.

4) O desconto durará até o final do dia 28.

Boas vendas!

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