Não se esqueça: tem bienal acontecendo em SP

E não, não estou falando da Bienal de Literatura. Pode parecer esquisito dado que este é um blog totalmente dedicado a livros, mas as grandes bienais de literatura se transformaram em feirões exaustivamente gigantescos sobre papel (e não sobre histórias). São poucas, pouquíssimas as novidades que realmente podem ser encontradas nos seus pavilhões e que não possam ser degustadas, por exemplo, em uma das tantas livrarias deliciosas que polvilham qualquer cidade média.

Em minha modesta opinião, bienais tem que cumprir um papel que vai muito, mas muito além de expor livros que não precisam delas para serem expostos. Bienais precisam inspirar.

Inspirar leitores a lerem mais, inspirar autores a escreverem mais, inspirar o país como um todo a se vestir melhor com mantos culturais fundamentais para a nossa evolução. E, enquanto as bienais de literatura não cumprem esse papel – ao menos a meu ver – há outra que vale a pena: a Bienal de Artes de SP.

Sim, ela é restrita a uma cidade: a capital paulista. Mas se você mora longe daqui, é o tipo de evento para o qual vale considerar uma viagem. As loucuras pelas quais se pode enveredar no pavilhão do Ibirapuera, incluindo instalações insanas e obras para lá de disruptivas, são suficientes para instigar mesmo as mentes mais cansadas.

A arte que se vê por lá vai muito além da que se costuma encontrar em museus: ela pinta o mais puro caos de pensamentos. E há alguma coisa mais inspiradora do que mergulhar no caos?

Se concorda comigo, programe-se: a Bienal estará ativa até o dia 11 de dezembro. Para saber mais clique aqui, na imagem abaixo ou vá diretamente ao link http://www.32bienal.org.br

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Maravilhosos microcontos

“Ajuda ele emprestava a juros. Amor só dava a prazo. Rancor era à vista. A gratidão só recebeu fiado.”

“Casa de ferreiro, espeto de pau – desculpava-se o carrasco perante sua mulher ao se recusar a esmagar aquela barata na cozinha.”

“Seu funeral teve tantos discursos que o morto conseguiu ser ainda mais enfadonho do que fora em vida.”

Pois é: essas três historietas acima são o que chamamos de microcontos. Como o próprio nome sugere repleto de obviedade, contos minúsculos, feitos de um punhado de caracteres, mas que compreendem pensamentos que voam da ironia ao amor com uma sutileza surpreendente.

Gênero novo? Talvez. Provavelmente. Em uma arte que se popularizou no passado com textos imensos, por vezes com centenas e mais centenas de páginas, a compressão de raciocínios sem dúvidas traz um ingrediente interessante a esse nosso universo de livros. E há um livro aqui no Clube que indicamos entusiasmadamente sobre o gênero (e de onde tirei esses exemplos que abriram o post): Microcontos cruéis, surreais, eróticos e outros, de Carlos Seabra, considerado por muitos como um dos pais do próprio conceito de microcontos.

Quer si divertir um pouco? Dê uma olhada nesse título clicando aqui ou indo diretamente ao link https://www.clubedeautores.com.br/book/216736–Microcontos_crueis_surreais_eroticos_e_outros.

É sempre uma viagem interessante desvendar novas fronteiras da literatura.

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Todo incentivo é bem vindo: Conheça o LeiaBrasileiros

Nosso motivo de ser, aqui no Clube, é abrir mais portas para a literatura nacional. Não é uma estrada simples de se percorrer, admito – mas admito também que temos colhido frutos bons, daqueles que nos enchem de orgulho por ter pensado nessa iniciativa há 7 anos.

E uma das conclusões que chegamos foi que, do ponto de vista de incentivo à literatura, todo apoio é sempre bem vindo. Nenhum país do mundo, afinal, anda para a frente sem que a sua população esteja devidamente inserida em um constante processo de digestão cultural. Em outras palavras: não se evolui sem leitura. E, embora o Brasil ainda esteja na rabeira do mundo do ponto de vista de livros lidos per capita, é fato que já melhoramos muito em relação ao que éramos no passado.

Hoje cedo me deparei com um site simples, fruto de uma ideia ainda mais simples e com um potencial muito, muito interessante de contribuir com essa silenciosa mas poderosíssima revolução social feita a partir da expansão dos hábitos de leitura. O nome: LeiaBrasileiros .

A ideia: você assina gratuitamente o site e recebe, de segunda a sexta, trechos de livros de autores nacionais para abrilhantar um pouco mais o dia.

Curtiu?

Então vá lá no www.leiabrasileiros.com.br e divirta-se!

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Uma outra ótica sobre o post-viagem da sexta

Na sexta passada, confesso, acabei viajando um pouco e escrevendo um post extenso – muuuuito extenso – sobre oportunismo e a maneira com que devemos entender bem as correntes de pensamento para conseguir impactar mais a vida das pessoas.

Hoje busquei um vídeo no sempre fértil site do TED com um enfoque diferente sobre a mesma coisa. O tema? Como grandes líderes inspiram ação. Recomendo que leiam o post de sexta e que vejam esse vídeo.

E recomendo também, claro, que tentem colocar algo assim em prática não apenas no próximo livro que escreverem, mas em toda a carreira que estão desenhando.

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Sejamos todos melhores oportunistas

Tolstoi considerava que não existia, na história da humanidade, nenhuma única figura capaz de, isoladamente, mudar os rumos do mundo. Ao contrário: em sua obra prima, Guerra e Paz, ele desenhou Napoleão como um oportunista que conseguiu identificar uma espécie de “corrente de pensamento” entre seus pares, pintar-se como o capitão de uma nau feita para navegar rapidamente por essa corrente e, assim, mudar os destinos da França, da Europa e do mundo.

Poder, segundo Tostoi, não é fruto de um ato de heroísmo isolado – é a capacidade de identificar a vontade popular e de criar argumentos e justificativas para colar a sua imagem a ela.

Tentemos, no entanto, tirar a camada política do pensamento desse que foi, provavelmente, um dos maiores gênios da literatura que o mundo já viu. Observemos o quadro mais de perto.

Cada gesto que tomamos em nosso cotidiano, cada decisão rumo ao nosso futuro, é tanto consequência quanto causa de algo.

É consequência porque, obviamente, qualquer decisão é fruto de uma série de fatores que nos levaram a considerar um caminho em detrimento de outro. Ninguém escolhe escrever um livro, por exemplo, sem antes ter, ainda que flutuando no inconsciente, alguma história fruto de toda uma gama de experiências de vida acumuladas.

Esse mesmo livro, consequência das experiências do autor, é também causa pelo simples fato de que histórias mudam vidas. O simples ato de publicar um livro, aliás, encerra um capítulo emocional em nossas vidas e nos deixa preparados para enfrentar outros tantos. Nos faz crescer, abre algumas portas, fecha outras, aponta caminhos que pareciam inexistentes. E não são causa apenas para nós: um autor muda a vida de cada leitor que devora as páginas que escreveu, forçando sinapses que não existiriam sem os seus parágrafos e encurtando (ou mesmo abrindo) caminhos para decisões.

Ou seja: um livro é consequência das experiências de vida do autor e causa para novas experiências do mesmo autor e de seus leitores.

Um livro coloca, com todas as suas palavras, nomes e enredos a correntes de pensamento. Um livro dá nortes. Um livro dá um tipo de poder inimaginável ao impactar diretamente a vida de pessoas que, a partir daí, tomarão decisões que podem mudar os seus destinos e os de todos em sua volta.

E o que fazemos nesse infinito ciclo de causa e consequência? Vivemos. Ou melhor: nos deixamos levar pela vida.

Voltemos a Tolstoi e ao oportunismo dos heróis.

Quanto mais um livro conseguir captar as correntes de pensamento inconscientes da humanidade, ainda que colecionando sutilezas, maior o seu potencial de público e, consequentemente, de sucesso. Quanto mais ele se transformar em consequência dos tempos em que foi gerado, mais ele tenderá a causar mudanças sociais, das mais óbvias às mais intangíveis.

Mas não é só uma boa história que faz um livro de sucesso. Há a questão do autor conseguir identificar bem as oportunidades, as pessoas, os momentos; há a fundamental questão dele saber lidar com cada situação de maneira a tirar o melhor proveito possível e, com isso, aproveitar oportunidades que não existiam há minutos, há segundos.

Isso é oportunismo – no bom sentido. É deixar-se levar por uma espécie de força de gravidade social ao invés de brigar contra ela; é tentar beber o máximo possível das correntes de pensamento em vigor para devolver ao mundo visões autênticas do que todo mundo já pensa, mas não sabe colocar em palavras.

Napoleão foi o grande oportunista de Guerra e Paz, claro. Mas o próprio Tolstoi foi um oportunista perfeito ao identificar o cenário ideal na Rússia do meio do século XIX para escrever a história ideal. Sagrou-se um autor-herói, por assim dizer.

Assim como outros tantos fizeram mundo afora: Machado de Assis, Saramago, Murakami, Achebe, García Marquez, Hemingway – para ficar apenas em uma meia dúzia.

Genialidade real não está em criar nada de novo: está em perceber as oportunidades perfeitas para colocar o óbvio em palavras, apresentando-se como criador supremo de ideais que, embora inomináveis, já sejam quase universalmente conhecidos e compartilhados.

Que consigamos todos aprender o oportunismo dos heróis.

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