Lendo Guimarães Rosa com suor

Há muito tempo eu publiquei aqui uma espécie de relato de intenções: iria participar de uma ultramaratona de 140km pelo sertão mineiro, largando de Morro da Garça e chegando em Cordisburgo (veja aqui). O que isso tem a ver com literatura? Foi por esse percurso que Guimarães Rosa tocou uma boiada com alguns vaqueiros e que acabou se inspirando para escrever uma das mais belas obras de arte da história humana: Grande Sertão: Veredas.

Pois é: a corrida foi no sábado passado. Ou melhor: ela largou às 14:00 da sexta e terminou às 19:30 do sábado, 29 horas e 30 minutos depois.

Além de fisicamente despedaçado, percorrer esse caminho (o nome da corrida era “Caminhos de Rosa”) foi esclarecedor. Primeiro, por largar de Morro da Garça, protagonista do conta “O Recado do Morro”, em pleno calor de 40 graus do sertão.

Corri, corri, corri e, por horas a fio, o morro realmente ficou lá, como que me seguindo com uma onipresença embasbacante.

Depois, a noite caiu. Me lembrei do Chefe, personagem de Buriti Bom que tinha tanto medo da noite que a atravessava acordado. “O sertão é de noite”, ele falava, referindo-se aos ventos que sopravam os esconderijos dos animais, das aves noturnas que caçavam, da vida que explodia quando o sol não estava lá para queimar tudo. Atravessei a madrugada correndo, sentindo uma solidão avassaladora e percebendo cada detalhe que encontrou sua casa nas páginas dos livros.

Horas depois, a bola vermelha começou a colorir o pálido do solo e das árvores retorcidas com o dia. Incrível, inspirador, de uma pureza tão simples quanto sofisticada. O sertão se esconde na sua aparência de simplicidade, diria o mestre: ele se disfarça, convida visitantes com o clima ameno das primeiras horas e com o cheiro suave da sua poeira para, depois, castigá-los pela ousadia.

E como castiga. Depois de 17 horas correndo e caminhando, o calor estava ja escorchante. Dava para imaginar com uma vividez incrível os jagunços de Riobaldo guerreando contra os de Hermógenes; dava para ver os pobres catrumanos rondando pela seca; dava para sentir o gosto das desejadas veredas que nunca apareciam.

O único ponto de descanso que a prova tinha era em uma fazenda lá pelo km 121.

Entrei.

Dormi por 10 minutos contados, me recuperando o que podia e comendo um prato de comida digno do sertão: simples e farto, delicioso e absolutamente essencial. ainda havia jornada: me recompus.

Troquei de roupa por uma muda limpa, sacudi a poeira caí na estrada de novo: ainda faltavam 27km (porque, sim, a marcação da prova estava errada e, no final das contas, a distância total somou 148km). O sertão engana.

Antes de iniciar essa corrida, li não apenas Grande Sertão: Veredas como também os três volumes de Corpo de Baile, totalizando algo como mil e quinhentas páginas. Precisava disso para seguir viagem, para ter comigo Manuelzão, Miguilim, Dito, as tias, Dona Lalinha, Dona Rosalina, Lélio, Pedro Orósio e todos esses vultos tão simbólicos, tão metafóricos e tão… precisos.

Estava me arrastando no último trecho: não tinha forças para correr, estava fraco, com bolhas nos pés, dores na cabeça e com coxas e panturrilhas urrando de dor.

Mas segui. É o que se faz quando não se tem outra opção, afinal.

Muitas horas depois, já no segundo por do sol, cheguei na Gruta de Maquiné, último ponto antes de Cordisburgo. Havia uma descida de 4km pela frente – algo que faz cada átomo do corpo doer depois de tantas horas correndo.

Desci, refazendo a vida, as histórias, o roseano da cabeça. Reli cada livro com a memória, cruzando seus fatos com o que eu havia testemunhado nas últimas tantas horas. Quando cruzei a chegada na cidade natal de Guimarães Rosa, estava em pandarecos, esfacelado, destroçado – mas feliz.

Estava inteiro.

Essa forma diferente de ler um autor – com as pernas – acabou me revelando que há muito mais para livros do que páginas, tintas e bits. Que histórias são feitas mesmo de poeira e ar, de sol, de suor e de cada milésimo de conclusão que cada leitor tira, a cada página.

Que histórias, quaisquer que seja, sempre se desenharão como metáforas para as nossas vidas: elas atraem, traem, tiram, devolvem, compensam. Basta atravessar – uma travessia que, acrescento, não é nada fácil.

O próprio Rosa diz isso na principal frase da sua obra prima, quase sempre depois de deixar claro que o sertão e a vida são uma coisa só: “viver é muito perigoso”.

Desculpem aqui o relato tão pessoal – quem me conhece sabe que não sou de falar de mim em espaços como esse. Mas essa jornada foi tão intensa, esclarecedora e, sobretudo, tão literária, que achei que cabia aqui.

 

 

 

 

 

 

 

2 comentários em “Lendo Guimarães Rosa com suor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *