O livro é caro? É por isso que o brasileiro lê pouco?

Desde crianças nos habituamos a ouvir de todos – pais, professores e amigos – que o principal problema do livro é seu preço. “Livro é caro”, repetimos incessantemente por gerações. 

Mas ele é mesmo? 

Não se vai ao cinema hoje por menos de R$ 40 (se somarmos ingresso à sempre presente pipoca). Ainda assim, o brasileiro vai, em média, quase 8 vezes por ano ao cinema. 

O preço médio de um livro é menor que R$ 35 – mas, em média o brasileiro tenta lê 4 livros e consegue chegar ao fim de 2,1 deles em um ano inteiro. Assutador. 

E porque comparar livro com filme? Porque ambos são modelos de se contar histórias, sendo que o livro é um tipo de meio que pode ser “aproveitado” por mais tempo, costuma trazer conhecimento de maneira bem mais densa e trabalhar a imaginação de qualquer pessoa como nenhuma outra narrativa. 

O problema, então, é o preço? Se isso fosse verdade, iríamos ao cinema uma vez na vida e outra na morte. Não é o caso. 

Dizem que quando se repete uma frase o suficiente ela vira uma verdade quase incontestável. Dizer que o brasileiro lê pouco porque o livro é caro é um caso típico disso: estamos tão habituados a considerar esse fator como absolutamente preponderante que sequer nos damos ao luxo de questioná-lo. 

O livro poderia custar menos? Sim, sem dúvidas – da mesma forma que o ingresso do teatro, o preço de um jantar ou um celular novo. Tudo poderia custar menos pelo simples fato de que ninguém gosta de pagar muito por nada. 

Mas daí a acreditar que o brasileiro lê pouco porque o livro é caro é um tipo de conclusão não apenas precipitada, mas totalmente sem base em parâmetros empíricos e capaz de afundar toda uma indústria criativa que, como qualquer outra, precisa de investimentos para poder crescer com qualidade.

  

21 comentários em “O livro é caro? É por isso que o brasileiro lê pouco?

  1. Eu tenho vontade de comprar o livro, mas por alguns motivos não compro. As vezes é o preço, as vezes eu não o acho para vender, as vezes está esgotado na editora etc :( Isso acontece com mais alguém aqui? Porque você quer comprar um livro, mas não o compra?

  2. Eu discordo, o contra-argumento da maioria é sempre comparar cinema, jogos, dentro outros prazeres dos quais uma pessoa teria que abdicar para se embrenhar numa leitura. Essa lógica está parcialmente correta, isso porque, a definição de prioridades perpassa não só os aspectos subjetivos, isto é, o que é mais recompensador para cada um, ir ao cinema ou ler um livro, mas também o orçamento das pessoas. Com um orçamento menor as pessoas devem fazer escolhas e, obviamente escolheram por algo que irá satisfazer suas necessidades mais imediatas. Por outro lado, alguém com um orçamento maior pode ir tanto ao cinema como desfrutar do prazer da leitura. Vejo ainda, defensores dos livros moralistas que querem de alguma forma culpabilizar as pessoas por escolherem o shopping ao invés do livro. A grande questão é que, quando o dinheiro permite as pessoas buscam novas experiências, e uma hora ou outra vão se esbarra na leitura. Eu nunca tive um livro impresso de Freud, Foucault, Darwin, Wittgenstein, Hannah Arendt, R. Dawkins, Pinker, dentre outros autores que gosto. Tudo que li foi em pdf, meu dinheiro não dá :( Para o meu pequeno orçamento isso seria um luxo, eu devo parar de ir ao cinema? De comprar comidas que gosto? De forma alguma, o livro não vai preencher toda a necessidade de prazer do ser humano, tendo que escolher entre ler ou ir ao cinema, é lógico que ir ao cinema é mais lucrativo. E espero que continuem afirmando o preço dos livro, pois o acesso ao conhecimento ainda é recente, historicamente não faz tanto tempo assim que o monopólio dos pergaminhos, escritos e livros pertencia as classes mais nobres e altas da sociedade.

    1. Discordamos bastante um do outro, Procopio. Mas, enfim… a discordar faz parte de qualquer debate. Só espero que quando menciona ter livros em PDF não signifique tê-los de maneira pirateada e sim legal, legítima, comprada em forma de ebook…. certo?

      Fora isso, não há questão moralista envolvida aqui. O que há, claro, é uma questão de escolha, natural em qualquer sociedade. Quando temos pouca verba, temos que fazer escolha entre opção a ou opção b. E todos somos livres para escolher o que quisermos, claro.

  3. Bom, além de autora aqui no Clube, sou técnica de Biblioteca numa escola Municipal de Minas Gerais. A realidade da formação do leitor vista de perto, tem outro parâmetro. Infelizmente, existem crianças de 5º ano do ensino fundamental que não são alfabetizadas. Elas sabem escrever, são copistas, mas não sabem ler! Fato e realidade! Esses dados assustaram são resultados de ene motivos diferentes, desde uma base familiar fragmentada, violência sexual, dentre tantas outras coisas, que por fim, percebemos que essas crianças, possivelmente não se formarão leitores, ou seja, pessoas que apreciam a leitura e os livros, principalmente os de Literatura. Penso que o investimento na promoção da literatura infantil é muito importante, as crianças devem ter acesso a bons livros, gibis, contos de fadas entre outras coisas. O tema: Brasileiro não lê porque livros são caros…. é apenas uma peça do dominó.

    Gostaria de deixar uma sugestão para o Clube de Autores. Que tal vocês promoverem e patrocinarem de alguma maneira, uma campanha semestral ou anual que reunisse livros para doação para acervo de bibliotecas municipais de escolas mais carentes? Sei lá, vamos promover meios de acesso a leitura ao invés de questionarmos apenas os preços dos livros. Livro é apenas uma plataforma que leva o conhecimento ou entretenimento para a vida de um sujeito, mas que também tem o peso de ser o portal para todas as coisas.

    Um grande e afetuoso abraço!

  4. Um dos fatores que fez com que as pessoas pararem um pouco de adquirir os livros impressos são os ebooks gratuitos em sites como Whattpad.
    Não podemos ficar nessa de o livro é caro. Pra pagar 1.200 num ingresso de show não vejo NINGUÉM reclamar. Por favor, valorizem os livros, PRINCIPALMENTE OS NACIONAIS DE ESCRITORES COMTEMPORÂNEOS NOVOS.

  5. Quem lê. Lê! Quem não lê. Não lê! Dinheiro aqui não é a questão. A questão é cultural. As pessoas pulam o carnaval até de barriga vazia. Está no meu livro: O POLICIAL SONHADOR.
    Também não vou discordar que o livro no Brasil é caríssimo, se levarmos em conta quanto um brasileiro ganha por mês. O livro é um propulsor de cultura, mas com preços assim não há como sustentar tanto a cultura quanto o comércio de livros. Então se eu leio. Leio! Mas não posso deixar de comer.

    1. Vinícius, livros “best-sellers”, como você coloca, são impressos em tiragens de milhares e milhares de exemplares – o que com certeza faz todo o preço ficar mais barato. Ainda assim, mesmo impressos um a um e sem cobrar nada dos autores, os preços daqui estão na exata média de preços de livros por levantamentos que fazemos desde que o Clube foi fundado, em 2009. E, se podemos garantir algo, é que preço – ao menos quando fica dentro dessa média que praticamos – não é barreira para o sucesso. Afinal, nós vivemos exclusivamente da venda de livros – e se estamos aqui até hoje, crescendo ano a ano mesmo a despeito da crise, é porque há compras acontecendo. Nesse aspecto, o que sempre recomendamos é que trabalhe todos os aspectos da sua obra: divulgação, público, capa, diagramação etc. Se tudo estiver alinhado, as vendas virão como consequência.

  6. Dizer que o livro é caro é uma grande desculpa. Se você sai para comer um lanche, tomar um refrigerante ou qualquer outra coisa do tipo não gasta menos de 50 reais. E vejo que toda semana, e às vezes mais de uma vez por semana as famílias saem, e não digo só as famílias que têm um padrão de vida melhor, a maioria das famílias saem no mínimo duas ou três vezes por mês e não reclamam. Mas adquirir um livro é caro. O que falta para os brasileiros é a cultura de que livro é essencial, essencial para adquirirmos senso crítico, para aprendermos a entender melhor e escrever melhor. Por isso muitos fazem o que querem e nosso povo deixa. Nosso povo não lê. Então não adianta chorar.

  7. Pensei que essa frase havia se tornado um arcaísmo. Acho que nunca foi tão fácil ler,livros físicos ,ou digitais.Bibliotecas não é artigo de luxo e espero que nunca sejam.Temos o grande exemplo da Mário de Andrade,com um grande acervo e agora funcionado a noite.E espero que iniciativas como essa se multipliquem.Ler é necessário,é transformador.Há milhares de razões para não ler um livro,porém uma delas, certamente, não é o preço.O Grande problema é a falta de incentivo ,a falta da cultura da leitura.E pelo andar da carruagem não percebo nenhuma grande melhora em relação a esse déficit.

  8. Alguns anos atrás saiu uma reportagem no Prosa & Verso do jornal O Globo, uma espécie de dossiê sobre o preço do livro no Brasil. Em off os editores afirmaram que não baixariam o padrão internacional para publicar no Brasil e que os livros aqui eram publicados sim, para as classes A e B. Qual a porcentagem do salário do brasileiro médio 1, 2 ou 3 livros, consomem? Veja pelo salário mínimo, que não dá nem para pagar, luz, água, gás, alimentos, roupas e remédios. Aí vem o cara de classe média, paitrocinado, falar que brasileiro é preguiçoso e alienado. Sei…

    1. Mas se o cara da classe baixa pode comprar um computador de quase dois mil e parcelar em 12 de “cento e pouco”, por quê ele nao pode comprar um livro? Varias pessoas que eu conheço fazem esse tipo de coisa. sem contar a existência de sebos, ebooks e projetos, promoções e feiras literárias. Comprei um livro que normalmente custa cinquenta por cinco. O brasileiro tem sim preguiça. Na minha sala de aula, cheia de alunos de classe média, contando comigo, quatro pessoas ja se dignaram a ler um livro, os outros não leem porque “é chato”, “perda de tempo” e outras grandes razões desse tipo.

    2. A.C., não entendi ao certo o comentário, mas uma coisa é fato: o mesmo brasileiro que não compra livro sob a alegação de que ele é caro é o que não se furta em pagar mais, por exemplo, para ir ao cinema. Esse é o ponto. Que todos os bens materiais poderiam ser mais baratos, isso não se discute. Mas daí a usar dois pesos e duas medidas para chegar nessa conclusão já são outros quinhentos…

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